Eu Nao sou Perfeita So apenas eu

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"Minha paz custou caro. Por isso hoje eu não negocio com aquilo que me destrói."

Me conheça de novo.


Agora eu carrego outro cheiro,
outros olhos,
uma nova voz.


Não procure em mim
a pessoa que você deixou partir,
porque aquela versão de mim
ficou perdida entre antigas estações.


Eu voltei com novas tempestades nos cabelos,
com outros silêncios no peito,
com histórias que minhas próprias mãos
ainda tentam decifrar.


Meu olhar mudou.
Ele já viu abismos,
já atravessou noites compridas,
já aprendeu a enxergar beleza
onde antes só existia ruína.


Minha voz também mudou.
Ela não pede mais licença para existir.
Ela traz o peso dos dias vencidos
e a leveza de quem descobriu
que renascer também é uma forma de vingança.


Então me conheça de novo.


Não tente encontrar quem eu era.
Escute quem eu sou.


Eu ainda tenho a mesma alma,
mas agora ela veste outra pele,
respira outros sonhos
e caminha por um caminho
que só eu conheço.

Eu tenho urgência de viver. Urgência de amar. Porque a vida não espera por quem adia o próprio coração.

'Enquanto o tempo não Decide"


Eu te esperarei,


não como quem conta as horas
ou implora ao tempo que não vá.
Esperarei como a noite espera a aurora,
sabendo que a luz, cedo ou tarde, chegará.


Não guardarei teu nome entre promessas,
nem farei do passado um altar.
Há amores que sobrevivem às pressas,
mas morrem quando alguém deixa de lutar.


Eu te esperarei onde ninguém me alcança,
onde o silêncio aprende a dizer.
Sem transformar saudade em esperança,
sem esquecer de mim para esperar você.


E se um dia teus passos encontrarem os meus,
não perguntarei por que demorou.
Talvez certos encontros sejam escritos por Deus,
depois que o mundo inteiro nos desencontrou.


Mas se não vieres, eu também partirei.
Não por falta de amor, nem por esquecer.
É que até quem espera precisa viver,
e há portas que o coração precisa fechar para sobreviver.


Ainda assim, se a vida te trouxer de volta,
se o acaso resolver nos aproximar,
encontrarás minha alma já sem revolta,
mas com espaço suficiente para te abraçar.


Eu te esperarei.


Não parada.


Não perdida.


Apenas vivendo a minha vida,


até que o destino decida
se você era chegada
ou apenas despedida.

⁠Crônicas de uma vida – Parte que não se conta no currículo


Quando eu nasci, não entendia nada sobre humanidade. Nem por que raios eu tinha vindo ao mundo. Era só um choro automático, um corpo quente e confuso que exigia leite, colo e silêncio.


Com o passar dos anos, comecei a querer ser alguém **especial**. Não sabia ainda o que era humanismo, compaixão ou empatia — palavras grandes demais para uma criança que só queria ser notada. Então foquei no meu eu: minhas notas, minhas conquistas, meu quartinho organizado, minhas pequenas vitórias que eu achava que definiam valor. O mundo era um palco, e eu ensaiava meu monólogo principal.


Até que, numa noite qualquer — daquelas em que a cidade parece respirar mais devagar —, tudo mudou sem aviso.


Eu caminhava pela rua estreita atrás do prédio, fugindo da insônia e do calor abafado do apartamento. Foi quando a vi: uma figura encurvada, quase fundida com a sombra do poste. Uma mulher (acho que era mulher, a penumbra roubava detalhes). Ela revirava uma lata de lixo com uma paciência feroz, os braços magros desaparecendo até o cotovelo no fundo metálico. O som era seco, plástico rasgando, latas batendo. De vez em quando ela parava, examinava algo na luz amarelada, levava à boca e mastigava devagar, como se saboreasse um prato requintado.


Fiquei parado. Não consegui seguir andando.


Primeiro veio a surpresa. Depois, uma pontada de indignação quase infantil: **Como assim? Como uma pessoa igual a mim, feita da mesma carne, do mesmo sangue quente, pode chegar a esse ponto?** O cérebro tentava calcular: acidente? drogas? doença? família que virou as costas? E logo em seguida veio o desconforto pior: e se eu, com toda a minha pose de “alguém especial”, estivesse a apenas algumas más decisões de distância daquela lata de lixo?


Ela ergueu os olhos por um instante. Não sei se me viu de verdade. Talvez eu fosse só mais um vulto na noite, mais uma silhueta que passa e julga. Mas naquele segundo de cruzamento de olhares — ou de quase-olhares — alguma coisa em mim estalou.


Não foi pena. Pena é confortável, dá para resolver com uma moeda ou um sanduíche. Foi **reconhecimento**. Uma espécie de espelho torto e cruel. Ela ali, eu aqui. Mesma espécie. Mesma fragilidade essencial. Só que a vida tinha apertado o acelerador em direções opostas.


Voltei para casa com o estômago embrulhado e os pensamentos em looping. Naquela noite, pela primeira vez, percebi que ser “especial” não era uma conquista solitária. Era, na verdade, uma ilusão muito frágil, sustentada por circunstâncias que eu não controlava: nasci em berço que não desabou, tive acesso a escola, saúde, comida na mesa, rede de proteção invisível que a maioria nem percebe que tem.


A criatura furtiva da noite adentro não era “outra”. Era um **lembrete**. Um lembrete vivo, sujo, faminto, de que a humanidade não é mérito — é sorte, é sistema, é escolha alheia, é conjunto de acasos e de decisões coletivas.


E aí, devagar, quase sem querer, comecei a entender o que talvez seja o humanismo: olhar para o outro e enxergar, antes de qualquer coisa, o mesmo grito surdo de existir. Não importa se está dentro de um terno caro ou revirando lixo à meia-noite.


Aquele encontro não me transformou num santo. Longe disso. Mas plantou uma dúvida incômoda e permanente:
E se eu tivesse nascido do outro lado da lata?
E se, amanhã, a vida virar a chave e me colocar lá?


Talvez a verdadeira especialidade não seja chegar ao topo.
Talvez seja conseguir olhar para baixo — ou para o lado — sem desviar os olhos.
E, quem sabe, estender a mão.
Não por pena.
Mas por reconhecer, no fundo do peito, que aquela mão que revira o lixo poderia, em outra história, ser a minha.


E você? Ja passou por situação que fez repensar quem você acha que é?


Ysrael Soler

PORMENORES


Eu fiz uma canção.
Ela exprime meus anseios.
Eu não tinha tal entendimento,
Mas a canção se fez rainha nos meus sonhos.
Qual a um erudito, fiz nos pormenores
As causas de sua construção.
E entoei um grito sufocado.
Eu já não tinha um porquê de entoá-la.
Mesmo assim, a fiz!
Desejei que o mundo ouvisse!
Mas, depois, compreendi...
Que só eu a entenderia!

Eu e meus botões


Quando você quiser encontrar colo, não procure em molas sofisticadas de alguém que não lhe oferece conforto.
Existem colos no olhar, no carinho, no dizer: “Oi, querida, eu te amo”; no aperto de um abraço sincero, na carta escrita, no beijo demorado.


E, por fim, no abraço de inverno...
Ouvindo a mais pura música do luar de Janeiro.

Mensagem para você que pensa em desistir

Não pare por nada desse mundo! Eu sei, você está passando por dificuldades e já não sabe mais o que fazer. Ontem se pegou chorando e se questionando se as coisas não iam dar certo para você; que até quem você ama lhe falou para que parasse e procurasse outra coisa para fazer.
Mas ei...não pare! Não desista! Vou te contar uma coisa que talvez você ainda não tenha percebido, mas todos nós passamos por dificuldades e muitas vezes não temos apoio para garantir os nossos sonhos. Problemas, dificuldades são ruins, machucam o corpo e a alma, a falta de apoio de quem nós gostamos também, só que isso não é motivo para desistir.
Se você acredita em algo, se você sonha com algo, creia nisso cada vez mais e faça o que deseja se tornar realidade! Mesmo com as suas limitações, faça! Prossiga, tente, tente de novo e quantas vezes forem necessárias, mas faça! Não pare! Se quer chorar, chore, mas depois limpe as suas lágrimas e prossiga.
A espera e o esforço não são etapas fáceis, mas são as etapas necessárias para que você dê o devido valor ao seu desejo. Estou certo que ao final de tudo você ainda vai gritar: Obrigada senhor, porque eu te ouvi e não desisti!

Amém! Eu recebo.
@keylak.holanda

A versão que eu deveria ser está em Cristo e a versão que não consegue tem meu nome.

o gabrieu e o parice II


Existe alguém dentro de mim que não tem paciência.


Eu descobri isso tarde, depois de passar tempo demais tentando ser uma pessoa fácil de carregar. Ele apareceu quando eu já estava acostumado a me abandonar em pequenas doses, quando dizer não para mim mesmo tinha virado uma forma de educação e desistir dos meus sonhos parecia apenas uma consequência natural de crescer.


Ele odiou isso.


Odiou a minha prudência.


Odiou o jeito como eu transformava medo em maturidade e acomodação em paz.


Odiou principalmente quando eu dizia “um dia”.


Porque ele sabia.


Ele sabia de todas as coisas que eu já imaginei fazer, de todas as versões de mim que já existiram na minha cabeça antes que eu tivesse coragem de colocá-las no mundo. Sabia dos lugares onde eu queria chegar, das coisas que queria construir, da pessoa que eu dizia que seria quando tivesse tempo, dinheiro, coragem, oportunidade, certeza.


Ele escutou todas essas promessas.


E um dia perdeu a paciência.


Não veio me consolar.


Veio me buscar.


Disse que eu estava correndo na direção errada e que, se precisasse, me arrancaria dela à força. Não porque me odiasse, mas porque talvez fosse a única coisa dentro de mim que ainda me amasse o suficiente para não aceitar a minha própria desistência.


Eu tentei explicar.


Falei de responsabilidade.


De pessoas.


De consequências.


De tudo aquilo que existe do lado de fora de nós e que aprendemos a carregar como se fosse nossa obrigação.


Ele riu.


Não porque aquilo fosse engraçado.


Porque estava cansado.


“E você?”


Foi só isso.


E você?


Eu não tinha resposta.


Porque passei tanto tempo perguntando o que os outros precisavam que esqueci de perguntar o que eu queria.


Ele não esqueceu.


Ele queria tudo.


Queria as viagens que eu adiei.


Os projetos que eu deixei morrer antes de nascer.


As noites em que eu deveria ter saído.


As conversas que eu deveria ter tido.


As portas que eu não bati.


As cidades que eu só conheci pela tela.


Queria que eu fosse até o fim de cada coisa que um dia fez meus olhos brilharem.


Não importava se eu fracassasse.


Fracasso, para ele, ainda era movimento.


O que ele não aceitava era a covardia sofisticada de chamar desistência de escolha.


Então começou a destruir.


Não minha vida.


A vida antiga.


Aquela que tinha sido construída para me manter pequeno.


Quebrou os móveis imaginários daquele apartamento mental onde tudo estava sempre no lugar, mas nada realmente acontecia. Pegou as fotografias das versões antigas de mim e rasgou uma por uma. Incendiou as desculpas. Jogou no asfalto os planos que nunca saíam do papel.


Eu fiquei desesperado.


“Você está acabando com tudo.”


Ele respondeu:


“Não. Estou acabando com aquilo que acabou com você.”


E eu odiei ouvir aquilo porque alguma parte de mim sabia que era verdade.


Ele não tinha delicadeza.


Delicadeza demais tinha sido justamente o problema.


Ele era egoísta.


Completamente.


Se alguém precisasse ficar para trás para que eu pudesse avançar, ele não passaria a noite inteira se culpando.


Se uma porta exigisse que eu deixasse uma versão antiga de mim do lado de fora, ele fecharia.


Se uma vida inteira tivesse sido construída em cima da ideia de agradar todo mundo, ele preferiria colocar fogo na casa a continuar morando nela.


Ele não queria ser uma pessoa melhor.


Queria que eu fosse inteiro.


Essa era a diferença.


E talvez fosse por isso que eu tivesse tanto medo dele.


Porque ele não negociava com a parte de mim que queria continuar pequena.


Quando eu dizia “não consigo”, ele perguntava “ainda não ou nunca?”


Quando eu dizia “não é a hora”, ele perguntava “quando foi que você decidiu que teria outra?”


Quando eu dizia “e se der errado?”, ele respondia que pelo menos o erro teria o meu nome.


Ele tinha raiva.


Uma raiva quase sagrada.


Raiva de tudo que transforma pessoas em versões aceitáveis delas mesmas.


Raiva da cadeira confortável onde sonhos morrem lentamente.


Raiva das frases que começam com “se eu pudesse”.


Raiva de olhar para uma vida inteira pela frente e escolher viver como se já estivesse no fim.


Ele ardia.


Eu conseguia sentir.


Era como carregar uma pequena tempestade atrás das costelas.


E quanto mais eu tentava apagá-lo, mais fogo ele colocava nas coisas.


Só que, estranhamente, quanto mais ele queimava, mais frio ficava o mundo ao redor.


Eu corria dele.


Ele corria atrás de mim.


Eu procurava abrigo.


Ele derrubava o teto.


Eu queria voltar.


Ele apontava para frente.


E essa talvez seja a parte mais cruel:


eu quero ficar.


Quero ficar exatamente onde estou.


Quero preservar as pessoas, os lugares, os hábitos, as versões que conheço.


Quero acreditar que ainda posso ter tudo sem precisar perder nada.


Mas ele sabe que não.


Ele sabe que algumas versões de nós não cabem na próxima.


E quando chega a hora, ele não pede permissão.


Ele pega minha mão.


Eu puxo de volta.


Ele segura mais forte.


Eu digo que tenho medo.


Ele diz que também.


E continua andando.


Porque talvez coragem nunca tenha sido ausência de medo.


Talvez coragem seja ter alguém dentro de você que tenha medo também e, mesmo assim, continue arrastando você para frente.


Hoje eu ainda reluto.


Ainda tento negociar.


Ainda olho para trás.


Ainda sinto falta daquilo que ele destruiu.


Mas existe uma coisa que não consigo mais negar.


Aquele monstro nunca quis me machucar.


Ele queria me impedir de passar o resto da vida me machucando devagar.


Ele não apareceu para tomar minha vida.


Apareceu porque eu tinha deixado de tomá-la para mim.


E agora, quando sinto o fogo dele subindo, quando aquela voz começa a dizer que já chega, que não existe mais espaço para adiar, eu sei o que está acontecendo.


Ele está acordando.


E eu sei que vou correr.


Vou relutar.


Vou tentar convencê-lo a me deixar em paz.


Mas, no fundo, existe uma parte de mim que já sabe exatamente para onde estamos indo.


Para tudo aquilo que um dia eu imaginei.


Para tudo aquilo que ainda não existe.


Para a vida que eu continuei prometendo que começaria algum dia.


Ele não quer esperar.


Ele quer agora.


E talvez seja por isso que eu tenha tanto medo de olhar para ele.


Porque quando olho, não vejo um monstro.


Vejo a única versão de mim que nunca desistiu de nós dois.


Assuma o controle Parice, eu lhe permito, não existe mais nada pra mim aqui.

Eu nunca vi alguém
Que corresse, atrás de um sonho
Que não quisesse
Realizar

Hoje estou triste.


Triste pelo que fizeram,
pelo que não fizeram,
pelo que eu fiz comigo mesma
tentando acreditar que algumas pessoas
seriam aquilo que eu precisava que fossem.


Talvez amanhã eu volte a acreditar.


Talvez eu volte a oferecer carinho,
a confiar,
a enxergar beleza nas pessoas.


Mas hoje...


hoje eu só quero recolher meus pedaços
e ficar um pouco em silêncio.


E talvez eu não esteja decepcionada com o amor,
nem com a amizade,
nem com o mundo.


Talvez eu esteja apenas cansada
de amar com tanta verdade
em um lugar onde nem todo mundo
sabe o que fazer com ela.


Talvez eu esteja decepcionada comigo por sentir tanto tudo isso ...


E só por hoje me permito ficar triste.

A distância,não permite que eu te abrace
mas permite que eu te ame...

Eu não sei quase nada sobre quase tudo.

Ultimamente, eu não estou conseguindo amarrar mais nada. Tudo o que eu amarro acaba se soltando.

Se você não me disser a verdade, não tem como eu ajudar a minha metade. Se tem outro em meu lugar ou se você quer colocar, te deixo livre para viver. Não prometo te esperar, o coração vai cicatrizar e uma hora sei que vou te esquecer. Se era medo de me machucar, já tem meu perdão. Tá esperando o que?

Eu não vou embora.
Você pode abrir a porta .
E falar vai te embora.

Eu quero viver contigo.
Você sabe que a amo.
Qui sou teu amigo.
Me estende a tua mão.


Porque você é o meu mundo.
O amor mais lindo no mundo.
Meu reino de alegria.
Você é magia.
Não diz não.
Meu amor.

Quero estar do teu lado
Fundir nossos pecados
Unir nosso amor
Meu amor

ponte
Eu não vou embora.
Você pode abrir a porta .
E falar vai te embora.

Eu quero viver contigo.
Você sabe que a amo.
Qui sou teu amigo.
Me estende a tua mão.
Não me diz não meu amor. ⁸

Porque você é o meu mundo.
O amor mais lindo no mundo.
Meu reino de alegria.
Você é magia.
Não diz não.
Meu amor.

Quero estar do teu lado
Fundir nossos pecados
Unir nosso amor
Meu amor
Meu amor
Meu amor
Meu amor
Não me diz não meu amor.

⁠Quero dizer-te coisas,
mas tu e eu sabemos que
as palavras não passam de um fluxo de ar complicado.
Só o silêncio diz a verdade.

*O LUGAR ONDE A POESIA NÃO SERVIA PARA NADA*

Eu era novo na cidade e ainda não tinha escolhido um lugar para beber. Toda cidade exige isso de você. Um lugar onde entrar sozinho não pareça uma declaração de fracasso. Um balcão onde ninguém pergunte seu nome. Uma mesa onde você possa ficar olhando para o copo como se houvesse alguma resposta lá dentro.

Encontrei o pub perto de um parque.

Era pequeno. Bucólico demais para o meu gosto, mas não o suficiente para me fazer ir embora. Havia árvores antigas do lado de fora, bancos de madeira e uma iluminação amarela que fazia tudo parecer mais importante do que realmente era.

Dentro, havia estantes cheias de livros, quadros de artistas locais e alguns instrumentos musicais pendurados nas paredes. Um pequeno tablado, quase no mesmo nível do chão, servia para música, debates literários e noites de poesia.

Pedi uma bebida e sentei no canto do balcão.

Era um bom lugar para observar.

E observar é uma das poucas coisas que ainda consigo fazer sem estragar tudo.

Uma mulher subiu ao pequeno tablado.

Trazia algumas folhas na mão.

Começou a declamar.

Não era uma poesia bonita.

Ainda bem.

Falava de solidão, de perdas, de um homem que foi embora, de uma mãe que nunca soube abraçar, de noites em que o telefone não toca e de manhãs em que ninguém tem coragem de admitir que gostaria de não ter acordado.

Falava de gente.

Isso já era uma coisa bastante desagradável para algumas pessoas.

No canto próximo ao balcão havia um grupo de homens e mulheres que parecia ter escolhido aquele lugar por engano. Tinham roupas boas, relógios caros e aquele tipo de conversa que costuma começar com dinheiro e terminar em dinheiro.

Um deles riu.

Outro disse que aquilo era deprimente.

Uma mulher comentou que poesia não servia para nada.

O homem do relógio concordou.

— Poesia não paga conta.

Era uma frase perfeita.

Curta.

Prática.

Estúpida.

Eles riram.

Eu bebi.

A mulher continuou.

E, enquanto ela falava, comecei a pensar que talvez aquela fosse a pergunta errada.

Para que serve a poesia?

A pergunta parecia razoável até você perceber que existe uma doença escondida nela.

A necessidade de que tudo tenha utilidade.

Se alguma coisa não produz dinheiro, produtividade ou resultado, passa a ser considerada inútil.

Uma árvore precisa dar fruto.

Um homem precisa produzir.

Uma mulher precisa vencer.

Um filho precisa ter futuro.

Uma casa precisa valorizar.

Um livro precisa ensinar.

Uma conversa precisa gerar alguma coisa.

Até o descanso precisa servir para recuperar alguém para o trabalho do dia seguinte.

Tudo precisa servir.

Talvez fosse por isso que aquela mulher incomodava tanto.

Ela estava ali fazendo uma coisa que não servia para nada.

Ou, pelo menos, não servia para aquilo que eles entendiam como vida.

Ela não estava vendendo nada.

Não estava aumentando patrimônio.

Não estava melhorando o currículo.

Não estava produzindo uma estatística.

Estava apenas dizendo alguma coisa que doía.

E talvez fosse justamente aí que estivesse a resistência.

A poesia não consertava o mundo.

Não pagava aluguel.

Não trocava o óleo do carro.

Não diminuía a fila do supermercado.

Não impedia que um idiota fosse eleito presidente de alguma coisa.

Mas resistia.

Resistia à ideia de que o ser humano pudesse ser reduzido ao que possui, ao que produz e ao que consegue provar.

Ela funcionava como metáfora daquilo que dá sentido à existência.

Não porque tivesse respostas.

Mas porque fazia perguntas que ninguém conseguia transformar em dinheiro.

Quem sou eu?

O que perdi?

Quem amei?

Quem ainda me ama?

Por que continuo aqui?

Perguntas inconvenientes.

Nenhuma delas cabe numa planilha.

O grupo continuava rindo.

O homem do relógio começou a falar do carro novo.

A mulher ao lado dele mostrou fotografias de uma viagem.

Outro falou sobre investimentos.

Tinham muito.

Era evidente.

Talvez tivessem tudo.

E foi justamente isso que me incomodou.

Pareciam ter passado tanto tempo acumulando coisas que esqueceram de acumular alguma experiência que não pudesse ser fotografada.

Talvez confundissem ter com ser.

Eu não podia julgá-los.

Também tinha passado boa parte da vida fazendo coisas que não sabia se queria fazer.

Trabalhando.

Pagando.

Cumprindo.

Esperando.

Adiando.

A diferença talvez fosse apenas o tipo de mentira que cada um contava para continuar funcionando.

A mulher terminou o poema.

Algumas pessoas aplaudiram.

Poucas.

Ela agradeceu e desceu.

Passou perto de mim.

Por um instante, olhou para o meu copo.

Depois para mim.

Não disse nada.

Talvez não precisasse.

Pedi outra bebida.

Depois outra.

A noite avançou.

O grupo foi embora.

Um deles saiu falando ao telefone sobre uma reunião às oito da manhã.

A poesia havia terminado.

O dinheiro continuava funcionando.

O mundo tinha sobrevivido a mais uma noite.

Paguei a conta e saí.

O parque estava quase vazio.

Comecei a caminhar para casa.

A cidade parecia diferente sem as pessoas falando.

Os prédios eram apenas prédios.

As lojas estavam fechadas.

As vitrines continuavam iluminadas para ninguém.

Passei por um carro importado estacionado na rua.

Pensei no homem do relógio.

Ele provavelmente chegaria em casa, colocaria as chaves sobre uma mesa cara e dormiria numa cama confortável.

Talvez fosse feliz.

Eu não sabia.

E esse era o problema.

Ninguém sabe.

Passamos a vida tentando construir uma resposta com coisas que podem ser medidas.

Salário.

Cargo.

Casa.

Carro.

Viagens.

Seguidores.

Objetos.

Conquistas.

E, no fim, quando tudo isso fica em silêncio, sobra uma pergunta que não pode ser respondida por extrato bancário.

Você viveu?

Ou apenas funcionou?

Continuei andando.

Pensei novamente na mulher do pub.

Talvez poesia fosse isso.

Não um luxo.

Não uma distração para quem não tem problemas.

Mas uma espécie de resistência contra a vida automática.

Um pequeno defeito na máquina.

A recusa em aceitar que nascer, trabalhar, pagar contas, envelhecer e morrer seja uma biografia suficiente.

Talvez um poema seja apenas alguém dizendo: eu estive aqui.

Eu senti isso.

Eu perdi aquilo.

Eu amei alguém.

Eu tive medo.

Eu não entendi.

Mas estive aqui.

E talvez fosse isso que aquelas pessoas não compreendessem.

A poesia não precisava salvar ninguém.

Bastava impedir que alguém se transformasse completamente naquilo que o mundo queria que ele fosse.

Cheguei em casa.

Abri a porta.

Acendi a luz.

Meu gato apareceu no corredor.

Olhou para mim com aquela expressão de quem estava profundamente decepcionado com a minha pontualidade e com a espécie humana em geral.

Tinha fome.

Claro que tinha.

Coloquei comida no prato.

Ele comeu.

Depois passou pela minha perna e desapareceu.

Fiquei alguns segundos parado no meio da sala.

A casa estava silenciosa.

Não havia aplausos.

Não havia relógios caros.

Não havia gente discutindo patrimônio.

Não havia ninguém perguntando quanto eu ganhava ou o que eu possuía.

Havia apenas um gato, uma garrafa pela metade e eu.

E foi ali que entendi uma coisa bastante simples.

Talvez a poesia não sirva para nada.

Talvez nunca tenha servido.

Talvez esse seja justamente o seu valor.

Porque algumas coisas precisam existir sem prestar contas.

Uma música.

Um beijo.

Uma conversa inútil às três da manhã.

Um homem bebendo sozinho.

Uma mulher lendo seus versos para meia dúzia de desconhecidos.

Um gato esperando alguém voltar para casa.

Nada disso aumenta o patrimônio.

Nada disso melhora a produtividade.

Nada disso aparece no currículo.

Mas, quando tudo o que pode ser comprado, medido e contabilizado finalmente perde importância, são essas coisas que permanecem.

Fiquei olhando para o gato.

Ele me olhou de volta.

Nenhum dos dois tinha uma resposta.

Pela primeira vez naquela noite, isso não pareceu um problema.

Talvez viver seja justamente continuar fazendo coisas que não servem para nada e que, por alguma razão, fazem a existência valer alguma coisa.

Talvez seja por isso que ainda escrevemos.

Por isso que ainda ouvimos música.

Por isso que ainda amamos mesmo depois de descobrir que amar não oferece nenhuma garantia.

A poesia não existe para tornar a vida mais útil.

Existe para impedir que a vida se torne apenas útil.

E naquela noite, sozinho em casa, com um gato faminto andando pela sala e a cidade inteira funcionando do lado de fora, percebi que talvez essa fosse a única forma de resistência que ainda me interessava.

Continuar vivo.

Mas não apenas funcionando.

“Eu desconfio das almas que nunca conheceram a própria escuridão; talvez elas ainda não tenham descoberto a profundidade da própria luz.”

— Juliana Hoffmann Liska