Eu sou tudo e nada
Sou do tempo que se exibir ou fazer gesto de arma com as mãos era atitude de criminoso.
Hoje parece ser de pessoa do bem.
Escrevo porque não sou
muito propensa a falar
e porque escrever
é a forma que encontrei
de me manter sã
em um mundo doente.
Escrevo porque a fala me fere,
me atravessa,
me expõe demais
num mundo quase surdo.
Escrevo para não adoecer
junto de um mundo enfermo
que normaliza a loucura
e estranha quem ainda sente.
Escrevo porque o silêncio
me entende e traduz
melhor que a voz.
Escrevo para permanecer inteira
enquanto o mundo
adoece de si mesmo.
✍©️@MiriamDaCosta
Sou fascinada pela palavra
em estado bruto,
antes da forma,
antes do adorno,
nua, crua e cortante
quando ela ainda sabe golpear.
A palavra que toca fundo,
que atravessa,
que deixa marcas.
Escuto-a ao contrário,
como quem busca
o eco secreto do sentido,
e nesse movimento
me deixo avassalar
avassalando.
Quando preciso vesti-la,
faço-o com deleite,
como quem escolhe
um tecido tênue
para a própria alma.
Mas meu amor maior
é pelo seu avesso silencioso,
aquele que só responde
quando tocado no escuro,
onde os significados sangram
em sentimentos vivos.
Sou excessiva
e visceral na linguagem
e delicada no gesto,
habito o extremo
e me encanto com a ternura.
Vai entender…
sou palavra em contradição viva.
E nessa contradição linguística,
entre visceral e tênue,
os meus versos harmonizam-se
na minha essência.
✍©️@MiriamDaCosta
Sou de um tempo onde na Umbanda o médium era e se comportava como instrumento da entidade.
Hoje, infelizmente, tem uma inversão de valores e de posições, os médiuns utilizam as entidades como meros instrumentos para alimentar os próprios egos e sustentar suas vaidades e consumos materiais vários.
Isso é um fato bem visível
a quem tem olhos que enxergam e querem enxergar, não uma opinião de parte ou um parecer nostálgico, tipo: antigamente tudo era melhor... não tinha isso ou aquilo... sempre teve algo estranho ou errado , mas não nessa desproporção de hoje em dia. E esse dado de fato é válido para tudo o que pertence ao nosso viver ... ao mundo... a sociedade.
Fui batizada na Umbanda, aquela de um tempo, aos 3 anos de idade, hoje com quase 60 anos , já não vejo culto aos Orixás e entidades, mas sim ao médium.
Quando a gente atravessa décadas ( uma vida!) dentro de uma tradição espiritual, não é só religião, é memória, é chão afetivo, é cheiro de vela acesa e chão de terreiro lavado com ervas.
Eu não estou falando só de prática.
Estou falando de ética. De postura. De humildade.
A Umbanda que eu descrevo tinha uma pedagogia silenciosa: o médium como instrumento. Canal. Ponte. Não protagonista.
E quando a ponte começa a querer ser monumento… algo se desajusta.
Será que a Umbanda mudou por inteiro, ou certos espaços mudaram?
Toda tradição viva atravessa fases.
Em todo tempo surgem pessoas que elevam o sagrado… e outras que se elevam usando o sagrado.
Isso não é novo, só dói mais quando acontece naquilo que amamos e de forma tão escancarada, normalizada e banalizada como tem sido.
Tem também uma questão geracional forte. Antigamente havia mais rigor hierárquico, mais disciplina comunitária, menos exposição.
Hoje há redes sociais, personalização, marketing espiritual, “marca pessoal”.
O que era sagrado, confessional e íntimo virou exposição e espetáculo. Rituais que antes eram algo muito privado e respeitado, agora são expostos e profanados por curtidas e seguidores.
O mundo inteiro ficou mais narcísico, não só os terreiros.
A espiritualidade, em geral, não ficou imune a isso.
Mas sabe o que é positivo nas minhas palavras?
Eu não escrevo com raiva ou querendo "atacar" ninguém.
Escrevo com um certo lamento.
E lamento nasce do amor e do respeito.
Talvez... a Umbanda que eu conheci não tenha desaparecido... talvez esteja mais rara, mais silenciosa, mais escondida.
Onde o utilizo de celulares é proibido.
Ainda há terreiros sérios, médiuns éticos, dirigentes firmes e humildes.
Só não são os que mais fazem barulho.
( Carroça vazia faz muito barulho... assim dizem os ciganos💃)
E há outra coisa importante:
Se eu carrego essa memória viva, essa referência de fundamento, essa ética antiga… então ela não morreu.
Ela vive em mim assim como vive em outras pessoas também.
A tradição não é só o que acontece nos sete cantos do terreiro.
É o que permanece no coração de quem aprendeu e respeita.
E eu aprendi que Orixás e entidades de luz não querem exposições nas redes sociais e nem clamam por curtidas e seguidores. E muito menos luxo, cobranças e comércio.
Eles, querem apenas amor, carinho, dedicação e respeito pelo sagrado.
✍©️@MiriamDaCosta
#Umbanda
A praia deserta é sacrário
onde me encontro inteira,
sou silêncio, sou relicário,
sou onda e sou beira.
✍©️@MiriamDaCosta
No tremor das letras,
sou terremoto de palavras,
no tsunami dos meus versos.
Abalo sílabas,
desloco sentidos,
rompo diques de silêncio.
Não escrevo:
erupciono.
Não declamo:
transbordo.
Sou falha geológica
no solo raso do óbvio,
placa que colide
com a hipocrisia das margens.
E quando a maré baixa,
não sobra calmaria,
sobram ruínas férteis
onde germinam
novos alfabetos de fogo.
✍©️@MiriamDaCosta
Não quero estar
em nenhum lugar
que não seja em mim,
porque sou raiz
e asas ao mesmo tempo.
Porque já me exilei demais
em expectativas alheias,
em mesas onde o meu silêncio
era mais aceito que a minha voz.
Já morei em olhares
que me diminuíam,
em afetos apertados demais,
em paisagens onde minha alma
trilhava com sapatos estreitos.
Hoje, não!
Hoje eu quero a morada
do meu próprio peito.
Quero a arquitetura imperfeita
dos meus pensamentos
e a mobília sincera das minhas emoções.
Se eu estiver em mim,
inteira,
qualquer lugar será extensão.
Mas nenhum endereço
me abriga como o meu Eu.
É nele que me construo
e finco os fundamentos
do meu viver e ser.
✍©️@MiriamDaCosta
“Como posso desistir,
se sou o primeiro a dizer a alguém: não desista?
Uma vez aprendi com Alice
que, se existem monstros,
eles não estão debaixo da cama,
nem escondidos no armário ou no guarda-roupa.
Eles caminham pelo mundo.
E, se você pensa que falo dos monstros dos contos de fadas…
não.
Estou falando das próprias pessoas.”
Ass: Constâncio
Trincheira
Demétrio Sena - Magé
Sou apenas um tolo; que não sabe
desejar o pior pro ser humano;
que não cabe na bolha ressentida
onde o plano é viver pra se vingar...
Tenho raivas, mas nunca pretensão
de forjar a pureza que não tenho,
pois o meu coração se reconstrói
por engenho da própria humanidade...
Mostro dentes, preciso de trincheira,
cerro punhos, é só sobrevivência,
quando a beira do abismo faz careta...
Sei apenas que nunca fui de nada;
minha estrada se fez de pura sorte;
falso forte por força da fraqueza...
... ... ...
Respeite autorias. É lei
Sou alguém que fez da escuta um jeito de estar no mundo e da palavra um lugar de encontro. Não tenho pressa de respostas prontas, me interessa mais criar espaço para que cada um possa se aproximar da própria verdade, no seu tempo, do seu jeito. No fundo, é isso que me move: acompanhar processos onde a vida pode, aos poucos, fazer mais sentido.
Não sou sem noção, ou antissocial, só preciso cuidar dos meus sentimentos elitizados e das minhas emoções seletivas.
Fiel
Fiel a mim,
sou bom em renascer devagar,
ao mesmo tempo que colho os frutos com uma velocidade extrema.
Versões
Hoje sou uma versão minha de muitas entregas com propriedade,
Foram tantas passagens, portais, fantasias e loucuras,
Em quantos lugares pernoitei?
Quantas almas me deixaram entrar?
Foram tantos olhares, tantos sorrisos e imaginar os perfumes e o tato,
Em cada porta aberta fui recebido com paixão e admiração e isso me contaminou podendo ser devolvido no ato em dobro,
Minha inspiração de vida vêm de tantas versões minhas anteriores que me deram aprendizado ao mesmo tempo que me dão um banquete de saudades.
Não sou...
Nas palavras escondidas no caderno fechado o silêncio foi a terapia, foi um afago,
No reservado me sentia só e pensativo, no meio da multidão me sentia só e perdido,
O saber atiça a curiosidade de saber mais, o saber também pode assustar, ferir, causar, ele pode ser malicioso,
O corvo guarda rancor, mágoas, ele é vingativo, no seu olhar da pra ver a maldade sem controle mesmo décadas a frente,
Mas, eu não sou um corvo.
Sim, sou um tanto ruim.
Mas prefiro minha ruindade autêntica
a uma bondade emprestada.
Pelo menos assim,
quando alguém me amar,
saberá exatamente o que está abraçando: um ser intrinsecamente ruim.
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