De tudo que eu queria ser Eu não queria... Leticia Cristina Rocha

De tudo que eu queria ser


Eu não queria ser alimento,
nem resposta à fome em você.
Não queria ser o prato servido
àquilo que não sabe se conter.


Por muito tempo, talvez eu tenha pensado
que era preciso oferecer pedaços de mim,
para que o apetite dos outros, saciado,
enfim encontrasse um fim.


Mas hoje eu sei, com clareza e verdade:


não quero ser carne,
nem corpo exposto ao olhar,
nem presença invadida
por quem só sabe tomar.


Não quero ser usada,
rasgada, consumida,
só porque alguém não aprendeu
a cuidar da própria ferida.


Eu tenho limites,
tenho medo e frustração,
tenho partes que não entrego
sem antes tê-las nas mãos.


Há pedaços de mim
que ainda estou a conhecer,
e não posso oferecê-los
quando ainda não sei ser.


Também há coisas que só consigo dar
quando algo chega até mim;
só consigo abrir minhas portas
quando encontro espaço, enfim.


Só me entrego quando recebo,
só floresço em conexão,
só me abro por inteiro
onde existe acolhimento e mão.


Não me entrego ao vazio,
nem à pressa de quem quer tomar.
Minha entrega nasce do encontro,
do cuidado que sabe esperar.


Nasce do toque delicado,
da presença que sabe ficar,
de um abraço que me alcança,
de um beijo que sabe chegar.


Porque eu não nasci
para a fome dos outros saciar.
Não sou pedaço, nem promessa,
nem lugar para alguém se alimentar.


Eu nasci para o encontro,
para a troca e a comunhão;
não para ser consumida,
mas para viver reciprocidade no coração.