Fazia Tempo que eu Nao me Sentia Tao Sentimental
"Quando eu não pertencer mais a esta dimensão, a única certeza que quero levar comigo é a de que aqueles que amei e cuidei estarão bem."
Na décima despedida, não chorei mais como na primeira. A dor não diminuiu. Eu é que aprendi a carregá-la.
A menina do Pátio
Eu era apenas um menino pequeno,
Com um sentimento
que não sabia explicar,
Ela passava e, sem dizer nada,
Fazia meu coração disparar.
Até que um dia, entre risos e brinquedos,
Meu amigo disse:
“Olha quem vem lá”,
E naquele instante,
sem pensar no medo,
Meu coração decidiu se declarar.
Fiquei na ponta dos pés, tão baixinho,
E roubei um beijo antes de pensar,
Depois corri, levando meu amigo,
Como quem tinha medo de se apaixonar.
Fui brincar,
esperando vê-la novamente,
Mas ela não apareceu para me encontrar,
E quando a vida nos colocou frente a frente, Aquele pequeno amor voltou a despertar.
Engana-se quem pensa que meu hobby favorito é puxar ferro. Não é!
O que eu mais gosto de fazer nos meus momentos de ócio é escrever.
Foi na escrita que descobri uma forma de organizar os pensamentos, dar sentido aos sentimentos e encontrar serenidade.
Do silêncio em mim
E eu não lhe disse nada...
E, o silêncio que se fez em mim, disse-lhe tudo.
No peito ficou guardado o que não encontrou coragem na voz.
Engasguei-me com a dor e o medo do som das palavras que poderiam de mim sair.
E cá estou eu: vivendo há séculos de frases inacabadas... palavras tartamudeadas, balbuciadas, só dentro de mim...
Dias nublados
Eu gosto dos dias nublados.
Não sei se gosto do cinza
ou do que o cinza faz comigo.
Nesses dias eu fico mais quieta,
mais fechada,
mais dentro de mim.
Tenho vontade de ficar em casa,
de olhar pela janela do ônibus
e deixar o tempo passar.
O céu parece carregar
um pouco do que eu sinto.
Tudo fica mais lento e confuso.
Os pensamentos ficam mais altos.
E eu penso em coisas
que nos dias ensolarados
talvez eu nem lembrasse.
Tem dias que o cinza lá fora
combina demais
com o que existe aqui dentro.
E talvez seja por isso
que eu não tenha tanta pressa
para que o sol apareça.
Às vezes eu só precise
de dias assim.
Um dia sem precisar sorrir,
sem precisar explicar,
sem precisar ser forte.
Só eu,
meus pensamentos
e esse céu nublado
me fazendo companhia.
Se eu fosse razão
Não seria emoção.
Se eu fosse regra
Não seria surpresa.
Se eu fosse eterna
Não seria saudade.
De tudo que eu queria ser
Eu não queria ser alimento,
nem resposta à fome em você.
Não queria ser o prato servido
àquilo que não sabe se conter.
Por muito tempo, talvez eu tenha pensado
que era preciso oferecer pedaços de mim,
para que o apetite dos outros, saciado,
enfim encontrasse um fim.
Mas hoje eu sei, com clareza e verdade:
não quero ser carne,
nem corpo exposto ao olhar,
nem presença invadida
por quem só sabe tomar.
Não quero ser usada,
rasgada, consumida,
só porque alguém não aprendeu
a cuidar da própria ferida.
Eu tenho limites,
tenho medo e frustração,
tenho partes que não entrego
sem antes tê-las nas mãos.
Há pedaços de mim
que ainda estou a conhecer,
e não posso oferecê-los
quando ainda não sei ser.
Também há coisas que só consigo dar
quando algo chega até mim;
só consigo abrir minhas portas
quando encontro espaço, enfim.
Só me entrego quando recebo,
só floresço em conexão,
só me abro por inteiro
onde existe acolhimento e mão.
Não me entrego ao vazio,
nem à pressa de quem quer tomar.
Minha entrega nasce do encontro,
do cuidado que sabe esperar.
Nasce do toque delicado,
da presença que sabe ficar,
de um abraço que me alcança,
de um beijo que sabe chegar.
Porque eu não nasci
para a fome dos outros saciar.
Não sou pedaço, nem promessa,
nem lugar para alguém se alimentar.
Eu nasci para o encontro,
para a troca e a comunhão;
não para ser consumida,
mas para viver reciprocidade no coração.
Eu costumava dizer exatamente as mesmas coisas.
Mantive a calma e não me meti em confusão.
Achei que a luta me fortaleceu.
Como se eu tivesse sido feita para nunca desistir.
Mas eu não consegui consertar, não consegui merecer.
Não consegui me limpar de alguma forma.
Eu me libertei daquilo que estava me matando.
E eu não sou mais o mesmo homem.
"Andei pelas ruas tentando não pensar em você
Estava tudo vazio, num domingo, e eu queria tanto te ver
e os minutos nunca passavam das horas.
O tempo parou com sua face soprando na minha alma a sua memória."
"Me libertem, eu quero agora a liberdade
Não vou deixar para mais tarde
Não vou mais celebrar a ignorância da sociedade"
"Naquela época das trevas em que estava desolado, tudo que eu não queria, acontecia naturalmente....e tudo que eu desejava, corria de mim..."
"Todo vez que Deus me mostra uma pessoas que deseja meu mal, eu não planejo o mesmo pra ela, pelo contrário, eu me ajoelho e oro por ela, eu sirvo a Deus, não o diabo, é o bem que eu busco fazer, quem se serve do mal hoje, amanhã será consumido por ele."
"Eu abdiquei de muita coisa em minha vida, só pra não perder aquilo que pra mim, é o mais precioso, o amor de Deus"
No fim, não sei se eras tu, se era eu, ou se éramos nós dois. Só sei que, depois que terminámos, até os meus problemas deixaram de ser problemas!
(...)
eu não sei se passei no teste
de ser gente ou alguma coisa
queria mesmo é ser a Mosca
dos filmes do Cronenberg
ou o inseto monstruoso do Kafka
que um dia não saiu mais
um dia me tranquei no quarto
um dia me tranquei na vida
e não fui mais
simplesmente não fui
e nem tentei encontrar
respostas ou motivo
Não há nada depois dessas coisas.
_______________________
(Fragmento do poema “Um inseto monstruoso”)
Lisa Alves — Jardim de Pragas (2025)
