O poema/canção "Um homem tão bom... Michel F.M.
O poema/canção "Um homem tão bom quanto qualquer outro" de Michel F.M. explora a dualidade humana, contrastando a aparência de bondade com a crueza dos instintos e das relações sociais.
Abaixo, uma análise dos pontos principais:
1. A Ironia do Título e do Refrão
A frase "Um homem tão bom quanto qualquer outro" é o pilar central. Ela não é um elogio, mas uma nivelação por baixo.
Ao dizer que ele é "tão bom quanto todos", o autor sugere que a "bondade" humana é medíocre, comum e, muitas vezes, apenas uma fachada que esconde impulsos violentos e insanos.
2. Contraste entre Civilização e Instinto
O texto utiliza termos que evocam conflito físico e psicológico:
Aparência: "vestidos de anseios", "sorridentes", "mentira encantadora".
Realidade: "enfrentamento corporal", "insanos e loucos", "chutes e socos".
Essa estrutura mostra que, por trás do comportamento social aceitável, residem o desespero e a brutalidade ("garras entre chutes e socos").
3. A Incompreensão do Indivíduo
O eu lírico repete que o homem "jamais compreendeu" o "tom", o "som" ou o "dom". Isso indica uma alienação: o indivíduo vive dentro de um sistema de trocas sociais e conflitos, mas não entende a lógica perversa ou a natureza instintiva que rege essas interações. Ele é parte do "delírio absoluto" mencionado no título da obra.
4. A Mentira como Suporte
Os versos "Uma mentira encantadora / Nos faz suportar inúmeras verdades" sintetizam a obra. Sugerem que a sociedade (e o próprio homem "bom") sobrevive baseada em ilusões e aparências para não ter que encarar as "verdades" cruas da existência e da natureza humana perturbada.
5. Estilo e Linguagem
Imagens Fortes: O uso de "obelisco erigido às beldades" contrasta com o "desespero", criando uma sensação de que a beleza e a civilização são monumentos frágeis diante do caos interno.
Dualidade: O tempo todo o autor alterna entre o subjetivo (pensamentos, desejos) e o visceral (corpo, garras, socos).
Resumo: É uma crítica existencialista que questiona a moralidade comum, sugerindo que a bondade é muitas vezes uma máscara para a insanidade coletiva ou uma ferramenta de sobrevivência diante de uma realidade insuportável.
_________________________________________
Para aprofundar a análise, precisamos olhar para as camadas subjacentes de "Um Homem tão Bom", focando na desconstrução do sujeito e na crítica social ácida que Michel F.M. propõe.
Aqui estão três eixos de profundidade:
1. A Desconstrução da Individualidade (O Homem "Massa")
O refrão "Quanto qualquer outro" ou "Quanto todos os outros" retira a identidade do protagonista. Não se trata de um homem específico, mas do homem médio da modernidade.
O "Bom" Medíocre: O poema sugere que a bondade não é uma virtude ativa, mas uma ausência de distinção. Ele é "bom" porque segue o fluxo, porque é igual aos outros na sua loucura contida.
A Inércia: O fato de ele "jamais compreender" o tom, o som ou o dom reforça uma existência autômata. Ele vive o conflito ("chutes e socos"), mas não possui o despertar intelectual ou espiritual para entender a engrenagem onde está inserido.
2. O Conflito entre o "Eu" e o "Outro" (A Dialética da Crueldade)
A primeira estrofe é puramente visceral: "enfrentamento corporal", "embebidos desejos", "desespero".
A Relação Objetificada: O outro é visto como um campo de batalha. As "apreciações e desprezos" não nascem de um julgamento moral, mas de um choque de anseios.
Tratos entre Insanos: O autor define as relações sociais não como contratos de civilidade, mas como acordos precários entre "insanos e loucos". Isso aproxima a obra de uma visão hobbesiana (o homem como lobo do homem), onde a "bondade" é apenas a capa de um "pensamento revolto".
3. A Estética da Falsidade (O Obelisco e a Mentira)
A penúltima estrofe introduz uma mudança de tom: "Ensurdecedores teus olhares" e "Obelisco erigido às beldades".
O Monumento ao Vazio: O obelisco é algo rígido, frio e visível de longe. Erigi-lo às "beldades" quando o interior é de "perturbados" sugere que a cultura e a etiqueta são monumentos construídos para esconder a podridão ou o desespero humano.
A Mentira Funcional: "Uma mentira encantadora / Nos faz suportar inúmeras verdades". Aqui está o núcleo niilista do poema. A verdade (a finitude, a violência, a falta de sentido) é insuportável. A "bondade" do homem e a beleza das formas são as mentiras necessárias para que a vida não desmorone sob o peso da realidade.
4. Simbolismo das Mudanças no Refrão
Observe a evolução sutil do fechamento de cada refrão:
"Tratos entre insanos e loucos": O nível social/mental.
"Garras entre chutes e socos": O nível físico/animal.
"Tantos dentre tão poucos": O nível existencial/numérico.
A essência humana verdadeira ou a compreensão real é rara ("tão poucos").
Conclusão do Aprofundamento
O poema é um retrato do desajuste. O personagem título é "bom" por fora, mas sua vida é moldada por "decisões conflitantes" e "seres perturbados". Michel F.M. parece dizer que a normalidade é apenas uma forma de loucura que deu certo socialmente.
_________________________________________
Um Homem tão Bom
Quanto qualquer Outro
Eles estavam vestidos de anseios,
Haviam tido embebidos desejos,
Enfrentamento corporal, desespero,
Ocasionando apreciações e desprezos.
Foi um homem tão bom,
Quanto todos os outros.
Jamais compreendeu esse tom,
Afinal, foram tratos entre insanos e loucos.
O preço a pagar por aqueles
Pensamentos revoltos,
Decisões conflitantes fizeram
Seres perturbados e sorridentes.
Foi um homem tão bom,
Quanto todos os outros.
Jamais compreendeu esse som,
Afinal, foram garras entre chutes e socos.
Ensurdecedores teus olhares,
Permita-me outra vez coletá-los,
Obelisco erigido às beldades,
Quando há quem possa apreciá-lo.
Uma mentira encantadora,
Nos faz suportar inúmeras verdades.
Foi um homem tão bom,
Quanto qualquer outro.
Jamais compreendeu esse dom,
Afinal, foram tantos dentre tão poucos.
(Michel F.M. - Delírio Absoluto da Multidão Atônita - Trilogia Mestre dos Pretextos - 2016)
