Leticia Cristina Rocha
Hoje o meu silêncio fez mais barulho que o mundo.
Sorri entre vozes,
mas por dentro havia um quarto vazio,
onde nem a minha própria companhia
conseguia afastar a sensação de ausência.
É estranho sentir-se só
quando há tanta gente por perto.
Mais estranho ainda
é duvidar do próprio lugar no coração de alguém.
Talvez eu não precisasse de respostas,
apenas de um abraço que dissesse,
sem palavras:
"Você importa. Sempre importou."
Enquanto esse abraço não chega,
guardo a esperança de que até os dias mais nublados
não conseguem apagar a luz
de quem nasceu para iluminar a vida dos outros.
Escrevo para dar voz ao que o silêncio não consegue esconder.
Transformo sentimentos em palavras, saudade em versos e pensamentos em poesia. Aqui, cada texto nasce de um pedaço de mim — das minhas ausências, das minhas esperas e das minhas pequenas esperanças.
Se você chegou até aqui, talvez também sinta demais.
A alma não fala alto.
Ela sussurra.
Mora nos detalhes que ninguém vê,
na lágrima que não caiu,
na saudade que ficou sentada à mesa,
na esperança que se recusou a partir.
A alma conhece caminhos
que os olhos não alcançam.
Ela atravessa noites inteiras
carregando pequenas luzes,
mesmo quando o coração acredita
que já não existe amanhecer.
A alma guarda.
Guarda os abraços que salvaram dias,
as palavras que curaram feridas,
os nomes que o tempo não conseguiu apagar.
E ama.
O amor é uma escolha.
Descobri que o amor não mora na pressa.
Ele mora nos detalhes.
Na mensagem de "chegou bem?",
na mão que encontra a minha sem pedir licença,
no abraço que demora um pouco mais
porque sabe que eu preciso dele.
Descobri, também, que o seu peito é o melhor lugar.
É onde o mundo faz menos barulho,
onde os meus medos diminuem,
onde até o silêncio encontra abrigo.
O amor maduro não faz promessas impossíveis.
Ele faz escolhas.
Escolhe cuidar.
Escolhe compreender.
Escolhe lutar.
E, principalmente, escolhe ficar.
Porque existem dias em que sorrimos com a alma.
Mas também existem aqueles em que o silêncio pesa,
o cansaço vence,
e o coração parece esquecer o caminho de casa.
É justamente nesses dias que o amor revela quem é.
Ele não vai embora.
Senta ao nosso lado,
segura nossa bagunça sem medo,
acolhe nossas imperfeições
e, sem grandes discursos, sussurra:
"Eu ainda escolho você."
Talvez seja isso que torne o amor tão raro.
Não é a ausência das tempestades.
É encontrar alguém que permaneça de mãos dadas enquanto elas passam.
Porque amar não é nunca desistir.
E, quando a vida pesa demais,
eu volto para o mesmo lugar.
O lugar onde o meu coração desacelera,
onde encontro paz sem precisar pedir,
onde descubro, todos os dias,
que ao seu lado é o melhor lugar para morar.
Porque o verdadeiro lar nunca foi um endereço.
Sempre foi você.
Hoje estou triste.
Triste pelo que fizeram,
pelo que não fizeram,
pelo que eu fiz comigo mesma
tentando acreditar que algumas pessoas
seriam aquilo que eu precisava que fossem.
Talvez amanhã eu volte a acreditar.
Talvez eu volte a oferecer carinho,
a confiar,
a enxergar beleza nas pessoas.
Mas hoje...
hoje eu só quero recolher meus pedaços
e ficar um pouco em silêncio.
E talvez eu não esteja decepcionada com o amor,
nem com a amizade,
nem com o mundo.
Talvez eu esteja apenas cansada
de amar com tanta verdade
em um lugar onde nem todo mundo
sabe o que fazer com ela.
Talvez eu esteja decepcionada comigo por sentir tanto tudo isso ...
E só por hoje me permito ficar triste.
Responsabilidade
Hoje acordei pensando
no peso das minhas escolhas,
mas também no peso
daquilo que deixei de escolher.
Pensei em como minhas atitudes
e até minhas omissões
me trouxeram até aqui.
Talvez este seja um lugar bom.
Talvez não seja.
Mas é o lugar onde estou,
e preciso reconhecer
que também existe um pouco de mim
em cada caminho que me trouxe até ele.
Não quero que o meio
seja o protagonista das minhas decisões.
As circunstâncias podem explicar muita coisa,
mas não podem escrever por mim
o final da minha história.
Talvez sucesso seja isso:
não impedir a tragédia,
mas aprender a transformar
o que doeu
em alguma coisa que floresça.
Quero ser a pessoa
que vende o guarda-chuva
e agradece pela chuva.
A que percebe
que enquanto reclama
das meias molhadas
e da brisa no rosto,
há sementes sendo regadas.
Quero aprender a olhar diferente
para aquilo que não posso mudar.
Porque talvez eu não escolha
a chuva que cai sobre mim,
mas posso escolher
o que faço com a água.
E, no fim,
talvez responsabilidade seja isso:
não ser culpada por tudo,
mas ser dona
daquilo que faço
com tudo o que a vida coloca
em minhas mãos.
Hoje eu fiquei pensando nas pessoas.
Nessas pessoas que a gente chama de comuns.
Talvez porque a palavra “comum” pareça pequena demais para tanta coisa que uma pessoa pode carregar dentro de si.
Pensei que talvez o extraordinário não esteja necessariamente naquilo que alguém faz, mas naquilo que ninguém vê.
Na pessoa que acorda todos os dias e continua, mesmo quando não está bem.
Naquela que carrega seus próprios medos e, ainda assim, consegue acolher os medos de alguém.
Na que já foi ferida, mas não deixou a dor decidir completamente quem ela seria.
Na que recomeça em silêncio, sem aplausos, sem testemunhas e, muitas vezes, sem nem perceber que está sendo corajosa.
A gente olha de fora e vê uma vida comum.
Mas não sabe quantas batalhas existem por trás de um sorriso.
Quantos sonhos ainda estão guardados.
Quantas vezes aquela pessoa precisou se reconstruir para chegar até ali.
Talvez sejamos todos um pouco assim.
Comuns aos olhos de quem passa.
Extraordinários para quem consegue enxergar além da superfície.
E fiquei pensando...
Talvez o extraordinário não seja ser diferente de todo mundo.
Talvez seja conseguir continuar sendo você, com tudo o que a vida já tentou tirar de você.
Talvez existam pessoas extraordinárias por toda parte
Sempre achei que, quando começasse a enxergar os defeitos do outro, seria o início do fim.
Que enquanto eu conseguisse ver apenas o lado bonito, as qualidades, os gestos que encantam e aquilo que me fazia sorrir, o amor estaria seguro.
Eu acreditava que o dia em que o encanto diminuísse seria também o dia em que o amor começaria a acabar.
Mas talvez eu estivesse confundindo encanto com amor.
Porque chega um momento em que a gente deixa de conhecer apenas a parte bonita de alguém e começa a enxergar o ser humano inteiro , com as manias,
as imperfeições, os dias difíceis, as inseguranças.
E até as palavras que às vezes machucam.
Os defeitos que antes não apareciam, ou não conseguia ver.
E, estranhamente, isso não fez o amor desaparecer.
Fez o amor ficar mais real.
Porque existe uma diferença enorme entre amar alguém que ainda estamos idealizando e amar alguém depois que a idealização acaba.
Quando te conheci de verdade, algumas coisas deixaram de ser exatamente como eu imaginava. Eu passei a enxergar aquilo que antes não via, inclusive aquilo que não gosto, aquilo que me incomoda e aquilo que eu gostaria que fosse diferente.
E não, eu não passei a amar os seus defeitos.
Não acho que amar seja transformar tudo em qualidade ou fingir que aquilo que nos incomoda não existe.
Mas descobri uma coisa que nunca tinha entendido antes: eu posso não gostar de algumas partes de você e, ainda assim, querer você na minha vida.
Eu posso não gostar de algumas manias e ainda te respeitar e ser leal.
Porque quando olho para tudo o que existe entre nós, esses defeitos não parecem maiores do que nosso planos.
Não são maiores do que tudo aquilo que ainda quero viver ao seu lado.
Não são maiores do que as coisas que construímos, os momentos que compartilhamos, os sonhos que nasceram no caminho e, principalmente, do que a vontade que ainda existe em mim de continuar construindo com você.
Talvez seja isso que acontece quando o amor deixa de ser idealizado.
Eu não preciso mais acreditar que você é perfeito para acreditar que é você quem eu quero.
O encanto não está mais em não enxergar os seus defeitos.
Está em enxergá-los e perceber que, mesmo assim, quando penso no futuro, ainda vejo você nele.
Talvez amar de verdade seja justamente esse momento em que a fantasia acaba, a pessoa real aparece e, mesmo conhecendo a realidade, você percebe que ainda quer ficar.
Não porque tudo seja perfeito, mas porque eu escolhi te amar .
Um dia te olhei, sem óculos, talvez sem vendas , sem obstáculos da minha mente, eu só te olhei, desnudo de toda perfeição que minha mente criara... nesse dia eu passei a te amar de verdade .
De tudo que eu queria ser
Eu não queria ser alimento,
nem resposta à fome em você.
Não queria ser o prato servido
àquilo que não sabe se conter.
Por muito tempo, talvez eu tenha pensado
que era preciso oferecer pedaços de mim,
para que o apetite dos outros, saciado,
enfim encontrasse um fim.
Mas hoje eu sei, com clareza e verdade:
não quero ser carne,
nem corpo exposto ao olhar,
nem presença invadida
por quem só sabe tomar.
Não quero ser usada,
rasgada, consumida,
só porque alguém não aprendeu
a cuidar da própria ferida.
Eu tenho limites,
tenho medo e frustração,
tenho partes que não entrego
sem antes tê-las nas mãos.
Há pedaços de mim
que ainda estou a conhecer,
e não posso oferecê-los
quando ainda não sei ser.
Também há coisas que só consigo dar
quando algo chega até mim;
só consigo abrir minhas portas
quando encontro espaço, enfim.
Só me entrego quando recebo,
só floresço em conexão,
só me abro por inteiro
onde existe acolhimento e mão.
Não me entrego ao vazio,
nem à pressa de quem quer tomar.
Minha entrega nasce do encontro,
do cuidado que sabe esperar.
Nasce do toque delicado,
da presença que sabe ficar,
de um abraço que me alcança,
de um beijo que sabe chegar.
Porque eu não nasci
para a fome dos outros saciar.
Não sou pedaço, nem promessa,
nem lugar para alguém se alimentar.
Eu nasci para o encontro,
para a troca e a comunhão;
não para ser consumida,
mas para viver reciprocidade no coração.
Dias nublados
Eu gosto dos dias nublados.
Não sei se gosto do cinza
ou do que o cinza faz comigo.
Nesses dias eu fico mais quieta,
mais fechada,
mais dentro de mim.
Tenho vontade de ficar em casa,
de olhar pela janela do ônibus
e deixar o tempo passar.
O céu parece carregar
um pouco do que eu sinto.
Tudo fica mais lento e confuso.
Os pensamentos ficam mais altos.
E eu penso em coisas
que nos dias ensolarados
talvez eu nem lembrasse.
Tem dias que o cinza lá fora
combina demais
com o que existe aqui dentro.
E talvez seja por isso
que eu não tenha tanta pressa
para que o sol apareça.
Às vezes eu só precise
de dias assim.
Um dia sem precisar sorrir,
sem precisar explicar,
sem precisar ser forte.
Só eu,
meus pensamentos
e esse céu nublado
me fazendo companhia.
