Eu Nao tenho Culpa de estar te Amando

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Não é no espaço que devo procurar minha dignidade humana, mas na organização do meu pensamento. Não me fará bem possuir terras. Pelo espaço o Universo me agarra e me engole como uma partícula; pelo pensamento sou eu que o agarro.

Aprendi que um dos segredos da vida é não demonstrar tudo o que a gente sente.

Não há corte sem dor.

O Melhor Possível

Olhai, não dominamos nosso futuro...

Amanhã, talvez não restem mais que as marcas de nossos passos no chão. E o que teremos feito?

Teremos sorrido o suficiente?

Amado o suficiente?

Aprendido o suficiente?

Não... Não nós, humanos, de passagem tão efêmera pelo mundo.

Talvez só tenhamos feito o máximo possível, isto é, se não nos tivermos prendidos ante tanta que coisa que atém ou inibe o espírito.

Às vezes somos muito insuficientes. Somos humanos! (...)

Ah, mas eu... eu não quero levar comigo essa sensação de desperdício.

Quero sair daqui podendo afirmar que vivi intensamente!

Que amei, que sorri, que chorei, que errei, que aprendi, que passei, sim, por este mundo de forma muito breve, talvez, mas quero levar comigo a certeza de que sempre vivi e procurei fazer o melhor possível!

Imbecil não tem tédio.

Ser feliz ou não, questão de talento.

Qualquer pessoa pode ser boa no campo. Ali não há tentações. Eis por que as populações rurais são tão pouco civilizadas. Civilizar-se não é fácil. só se consegue por dois meios: cultivando-se, ou pervertendo-se.

O tempo não pára e a gente ainda quer correr...

Toda a verdade abstrata é sem valor se não estiver encarnada em homens que a apresentam e provam estar prontos a morrer por ela.

O homem deve viver preparado para morrer a qualquer instante, e deve proceder como se não fosse morrer nunca.

Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu – sem o menor pudor, invente um. Pode ser Natália Lage, Antonio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados. Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se ou lamuriar-se, e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques – tudo isso ajuda a atravessar agosto.

Caio Fernando Abreu
Pequenas epifanias. Rio de Janeiro: Agir, 2006.

Nota: Trecho da crônica Sugestões para atravessar agosto, publicada originalmente no jornal "O Estado de S. Paulo", em 6 de agosto de 1999.

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Há um mundo a ser descoberto dentro de cada criança e de cada jovem. Só não consegue descobri-lo quem está encarcerado dentro do seu próprio mundo.

A vida não é apagável, pensei. Nem volta atrás. Ainda não construíram a máquina do tempo. Ninguém virá em meu socorro. Faz tanto tempo que invento meus próprios dias. Preciso começar por algum ponto.

Tem palavra que não é de dizer
nem por bem nem por mal
tem palavra que não se conta
nem pra um animal
tem palavra louca pra ser dita,
feia, bonita e não se fala
tem palavra pra quem não diz,
pra quem não cala,
pra quem tem palavra
tem palavra que a gente tem
e na hora H falta.

O homem tem mãos para alcançar as estrelas e não consegue alcançar o menino abandonado do outro lado da rua.

Uma torcida não vale a pena pela sua expressão numérica. Ela vive e influi no destino das batalhas pela força do sentimento. E a torcida tricolor leva um imperecível estandarte de paixão.

Mas para mim não importava o que se fora. Queria o passo à frente.

Atrocidades não deixam de ser atrocidades quando cometidas em laboratórios e chamadas de pesquisa médica.

Éramos como éramos, e não queríamos ser nada além disso. Todos vínhamos de famílias vítimas da depressão e a maioria entre nós era mal alimentada, embora tivéssemos crescido a ponto de nos tornar grandes e fortes. Em grande parte, creio eu, recebíamos pouco amor de nossas famílias e não pedíamos amor ou gentileza a quem quer que fosse. Éramos uma piada, mas as pessoas tomavam cuidado para não rir na nossa cara. Era como se tivéssemos crescido rápido demais e estivéssemos de saco cheio de ser crianças. Não tínhamos qualquer respeito pelos mais velhos. Éramos como tigres com sarna.

A rotina é sempre a mesma: uma pessoa entra na minha vida como quem não quer nada e quando ela se torna vital para mim, decide ir embora.