Fabio de Melo Acaso Deus Felicidade
"Um dia eu decidi que não queria mais querer querer alguém, achei motivos para justificar o meu não mais querer e, aos poucos, consegui não querer alguém que um dia quis, conseguindo assim não querer mais ninguém, embora talvez em algum momento da vida eu volte a querer querer alguém."
A Torre
Nos meus sonhos,
ela se projeta.
Há uma névoa sobre ela.
Não sei o que deseja.
Não sei se aquilo que diz
é real.
Ela vive um engano,
acreditando estar
fazendo a coisa certa.
Mentiras doces
alimentam apenas
os miseráveis de espírito.
Por que insiste em aparecer?
Minha realidade
já não comporta
a sua existência.
E, ainda assim,
uma lealdade cega
permanece dentro de mim.
Talvez eu não espere
que ela retorne.
Espero apenas
ser resgatado
da torre
onde ainda a guardo.
O que há no mundo de que mais precisaríamos para que tudo faça sentido?
Dinheiro?
Dinheiro é importante para a sobrevivência econômica, sim, de fato.
Mas e os objetos? Casa, carros, utensílios?
Sim, também precisamos morar abrigados, o carro nos ajuda a nos locomover confortavelmente.
São úteis, de fato. Seria hipocrisia não admitir a importância destas coisas.
Mas existe coisa que nenhuma posse pode importar mais nesta vida:
Um pai, uma mãe, irmãos, amigos.
Um sorriso, um abraço.
E claro, o amor que vem e fica.
Por Marcio Melo
Todos os dias encontro mais motivos pra chorar ,que motivos pra sorrir
E quanto mais o tempo passa e os terrores da vida digo as mágoas desamores e a exclusão de uma sociedade exclusivista
Me sinto fantoche entre tatas cordas que não são minhas entre tantas risadas fingidas
Entre tantos rostos cobertos com máscaras
Todos os dias o teatro apresenta seus personagens e o tema da comédia é
"O niilismo moderno"
Marcio Melo
Apesar de todos os sofrimentos que na vida eu fui submetido
E até me submeti
De uma coisa estou certo
Que nunca me desamparou
Ele sempre me enviou pessoas certas na hora certa
Mesmo sofrendo chorando e só
Quase desistindo de mim mesmo
No último momento a mão de Deus
Sempre surgia em forma de homens e mulheres humanos repletos de gentileza
Ao meu socorro
Eu sou grato a Deus.
De Marcio Melo
Às vezes, a derrota e o fracasso nos derrubam e já não suportamos mais as perdas.
E fica tão insuportável viver e conviver com a dor do distanciamento e a solidão, que viver começa a parecer subjetivo.
E nós nos entregamos a esta subjetividade.
E quando percebemos, nos tornamos o próprio isolamento, a própria solidão.
Por Marcio Melo
Na casinha simples de família humilde, a mãe colocava na mesa a comida feita com amor e carinho: cuscuz, arroz, feijão de corda cozido com carne de sol, fruto do nosso trabalho. E o suco de caju não poderia faltar. Era um banquete!
Mas a alegria estava estampada no sorriso. A mãe e o pai faziam o sinal da cruz, agradecidos:
"Obrigado ao nosso Senhor."
Era pura simplicidade, onde a fé fortalecia a esperança e esta enchia o peito de coragem. A pobreza não existia. E toda a nossa riqueza estava ali, em volta de uma só mesa: a família...
Bem maior!
Por Marcio Melo
Duas Viúvas
Eram duas viúvas. Sem marido, sem filhos, sem lei que as defendesse. Sem valor para o mundo da época.
Uma tinha idade. Outra tinha pátria longe.
O que as unia não era o sangue. Era a escolha.
Rute disse: "Aonde fores, irei. Teu povo será meu povo."
Noemi não tinha mais nada para oferecer. Rute não tinha mais nada a ganhar ficando. E mesmo assim ficaram. Juntas.
Não viveram de esmola humilhante. Viveram da lei boa — aquela que manda deixar a espiga caída para a viúva, para o órfão, para o estrangeiro.
Todo dia Rute catava. Todo dia Noemi fazia o pão.
Uma confiava na força da outra. Uma respeitava a dor da outra.
Não foi piedade. Foi amor.
Não foi favor. Foi dignidade.
Não foi medo. Foi confiança.
Duas mulheres que o mundo deu como mortas, ensinando a Israel o que é permanecer.
E por permanecerem juntas, tiveram casa, pão e futuro.
inspirado em Rute a moabita
Marcio Melo
Olhem para mim.
Tentem ver em mim o que só o espelho me mostra:
falhas, traços, cicatrizes —
marcas que nem lembro quando
foram esculpidas à força.
O tempo deixou sinais.
O sorriso cavou vincos
onde a lágrima abriu caminho.
A boca que tanto falou
hoje silencia.
E o silêncio virou reflexão.
Se me olhares fixamente,
lerás na minha pele
a minha história inteira.
O tempo esculpiu.
Marcio Melo
Tudo o que vivemos aqui — de bom e de ruim — tudo o que produzimos e colhemos como frutos do nosso esforço, é para o nosso bem-estar, para uma melhor qualidade de vida enquanto aqui estamos.
Mas, de tudo o que vivemos e produzimos, uma parte pode e deve ser compartilhada com alguém ou com algumas pessoas que não tiveram a mesma sorte de alcançar tais benefícios.
Por isso, a primeira lição que a vida ensina é que tudo o que vivermos, produzirmos e colhermos aqui, é para esta vida. Que, ao deixarmos esta vida, tudo — absolutamente tudo — inclusive o seu corpo, ficará exatamente aqui, como nutrientes para esta terra.
Somos compostos de partículas de energia e, a cada fração de segundo, trocamos estas energias com o universo, com o planeta e com tudo o que existe, até o que projetamos. E, no fim, são mudanças e transformações.
A vida nesta terra, para cada ser humano — seja rico, seja desprovido de riqueza — é literalmente uma passagem.
De tudo o que a vida te proporcionar, viva e compartilhe com alegria, sem se questionar. E, se assim fizer, ao partir desta vida, terá feito o seu melhor.
Reflexão
Marcio Melo
Fome
Miserável, à procura de um pão.
Aquilo que me foi oferecido está amassado pelo diabo.
Meu estômago ronca, como se estivesse a definhar.
De onde vem esta fome? — pergunto-me.
Um pobre, condenado a um jejum forçado, cujas necessidades não podem ser saciadas com migalhas aparentes.
Murmúrios de dor ecoam no ventre.
As plantações estão escassas, e não posso arrancar o fruto pela raiz.
Espero, ansioso, pela colheita.
Mas a foice que seguro parece ser a minha solução.
Que exagero, penso.
Hei de me fartar das sobras de um animal?
Todavia, não há o que fazer.
Resta-me aceitar que o tempo corra,
e esperar que esta fome não me consuma antes da próxima colheita.
Os Sete Mares
Num mar de lágrimas, estive a nadar contra a maré.
Neguei o ciclo que havia se encerrado, até que meu barco fosse levado para longe,
para uma ilha onde fui obrigado a me bastar.
Vejo destroços de embarcações e alguns náufragos, agarrados às tábuas, tentando sobreviver nesse nefasto oceano.
Aquela água não é própria para consumo, mas eles bebem, acreditando que é tudo o que lhes resta.
Vejo-os ir e voltar, repetindo o mesmo trajeto.
E eu, em minha ilha, espero.
Minha jangada ainda está sendo construída.
Até que chegue o dia em que partirei,
não para fugir do oceano, mas para conquistá-lo.
Conhecerei os sete mares e não serei mais refém de suas águas.
Uma Dama Complexa
Uma dama complexa, cheia de nuances, de olhar profundo e expressão dúbia.
Esconde um jeito exótico que meu olhar intrometido insiste em compreender.
Fico estarrecido diante do modo como ela é: tão bela de uma maneira não convencional.
Como a Medusa, seu olhar me paralisa.
E sonho ser pedra bruta, entregue às suas mãos, para que me esculpa à sua maneira.
O olhar de uma bela que esconde uma fera.
Minha Heroína
Quando o vento sopra e eleva meu pensamento como uma folha seca ao vento,
pego-me recordando de um momento em que a luz do olhar dela me fazia transbordar em sentimento.
Como eu me sentia ébrio, saudoso de ser alfinetado e acolhido ao mesmo tempo.
Espero que minha heroína consiga vencer a batalha que a assola.
Pois a última coisa que “quero” ver em minha vida é o seu sofrimento.
Ansioso, espero apenas saber que minha heroína encontrou novamente o seu alento.
💜🕯🌙🏹
O INIMIGO INTERIOR
Talvez você nunca tenha caído
e sido derrotado nesta vida mais do que eu fui.
Mas eu aprendi que, ao cair,
eu sempre me levantei
e segui em frente sem me lamentar.
E as derrotas me ensinaram
que vencer não se trata de liquidar o inimigo,
mas, às vezes, temos que nos deixar vencer
para não sermos culpados por mal nenhum em alguém.
E assim se para a batalha e se afasta.
Isso não é derrota.
É saber que algumas guerras se alongam
e se tornam eternas.
Talvez o meu maior inimigo
não esteja do lado de fora,
mas dentro de mim.
Aprender a lidar com minhas fraquezas
e dominar o meu ódio
seja o primeiro passo para vencer o mal
que existe dentro de mim.
E assim eu serei sábio o bastante
para conter as guerras exteriores,
às quais somos submetidos todos os dias.
Lidar com o ego e a arrogância
que eu tento conter
e um dia eliminar,
sempre foi meu maior conflito pessoal.
Por Marcio Melo
Uma das ações mais brutais do tempo
é aceitar que a vida morre.
Que a beleza murcha,
que o sorriso desbota e cai,
que as festas se tornam esquecimento,
que os sonhos viram lembranças,
que o futuro sempre se torna passado
e o que era uma realização agora não existe mais.
E tudo que construímos ao longo da vida
é uma lápide sobre um túmulo onde o corpo se decompõe.
Marcio Melo
O ESQUECIMENTO
Quando ninguém ouve seus gritos
nem sente sua dor,
e o desespero escorre como um rio
pelos olhos de quem
já não se enxerga mais no espelho,
e você aceita que a vida passou
e o que ela te deixou
foram feridas abertas num peito
onde um dia houve um coração,
hoje são só pedaços,
secos como folhas no outono
que o vento levou pra longe.
O que era alguém,
agora é solidão,
fechada no isolamento.
Viver foi um sonho
de quem acreditou,
mas um dia a realidade
o despertou.
No escuro e no frio,
espera passar o que
já não existe mais,
deseja agora o descanso
de uma vida que deixou de viver.
Ficou no esquecimento.
Marcio Melo
Por Que Ela?
Nos momentos de pausa,
sinto a falta dela.
Quando olho no espelho,
pergunto-me o porquê.
Por que ela acabou
se tornando importante?
Meu peito anseia em saber
se ela está bem.
Preocupar-me com alguém novo
parece um gasto desnecessário de energia.
Pergunto-me novamente:
por que ela?
Com seu olhar desconfiado,
sua postura que muda
de acordo com meu comportamento,
ela vigia cada passo,
enquanto eu analiso o espelho.
Ela se tornou familiar
de alguma forma.
E temo estar lhe atribuindo
mais importância
do que a realidade exige.
Na defensividade,
mantenho-me a observar do alto,
mas, nos meus desejos,
estaria nos braços dela.
Ela, porém, não pode saber.
Seu jeito exótico
tornou-se fonte da minha dopamina.
E eu me pergunto: por quê?
Ela é tão diferente,
mas tão semelhante.
Temo que ela se torne
fonte da minha dor.
Porventura,
mereço eu o sofrimento?
