Eu Nao tenho Culpa de estar te Amando

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o gabrieu e o parice II


Existe alguém dentro de mim que não tem paciência.


Eu descobri isso tarde, depois de passar tempo demais tentando ser uma pessoa fácil de carregar. Ele apareceu quando eu já estava acostumado a me abandonar em pequenas doses, quando dizer não para mim mesmo tinha virado uma forma de educação e desistir dos meus sonhos parecia apenas uma consequência natural de crescer.


Ele odiou isso.


Odiou a minha prudência.


Odiou o jeito como eu transformava medo em maturidade e acomodação em paz.


Odiou principalmente quando eu dizia “um dia”.


Porque ele sabia.


Ele sabia de todas as coisas que eu já imaginei fazer, de todas as versões de mim que já existiram na minha cabeça antes que eu tivesse coragem de colocá-las no mundo. Sabia dos lugares onde eu queria chegar, das coisas que queria construir, da pessoa que eu dizia que seria quando tivesse tempo, dinheiro, coragem, oportunidade, certeza.


Ele escutou todas essas promessas.


E um dia perdeu a paciência.


Não veio me consolar.


Veio me buscar.


Disse que eu estava correndo na direção errada e que, se precisasse, me arrancaria dela à força. Não porque me odiasse, mas porque talvez fosse a única coisa dentro de mim que ainda me amasse o suficiente para não aceitar a minha própria desistência.


Eu tentei explicar.


Falei de responsabilidade.


De pessoas.


De consequências.


De tudo aquilo que existe do lado de fora de nós e que aprendemos a carregar como se fosse nossa obrigação.


Ele riu.


Não porque aquilo fosse engraçado.


Porque estava cansado.


“E você?”


Foi só isso.


E você?


Eu não tinha resposta.


Porque passei tanto tempo perguntando o que os outros precisavam que esqueci de perguntar o que eu queria.


Ele não esqueceu.


Ele queria tudo.


Queria as viagens que eu adiei.


Os projetos que eu deixei morrer antes de nascer.


As noites em que eu deveria ter saído.


As conversas que eu deveria ter tido.


As portas que eu não bati.


As cidades que eu só conheci pela tela.


Queria que eu fosse até o fim de cada coisa que um dia fez meus olhos brilharem.


Não importava se eu fracassasse.


Fracasso, para ele, ainda era movimento.


O que ele não aceitava era a covardia sofisticada de chamar desistência de escolha.


Então começou a destruir.


Não minha vida.


A vida antiga.


Aquela que tinha sido construída para me manter pequeno.


Quebrou os móveis imaginários daquele apartamento mental onde tudo estava sempre no lugar, mas nada realmente acontecia. Pegou as fotografias das versões antigas de mim e rasgou uma por uma. Incendiou as desculpas. Jogou no asfalto os planos que nunca saíam do papel.


Eu fiquei desesperado.


“Você está acabando com tudo.”


Ele respondeu:


“Não. Estou acabando com aquilo que acabou com você.”


E eu odiei ouvir aquilo porque alguma parte de mim sabia que era verdade.


Ele não tinha delicadeza.


Delicadeza demais tinha sido justamente o problema.


Ele era egoísta.


Completamente.


Se alguém precisasse ficar para trás para que eu pudesse avançar, ele não passaria a noite inteira se culpando.


Se uma porta exigisse que eu deixasse uma versão antiga de mim do lado de fora, ele fecharia.


Se uma vida inteira tivesse sido construída em cima da ideia de agradar todo mundo, ele preferiria colocar fogo na casa a continuar morando nela.


Ele não queria ser uma pessoa melhor.


Queria que eu fosse inteiro.


Essa era a diferença.


E talvez fosse por isso que eu tivesse tanto medo dele.


Porque ele não negociava com a parte de mim que queria continuar pequena.


Quando eu dizia “não consigo”, ele perguntava “ainda não ou nunca?”


Quando eu dizia “não é a hora”, ele perguntava “quando foi que você decidiu que teria outra?”


Quando eu dizia “e se der errado?”, ele respondia que pelo menos o erro teria o meu nome.


Ele tinha raiva.


Uma raiva quase sagrada.


Raiva de tudo que transforma pessoas em versões aceitáveis delas mesmas.


Raiva da cadeira confortável onde sonhos morrem lentamente.


Raiva das frases que começam com “se eu pudesse”.


Raiva de olhar para uma vida inteira pela frente e escolher viver como se já estivesse no fim.


Ele ardia.


Eu conseguia sentir.


Era como carregar uma pequena tempestade atrás das costelas.


E quanto mais eu tentava apagá-lo, mais fogo ele colocava nas coisas.


Só que, estranhamente, quanto mais ele queimava, mais frio ficava o mundo ao redor.


Eu corria dele.


Ele corria atrás de mim.


Eu procurava abrigo.


Ele derrubava o teto.


Eu queria voltar.


Ele apontava para frente.


E essa talvez seja a parte mais cruel:


eu quero ficar.


Quero ficar exatamente onde estou.


Quero preservar as pessoas, os lugares, os hábitos, as versões que conheço.


Quero acreditar que ainda posso ter tudo sem precisar perder nada.


Mas ele sabe que não.


Ele sabe que algumas versões de nós não cabem na próxima.


E quando chega a hora, ele não pede permissão.


Ele pega minha mão.


Eu puxo de volta.


Ele segura mais forte.


Eu digo que tenho medo.


Ele diz que também.


E continua andando.


Porque talvez coragem nunca tenha sido ausência de medo.


Talvez coragem seja ter alguém dentro de você que tenha medo também e, mesmo assim, continue arrastando você para frente.


Hoje eu ainda reluto.


Ainda tento negociar.


Ainda olho para trás.


Ainda sinto falta daquilo que ele destruiu.


Mas existe uma coisa que não consigo mais negar.


Aquele monstro nunca quis me machucar.


Ele queria me impedir de passar o resto da vida me machucando devagar.


Ele não apareceu para tomar minha vida.


Apareceu porque eu tinha deixado de tomá-la para mim.


E agora, quando sinto o fogo dele subindo, quando aquela voz começa a dizer que já chega, que não existe mais espaço para adiar, eu sei o que está acontecendo.


Ele está acordando.


E eu sei que vou correr.


Vou relutar.


Vou tentar convencê-lo a me deixar em paz.


Mas, no fundo, existe uma parte de mim que já sabe exatamente para onde estamos indo.


Para tudo aquilo que um dia eu imaginei.


Para tudo aquilo que ainda não existe.


Para a vida que eu continuei prometendo que começaria algum dia.


Ele não quer esperar.


Ele quer agora.


E talvez seja por isso que eu tenha tanto medo de olhar para ele.


Porque quando olho, não vejo um monstro.


Vejo a única versão de mim que nunca desistiu de nós dois.


Assuma o controle Parice, eu lhe permito, não existe mais nada pra mim aqui.

Eu não sou médico. Mas sou humano.
E é da minha humanidade que nasce essa dor silenciosa, essa indignação cravada no peito e essa tristeza que carrego como um eco de muitas experiências, minhas e de tantos outros.


Porque, na essência mais dura e real, a medicina tem se afastado do amor.


Nos corredores frios onde se deveria escutar a esperança, ecoa a pressa.
Em muitos olhares, vejo o cansaço… mas também a ausência. A ausência de presença.
Vejo decisões tomadas sem escuta, tratamentos aplicados sem preparo, protocolos cumpridos sem alma.


E a pergunta que grita dentro de mim é:
em que momento deixamos de enxergar o outro como ser humano?


Quantas vezes vi pessoas enfraquecidas, sem o mínimo de condições físicas, sendo submetidas a procedimentos agressivos, não por maldade, talvez, mas por automatismo, por insensibilidade, por uma confiança cega nos processos.
Quantas vezes observei diagnósticos mal conduzidos, ausências de investigação, condutas impessoais…
E tudo isso, por vezes, diante da total ausência de quem deveria olhar, ouvir, acolher e, principalmente, cuidar.


Mas essa culpa, não é só de quem executa.
É também minha.
E é também sua.
É de todos nós.


Culpo-me, sim.
Culpo-me pela falta de coragem em certos momentos, por não questionar, por não insistir, por não exigir o que era justo.
E todos nós, de alguma forma, deveríamos nos culpar também.
Pela omissão. Pela passividade. Pela falta de atitude diante do que sabíamos que não estava certo.
Deveríamos nos culpar por não nos aprofundarmos nos temas, por não buscarmos entender, por delegarmos tudo a quem, muitas vezes, sequer nos escutou.
Deveríamos nos culpar por termos nos acostumado a aceitar qualquer coisa sem lutar, sem perguntar, sem pedir ajuda.


Porque enquanto aceitarmos com silêncio, profissionais continuarão tratando a vida como plantão.
E plantões, por mais importantes que sejam, não podem ser apenas relógios a bater ponto.


Sinto, e profundamente, o que tudo isso tem causado:


Sinto a frustração de, muitas vezes, não ter voz num sistema que frequentemente se mostra cego.
Sinto o desconforto de saber que decisões são tomadas como se o fim já estivesse decretado.
Sinto a dor de quem ainda tem fé… e encontra frieza.
Sinto o vazio deixado por ausências, de presença, de escuta, de compaixão.
Sinto a indignação de testemunhar que, por trás de muitos jalecos, o cuidado virou função, e não mais missão.


Não é uma acusação cega.
É um chamado.
É um clamor por consciência.


Falhamos, sim, falhamos como sociedade quando permitimos que a vida seja tratada como um detalhe.
Falhamos quando deixamos que o sistema engula o indivíduo.
Falhamos quando banalizamos o sofrimento alheio, como se não pudesse ser o nosso amanhã.


Mas aqui faço uma pausa necessária:
não quero, de forma alguma, generalizar.
Existem, sim, profissionais incríveis, médicos e equipes que ainda preservam a essência do cuidado, que escutam com atenção, que sentem com o paciente, que tratam com humanidade e zelo.
Esses profissionais existem, e a eles, minha profunda admiração.
Mas o que relato aqui nasce das experiências que tenho vivido e presenciado e, talvez, eu esteja enganado, mas os bons profissionais da área de saúde parecem estar se tornando raros.
Espécies em extinção.
E esse texto não é um ataque, mas um pedido urgente para que essas exceções voltem a ser a regra.


Podemos fazer diferente.
E é isso que peço:
Que cada um de nós volte a exigir.
Que cada um de nós volte a se importar.
Que cada um de nós volte a cuidar, inclusive de quem deveria cuidar de nós.


Só assim forjaremos uma nova geração de profissionais.
Profissionais que amam o que fazem.
Que estudam além do óbvio.
Que escutam o que não está no prontuário.
Que reconhecem, em cada paciente, uma alma e não apenas um caso.


E talvez, só então, a medicina volte a ser o que nasceu para ser:
uma extensão do amor.


E que esse amor nos cure, a todos.

Eu nunca vi alguém
Que corresse, atrás de um sonho
Que não quisesse
Realizar

Não concorda com minhas ideias,tranquilo...mas eu jamais vou mudar minhas convicções só pra agradar quem quer que seja, não preciso, nem quero.

Milagre é quando a humanidade diz que não tem como acontecer, a divindade diz: eu sei como fazer!

Hoje estou triste.


Triste pelo que fizeram,
pelo que não fizeram,
pelo que eu fiz comigo mesma
tentando acreditar que algumas pessoas
seriam aquilo que eu precisava que fossem.


Talvez amanhã eu volte a acreditar.


Talvez eu volte a oferecer carinho,
a confiar,
a enxergar beleza nas pessoas.


Mas hoje...


hoje eu só quero recolher meus pedaços
e ficar um pouco em silêncio.


E talvez eu não esteja decepcionada com o amor,
nem com a amizade,
nem com o mundo.


Talvez eu esteja apenas cansada
de amar com tanta verdade
em um lugar onde nem todo mundo
sabe o que fazer com ela.


Talvez eu esteja decepcionada comigo por sentir tanto tudo isso ...


E só por hoje me permito ficar triste.

Já ouvi alguém dizer
Que eu sou um esquisito
Mas não vou deixar de ser
Pois isto é meu requisito.


Gélson Pessoa
Santo Antônio do Salto da Onça RN
13/08/2026

A distância,não permite que eu te abrace
mas permite que eu te ame...

Sinto muito,mas eu não sei lidar
com pessoas, que só conhecem...
palavrões,como resposta.

Eu não sei quase nada sobre quase tudo.

Ultimamente, eu não estou conseguindo amarrar mais nada. Tudo o que eu amarro acaba se soltando.

Se você não me disser a verdade, não tem como eu ajudar a minha metade. Se tem outro em meu lugar ou se você quer colocar, te deixo livre para viver. Não prometo te esperar, o coração vai cicatrizar e uma hora sei que vou te esquecer. Se era medo de me machucar, já tem meu perdão. Tá esperando o que?

Eu não vou embora.
Você pode abrir a porta .
E falar vai te embora.

Eu quero viver contigo.
Você sabe que a amo.
Qui sou teu amigo.
Me estende a tua mão.


Porque você é o meu mundo.
O amor mais lindo no mundo.
Meu reino de alegria.
Você é magia.
Não diz não.
Meu amor.

Quero estar do teu lado
Fundir nossos pecados
Unir nosso amor
Meu amor

ponte
Eu não vou embora.
Você pode abrir a porta .
E falar vai te embora.

Eu quero viver contigo.
Você sabe que a amo.
Qui sou teu amigo.
Me estende a tua mão.
Não me diz não meu amor. ⁸

Porque você é o meu mundo.
O amor mais lindo no mundo.
Meu reino de alegria.
Você é magia.
Não diz não.
Meu amor.

Quero estar do teu lado
Fundir nossos pecados
Unir nosso amor
Meu amor
Meu amor
Meu amor
Meu amor
Não me diz não meu amor.

⁠Parece que o eu leva ao não-eu,
a mente aponta para a não-mente
e o sonho reflete de volta o sonhador.
No entanto, tudo acontece sem estrada, sem ponteiro,
e sem reflexo.

⁠Quero dizer-te coisas,
mas tu e eu sabemos que
as palavras não passam de um fluxo de ar complicado.
Só o silêncio diz a verdade.

*O LUGAR ONDE A POESIA NÃO SERVIA PARA NADA*

Eu era novo na cidade e ainda não tinha escolhido um lugar para beber. Toda cidade exige isso de você. Um lugar onde entrar sozinho não pareça uma declaração de fracasso. Um balcão onde ninguém pergunte seu nome. Uma mesa onde você possa ficar olhando para o copo como se houvesse alguma resposta lá dentro.

Encontrei o pub perto de um parque.

Era pequeno. Bucólico demais para o meu gosto, mas não o suficiente para me fazer ir embora. Havia árvores antigas do lado de fora, bancos de madeira e uma iluminação amarela que fazia tudo parecer mais importante do que realmente era.

Dentro, havia estantes cheias de livros, quadros de artistas locais e alguns instrumentos musicais pendurados nas paredes. Um pequeno tablado, quase no mesmo nível do chão, servia para música, debates literários e noites de poesia.

Pedi uma bebida e sentei no canto do balcão.

Era um bom lugar para observar.

E observar é uma das poucas coisas que ainda consigo fazer sem estragar tudo.

Uma mulher subiu ao pequeno tablado.

Trazia algumas folhas na mão.

Começou a declamar.

Não era uma poesia bonita.

Ainda bem.

Falava de solidão, de perdas, de um homem que foi embora, de uma mãe que nunca soube abraçar, de noites em que o telefone não toca e de manhãs em que ninguém tem coragem de admitir que gostaria de não ter acordado.

Falava de gente.

Isso já era uma coisa bastante desagradável para algumas pessoas.

No canto próximo ao balcão havia um grupo de homens e mulheres que parecia ter escolhido aquele lugar por engano. Tinham roupas boas, relógios caros e aquele tipo de conversa que costuma começar com dinheiro e terminar em dinheiro.

Um deles riu.

Outro disse que aquilo era deprimente.

Uma mulher comentou que poesia não servia para nada.

O homem do relógio concordou.

— Poesia não paga conta.

Era uma frase perfeita.

Curta.

Prática.

Estúpida.

Eles riram.

Eu bebi.

A mulher continuou.

E, enquanto ela falava, comecei a pensar que talvez aquela fosse a pergunta errada.

Para que serve a poesia?

A pergunta parecia razoável até você perceber que existe uma doença escondida nela.

A necessidade de que tudo tenha utilidade.

Se alguma coisa não produz dinheiro, produtividade ou resultado, passa a ser considerada inútil.

Uma árvore precisa dar fruto.

Um homem precisa produzir.

Uma mulher precisa vencer.

Um filho precisa ter futuro.

Uma casa precisa valorizar.

Um livro precisa ensinar.

Uma conversa precisa gerar alguma coisa.

Até o descanso precisa servir para recuperar alguém para o trabalho do dia seguinte.

Tudo precisa servir.

Talvez fosse por isso que aquela mulher incomodava tanto.

Ela estava ali fazendo uma coisa que não servia para nada.

Ou, pelo menos, não servia para aquilo que eles entendiam como vida.

Ela não estava vendendo nada.

Não estava aumentando patrimônio.

Não estava melhorando o currículo.

Não estava produzindo uma estatística.

Estava apenas dizendo alguma coisa que doía.

E talvez fosse justamente aí que estivesse a resistência.

A poesia não consertava o mundo.

Não pagava aluguel.

Não trocava o óleo do carro.

Não diminuía a fila do supermercado.

Não impedia que um idiota fosse eleito presidente de alguma coisa.

Mas resistia.

Resistia à ideia de que o ser humano pudesse ser reduzido ao que possui, ao que produz e ao que consegue provar.

Ela funcionava como metáfora daquilo que dá sentido à existência.

Não porque tivesse respostas.

Mas porque fazia perguntas que ninguém conseguia transformar em dinheiro.

Quem sou eu?

O que perdi?

Quem amei?

Quem ainda me ama?

Por que continuo aqui?

Perguntas inconvenientes.

Nenhuma delas cabe numa planilha.

O grupo continuava rindo.

O homem do relógio começou a falar do carro novo.

A mulher ao lado dele mostrou fotografias de uma viagem.

Outro falou sobre investimentos.

Tinham muito.

Era evidente.

Talvez tivessem tudo.

E foi justamente isso que me incomodou.

Pareciam ter passado tanto tempo acumulando coisas que esqueceram de acumular alguma experiência que não pudesse ser fotografada.

Talvez confundissem ter com ser.

Eu não podia julgá-los.

Também tinha passado boa parte da vida fazendo coisas que não sabia se queria fazer.

Trabalhando.

Pagando.

Cumprindo.

Esperando.

Adiando.

A diferença talvez fosse apenas o tipo de mentira que cada um contava para continuar funcionando.

A mulher terminou o poema.

Algumas pessoas aplaudiram.

Poucas.

Ela agradeceu e desceu.

Passou perto de mim.

Por um instante, olhou para o meu copo.

Depois para mim.

Não disse nada.

Talvez não precisasse.

Pedi outra bebida.

Depois outra.

A noite avançou.

O grupo foi embora.

Um deles saiu falando ao telefone sobre uma reunião às oito da manhã.

A poesia havia terminado.

O dinheiro continuava funcionando.

O mundo tinha sobrevivido a mais uma noite.

Paguei a conta e saí.

O parque estava quase vazio.

Comecei a caminhar para casa.

A cidade parecia diferente sem as pessoas falando.

Os prédios eram apenas prédios.

As lojas estavam fechadas.

As vitrines continuavam iluminadas para ninguém.

Passei por um carro importado estacionado na rua.

Pensei no homem do relógio.

Ele provavelmente chegaria em casa, colocaria as chaves sobre uma mesa cara e dormiria numa cama confortável.

Talvez fosse feliz.

Eu não sabia.

E esse era o problema.

Ninguém sabe.

Passamos a vida tentando construir uma resposta com coisas que podem ser medidas.

Salário.

Cargo.

Casa.

Carro.

Viagens.

Seguidores.

Objetos.

Conquistas.

E, no fim, quando tudo isso fica em silêncio, sobra uma pergunta que não pode ser respondida por extrato bancário.

Você viveu?

Ou apenas funcionou?

Continuei andando.

Pensei novamente na mulher do pub.

Talvez poesia fosse isso.

Não um luxo.

Não uma distração para quem não tem problemas.

Mas uma espécie de resistência contra a vida automática.

Um pequeno defeito na máquina.

A recusa em aceitar que nascer, trabalhar, pagar contas, envelhecer e morrer seja uma biografia suficiente.

Talvez um poema seja apenas alguém dizendo: eu estive aqui.

Eu senti isso.

Eu perdi aquilo.

Eu amei alguém.

Eu tive medo.

Eu não entendi.

Mas estive aqui.

E talvez fosse isso que aquelas pessoas não compreendessem.

A poesia não precisava salvar ninguém.

Bastava impedir que alguém se transformasse completamente naquilo que o mundo queria que ele fosse.

Cheguei em casa.

Abri a porta.

Acendi a luz.

Meu gato apareceu no corredor.

Olhou para mim com aquela expressão de quem estava profundamente decepcionado com a minha pontualidade e com a espécie humana em geral.

Tinha fome.

Claro que tinha.

Coloquei comida no prato.

Ele comeu.

Depois passou pela minha perna e desapareceu.

Fiquei alguns segundos parado no meio da sala.

A casa estava silenciosa.

Não havia aplausos.

Não havia relógios caros.

Não havia gente discutindo patrimônio.

Não havia ninguém perguntando quanto eu ganhava ou o que eu possuía.

Havia apenas um gato, uma garrafa pela metade e eu.

E foi ali que entendi uma coisa bastante simples.

Talvez a poesia não sirva para nada.

Talvez nunca tenha servido.

Talvez esse seja justamente o seu valor.

Porque algumas coisas precisam existir sem prestar contas.

Uma música.

Um beijo.

Uma conversa inútil às três da manhã.

Um homem bebendo sozinho.

Uma mulher lendo seus versos para meia dúzia de desconhecidos.

Um gato esperando alguém voltar para casa.

Nada disso aumenta o patrimônio.

Nada disso melhora a produtividade.

Nada disso aparece no currículo.

Mas, quando tudo o que pode ser comprado, medido e contabilizado finalmente perde importância, são essas coisas que permanecem.

Fiquei olhando para o gato.

Ele me olhou de volta.

Nenhum dos dois tinha uma resposta.

Pela primeira vez naquela noite, isso não pareceu um problema.

Talvez viver seja justamente continuar fazendo coisas que não servem para nada e que, por alguma razão, fazem a existência valer alguma coisa.

Talvez seja por isso que ainda escrevemos.

Por isso que ainda ouvimos música.

Por isso que ainda amamos mesmo depois de descobrir que amar não oferece nenhuma garantia.

A poesia não existe para tornar a vida mais útil.

Existe para impedir que a vida se torne apenas útil.

E naquela noite, sozinho em casa, com um gato faminto andando pela sala e a cidade inteira funcionando do lado de fora, percebi que talvez essa fosse a única forma de resistência que ainda me interessava.

Continuar vivo.

Mas não apenas funcionando.

“Eu desconfio das almas que nunca conheceram a própria escuridão; talvez elas ainda não tenham descoberto a profundidade da própria luz.”

— Juliana Hoffmann Liska

Os erros do passado
não definem quem eu sou.
Muito melhor do que ontem, com certeza, hoje sou.

O meu auge não é um lugar onde eu chego. É o fogo que me consome e me reconstrói todos os dias. Eu não busco a perfeição do agora; eu sou a fúria constante de quem se recusa a caber no próprio passado.

Deus escreve sempre certo, quem lê errado sou eu. Às vezes, não entendo os caminhos, questiono os porquês e me entristeço com o que parece dar errado. Mas Deus enxerga além do que vejo. No tempo certo, tudo se encaixa e a fé revela que Ele sempre soube o que fazia.