Eu e Voce de Luiz Antonio Gasparetto
Há quem tome tanto café, que depois de morrer, nem ao menos será cremado. Mas devidamente torrado, moído e empacotado a vácuo.
Poderia o mundo viver sem poesia? É possível, mas haveria apenas tristeza, como estivesse a ver um palhaço que nunca ri.
Às vezes curta, às vezes grande... barbas são assim... Dependentes do humor, da dor, da alegria, do amor...
A Alma é como um pássaro, de asas abertas no céu azul, seguindo a deriva do vento. Há-de pousar, em qualquer lugar, e deixar-se ficar com a vontade de quem jamais quererá partir.
O RANCHO
Uma casa bem pequena
com janelas p'ro terreiro
orações sem ter novena
notas simples de um poema
banho de sol ventos inteiro.
A fumaça do seu café
cheiro do fogão de lenha
radio de mesa antena
interior da casa pequena
simplicidade ali é plena.
Uma casa, sim, pequena
calma chuva no oitão
reina a calma serena
poça d'água, vento pena
molhando o coração.
É lá no vale da serra
bem no centro do sertão
o natural por lá impera
o cheiro é como fera
espantando a solidão.
Antonio Montes
VELHOS SAPATOS
Meus sapatos velhos
de couro secado
aperta meus pés
por todos os lados.
Já não tenho careta
nem rugas na testa
até tento andar certo
mas o couro infesta.
Meus sapatos velhos
contem certo cheiro
me dá uns apertos
me doendo inteiro.
Causa dores no cravo
e frieiras nos dedos
arranca-me sorriso
pra manter o segredo.
Antonio montes
SEDENTÁRIO
Se andas sedentário...
Pegue o boticão
de um esticão.
Não esgueire igual serpente
caçando lugar a frente
muito a frente...
Além dos dentes.
EVENTO CHATO
O João do pato
já muito fraco...
Caiu no buraco.
Foi grande o sopapo...
As penas do pato,
n'aquele evento chato
ficaram no saco.
Antonio Montes
Interessante a mente humana, é o único animal que sabe que irá morrer, porém vivem na arrogância de se achar eterno.
QUERIA SER
O homem queria ser pássaro
E voar de verdade, e voou...
Voou com uma estrovenga
Foi a marte... Mas nunca!
Nunca ganhou a liberdade.
Antonio Montes
PÉ DE COCO
Aquele pé de coco, tem coco...
Coco com oceano castanha
o cacho esta acima do horizonte
nele tem, casco, tem bagaço
tem folhas verdes, lá no alto
que sobre os ventos arranham.
Pegue uma faca ou facão
faça um talho e de um talho
o coco então, cairão ao chão
e deixarão de ser entalho.
N'aquele pé de coco, tem coco
Coco para fazer cocada
e distribuir em volta do fogo
na fogueira da molecada.
Antonio Montes
AMOR DA LUA
É nessa calçada...
Que um dia tivemos o abraço da lua
olhares serenos das estrelas
... Te quero, você me dizia...
Imenso é meu querer,
e meu amor, por você,
amor meu... Se você me deixar,
de saudade eu vou morrer.
A noite com sua brisa
nos aconchegava em seu peito
e o seu cheiro inebriava a minha vontade,
enrolávamos, sobre o apetite do silencio
e só os suspiros dos nossos corações
apontava vida para o nosso amanhã.
O momento, pespontava o nosso amor medonho
nos trazia sonhos e trepidava nossos corpos,
com a felicidade dos nossos risos
e, dos nosso rostos risonhos.
Os segundos, minha querida...
Transformou-se em flechas cúpidas
Fixando a nossa união...
No eterno alvo da vida,
e no pulsar do nosso coração.
Antonio Montes
EM FRENTE
Em frente a gente...
Sonhos de uma vida
esperança de felicidade,
... O dia dá partida
horas dão despedida.
Em frente ao surreal...
As duvidas dos sonhos
o outono do viver
os insetos dos jardins
o acalanto do mal.
Em frente a gente...
Tumulto da aglomeração
planos, pautas e promessas
esperança fazendo festa
cântico e dança no salão.
A velhice com bengala
as filas nos sociais
frases curtas, dizendo não
a dor infligindo a cara
o desfeito no coração.
Em frente a gente...
A faixa, a placa... PARE
o semáforo, todo grená
a pulsação e exaustão
a duvida do viajar.
Em frente a gente...
admiração de flores e cachos
A vontade de ir para cima
o medo de ir para baixo.
Antonio Montes
ERRO DA LUA
A lua perdeu-se do céu
zanzou chorosa pela solidão
sem o sol, ficou pálida
não tinha mais a cor da prata
que pairava no seu coração.
A noite sem lua...
Só tinha escuros em suas sombras
o lobo, não urrava mais a sua dor
inebriado pela escuridão
sentia apenas o cheiro da sua flor
mas na visão...
Perdeu o tato, do seu grande amor.
Corujas sem rumo...
não via o trilho do seu revoar
em seus medos, ouvia apenas...
os batimentos dos seus corações
ficaram sem ventos, para planar
e perderam o timbre do cacarejar.
A noite com isso...
Ficou fria entristeceu, sem sua lua
chorou suas lagrimas de orvalhos
soprou ventos de medo nas ruas.
Que medo, que medo...
os silvos das serpentes
o choro na lata de lixo
os zumbidos das balas perdidas
que medo, que medo...
Que medo, dessa de gente.
Antonio Montes
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