Quando o Texto Me Lê Eu pensei que... Silasoliveira13
Quando o Texto Me Lê
Eu pensei que escrevia
para dizer ao mundo.
Mas escrevo
para escutar
o que ainda não sei.
A palavra sai achando
que sabe o caminho,
desfila segura,
convencida.
Até que eu volto.
Leio.
E o texto me olha de volta.
Ler o que escrevi
é chegar atrasado
a mim mesmo.
Um espelho sem rosto,
só gesto,
só intenção escancarada.
O medo se esconde
em frases longas,
cheias de vírgulas,
com medo do fim.
A coragem aparece
sem alarde,
num verbo simples
que não pede desculpa.
Enquanto escrevo,
defendo ideias.
Quando leio,
negocio com elas.
Descubro palavras
que não eram minhas
apenas passaram.
E verdades pequenas
que se sentaram
e ficaram.
O texto pergunta,
com ironia mansa:
Era isso mesmo?
Às vezes dói reler.
A genialidade de ontem
vira eco vazio hoje.
Outras vezes assusta:
fui eu
que escrevi isso?
Sim.
Fui eu.
Naquele dia.
Com aquele peso.
Com aquela lucidez possível.
O texto não mente:
ele registra o movimento.
Escrever não acaba
no ponto final.
Começa
quando o autor
vira leitor.
Ali,
o texto também escreve.
Aponta.
Ensina.
Cutuca.
Não grita.
Mas fica.
Quem não relê
perde metade da aula.
Porque escrever é falar.
E reler
é escutar.
E quase sempre
é na escuta
que a gente aprende.
No fim,
eu queria ensinar alguém.
Mas o papel, paciente,
me mostrou:
o aluno
era eu.
