Eu e Voce de Luiz Antonio Gasparetto

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*O LUGAR ONDE A POESIA NÃO SERVIA PARA NADA*

Eu era novo na cidade e ainda não tinha escolhido um lugar para beber. Toda cidade exige isso de você. Um lugar onde entrar sozinho não pareça uma declaração de fracasso. Um balcão onde ninguém pergunte seu nome. Uma mesa onde você possa ficar olhando para o copo como se houvesse alguma resposta lá dentro.

Encontrei o pub perto de um parque.

Era pequeno. Bucólico demais para o meu gosto, mas não o suficiente para me fazer ir embora. Havia árvores antigas do lado de fora, bancos de madeira e uma iluminação amarela que fazia tudo parecer mais importante do que realmente era.

Dentro, havia estantes cheias de livros, quadros de artistas locais e alguns instrumentos musicais pendurados nas paredes. Um pequeno tablado, quase no mesmo nível do chão, servia para música, debates literários e noites de poesia.

Pedi uma bebida e sentei no canto do balcão.

Era um bom lugar para observar.

E observar é uma das poucas coisas que ainda consigo fazer sem estragar tudo.

Uma mulher subiu ao pequeno tablado.

Trazia algumas folhas na mão.

Começou a declamar.

Não era uma poesia bonita.

Ainda bem.

Falava de solidão, de perdas, de um homem que foi embora, de uma mãe que nunca soube abraçar, de noites em que o telefone não toca e de manhãs em que ninguém tem coragem de admitir que gostaria de não ter acordado.

Falava de gente.

Isso já era uma coisa bastante desagradável para algumas pessoas.

No canto próximo ao balcão havia um grupo de homens e mulheres que parecia ter escolhido aquele lugar por engano. Tinham roupas boas, relógios caros e aquele tipo de conversa que costuma começar com dinheiro e terminar em dinheiro.

Um deles riu.

Outro disse que aquilo era deprimente.

Uma mulher comentou que poesia não servia para nada.

O homem do relógio concordou.

— Poesia não paga conta.

Era uma frase perfeita.

Curta.

Prática.

Estúpida.

Eles riram.

Eu bebi.

A mulher continuou.

E, enquanto ela falava, comecei a pensar que talvez aquela fosse a pergunta errada.

Para que serve a poesia?

A pergunta parecia razoável até você perceber que existe uma doença escondida nela.

A necessidade de que tudo tenha utilidade.

Se alguma coisa não produz dinheiro, produtividade ou resultado, passa a ser considerada inútil.

Uma árvore precisa dar fruto.

Um homem precisa produzir.

Uma mulher precisa vencer.

Um filho precisa ter futuro.

Uma casa precisa valorizar.

Um livro precisa ensinar.

Uma conversa precisa gerar alguma coisa.

Até o descanso precisa servir para recuperar alguém para o trabalho do dia seguinte.

Tudo precisa servir.

Talvez fosse por isso que aquela mulher incomodava tanto.

Ela estava ali fazendo uma coisa que não servia para nada.

Ou, pelo menos, não servia para aquilo que eles entendiam como vida.

Ela não estava vendendo nada.

Não estava aumentando patrimônio.

Não estava melhorando o currículo.

Não estava produzindo uma estatística.

Estava apenas dizendo alguma coisa que doía.

E talvez fosse justamente aí que estivesse a resistência.

A poesia não consertava o mundo.

Não pagava aluguel.

Não trocava o óleo do carro.

Não diminuía a fila do supermercado.

Não impedia que um idiota fosse eleito presidente de alguma coisa.

Mas resistia.

Resistia à ideia de que o ser humano pudesse ser reduzido ao que possui, ao que produz e ao que consegue provar.

Ela funcionava como metáfora daquilo que dá sentido à existência.

Não porque tivesse respostas.

Mas porque fazia perguntas que ninguém conseguia transformar em dinheiro.

Quem sou eu?

O que perdi?

Quem amei?

Quem ainda me ama?

Por que continuo aqui?

Perguntas inconvenientes.

Nenhuma delas cabe numa planilha.

O grupo continuava rindo.

O homem do relógio começou a falar do carro novo.

A mulher ao lado dele mostrou fotografias de uma viagem.

Outro falou sobre investimentos.

Tinham muito.

Era evidente.

Talvez tivessem tudo.

E foi justamente isso que me incomodou.

Pareciam ter passado tanto tempo acumulando coisas que esqueceram de acumular alguma experiência que não pudesse ser fotografada.

Talvez confundissem ter com ser.

Eu não podia julgá-los.

Também tinha passado boa parte da vida fazendo coisas que não sabia se queria fazer.

Trabalhando.

Pagando.

Cumprindo.

Esperando.

Adiando.

A diferença talvez fosse apenas o tipo de mentira que cada um contava para continuar funcionando.

A mulher terminou o poema.

Algumas pessoas aplaudiram.

Poucas.

Ela agradeceu e desceu.

Passou perto de mim.

Por um instante, olhou para o meu copo.

Depois para mim.

Não disse nada.

Talvez não precisasse.

Pedi outra bebida.

Depois outra.

A noite avançou.

O grupo foi embora.

Um deles saiu falando ao telefone sobre uma reunião às oito da manhã.

A poesia havia terminado.

O dinheiro continuava funcionando.

O mundo tinha sobrevivido a mais uma noite.

Paguei a conta e saí.

O parque estava quase vazio.

Comecei a caminhar para casa.

A cidade parecia diferente sem as pessoas falando.

Os prédios eram apenas prédios.

As lojas estavam fechadas.

As vitrines continuavam iluminadas para ninguém.

Passei por um carro importado estacionado na rua.

Pensei no homem do relógio.

Ele provavelmente chegaria em casa, colocaria as chaves sobre uma mesa cara e dormiria numa cama confortável.

Talvez fosse feliz.

Eu não sabia.

E esse era o problema.

Ninguém sabe.

Passamos a vida tentando construir uma resposta com coisas que podem ser medidas.

Salário.

Cargo.

Casa.

Carro.

Viagens.

Seguidores.

Objetos.

Conquistas.

E, no fim, quando tudo isso fica em silêncio, sobra uma pergunta que não pode ser respondida por extrato bancário.

Você viveu?

Ou apenas funcionou?

Continuei andando.

Pensei novamente na mulher do pub.

Talvez poesia fosse isso.

Não um luxo.

Não uma distração para quem não tem problemas.

Mas uma espécie de resistência contra a vida automática.

Um pequeno defeito na máquina.

A recusa em aceitar que nascer, trabalhar, pagar contas, envelhecer e morrer seja uma biografia suficiente.

Talvez um poema seja apenas alguém dizendo: eu estive aqui.

Eu senti isso.

Eu perdi aquilo.

Eu amei alguém.

Eu tive medo.

Eu não entendi.

Mas estive aqui.

E talvez fosse isso que aquelas pessoas não compreendessem.

A poesia não precisava salvar ninguém.

Bastava impedir que alguém se transformasse completamente naquilo que o mundo queria que ele fosse.

Cheguei em casa.

Abri a porta.

Acendi a luz.

Meu gato apareceu no corredor.

Olhou para mim com aquela expressão de quem estava profundamente decepcionado com a minha pontualidade e com a espécie humana em geral.

Tinha fome.

Claro que tinha.

Coloquei comida no prato.

Ele comeu.

Depois passou pela minha perna e desapareceu.

Fiquei alguns segundos parado no meio da sala.

A casa estava silenciosa.

Não havia aplausos.

Não havia relógios caros.

Não havia gente discutindo patrimônio.

Não havia ninguém perguntando quanto eu ganhava ou o que eu possuía.

Havia apenas um gato, uma garrafa pela metade e eu.

E foi ali que entendi uma coisa bastante simples.

Talvez a poesia não sirva para nada.

Talvez nunca tenha servido.

Talvez esse seja justamente o seu valor.

Porque algumas coisas precisam existir sem prestar contas.

Uma música.

Um beijo.

Uma conversa inútil às três da manhã.

Um homem bebendo sozinho.

Uma mulher lendo seus versos para meia dúzia de desconhecidos.

Um gato esperando alguém voltar para casa.

Nada disso aumenta o patrimônio.

Nada disso melhora a produtividade.

Nada disso aparece no currículo.

Mas, quando tudo o que pode ser comprado, medido e contabilizado finalmente perde importância, são essas coisas que permanecem.

Fiquei olhando para o gato.

Ele me olhou de volta.

Nenhum dos dois tinha uma resposta.

Pela primeira vez naquela noite, isso não pareceu um problema.

Talvez viver seja justamente continuar fazendo coisas que não servem para nada e que, por alguma razão, fazem a existência valer alguma coisa.

Talvez seja por isso que ainda escrevemos.

Por isso que ainda ouvimos música.

Por isso que ainda amamos mesmo depois de descobrir que amar não oferece nenhuma garantia.

A poesia não existe para tornar a vida mais útil.

Existe para impedir que a vida se torne apenas útil.

E naquela noite, sozinho em casa, com um gato faminto andando pela sala e a cidade inteira funcionando do lado de fora, percebi que talvez essa fosse a única forma de resistência que ainda me interessava.

Continuar vivo.

Mas não apenas funcionando.

*O QUE A RAIZ SABE*

Às duas da madrugada eu acordei com aquela sensação desagradável de quem não tinha dormido direito, apenas tinha perdido algumas horas. Fiquei olhando para o teto. O quarto estava escuro. O silêncio não era exatamente silêncio. Havia um carro passando longe, um motor qualquer insistindo em existir, e os grilos fazendo seu trabalho de sempre, como se a madrugada ainda tivesse alguma importância.

O gato estava ao lado da minha cabeça. Ficou me olhando por alguns segundos. Depois levantou uma das patas e colocou-a sobre a minha testa. Talvez fosse carinho. Talvez fosse um aviso. Talvez estivesse apenas tentando me mandar de volta para onde eu deveria estar.

Não funcionou.

Levantei.

Fui até a varanda e acendi um charuto. Eu já sabia que o sono não voltaria. Quando a cabeça decide andar pela casa às duas da manhã, não existe travesseiro capaz de fazê-la parar.

O gato veio atrás.

Parou na porta da varanda e ficou me olhando. Parecia querer dizer: volte para a cama, homem. Você já tem idade suficiente para saber que pensar depois da meia-noite nunca termina bem.

Ignorei.

Fiquei ali, fumando, ouvindo os grilos cantarem na boêmia da madrugada e alguns veículos atravessarem a distância. A cidade dormia. Ou fingia.

Comecei a pensar nas imagens que a gente carrega.

Não nas fotografias.

Nas outras.

Aquelas que ficam dentro da cabeça.

A imagem de quem fomos. A imagem de quem deveríamos ter sido. A imagem que alguém criou de nós e que, por alguma razão estúpida, decidimos acreditar.

Talvez uma parte da nossa desgraça venha daí.

Passamos anos tentando caber numa fotografia que já não existe.

Olhei para a fumaça do charuto.

A fumaça desaparecia.

Pensei que nós também fazemos isso.

Só que demoramos mais.

A gente passa a vida tentando ser reconhecido. Quer aplauso. Quer aprovação. Quer que alguém diga que valeu a pena. E quando isso não acontece, começamos a acreditar que fomos derrotados.

Mas talvez não exista derrota.

Talvez exista apenas a necessidade de encontrar um lugar onde ninguém esteja distribuindo medalhas.

Um pedaço de chão.

Qualquer um.

Mesmo escondido.

Porque às vezes tudo o que você precisa é parar de disputar o lugar onde os outros foram coroados.

Fincar os pés em outro lugar.

E ficar.

Pensei também naquilo que nos alimenta quando tudo dá errado.

Não estou falando de grandes discursos.

Às vezes é uma lembrança da mãe.

Um café.

Um abraço que aconteceu há vinte anos.

Uma conversa idiota que, por algum motivo, ainda mora na memória.

É estranho como a vida consegue nos manter vivos com coisas pequenas enquanto o mundo inteiro insiste em vender soluções enormes.

Talvez sobreviver seja isso.

Aprender novamente o tamanho das coisas.

Uma respiração.

Um copo d’água.

Um cigarro.

Um gato colocando a pata na sua testa às duas da manhã.

Não parece muito.

Mas, quando tudo desaba, quase nada parece muito.

E ainda assim é o suficiente para atravessar mais uma noite.

A graça também não é gentil o tempo inteiro.

Essa é outra mentira que contamos para nós mesmos.

Às vezes a vida acolhe.

Às vezes ela bate.

Às vezes ela simplesmente passa por cima.

Há coisas que não se resolvem com frases bonitas. Há perdas que não ensinam nada. Há abandonos que não escondem nenhuma lição. Há pessoas que vão embora e deixam apenas um espaço vazio onde antes havia rotina.

E você fica olhando para aquilo.

Esperando alguma explicação.

Ela não vem.

Então você aprende a respirar sem ela.

Foi aí que pensei nas chances.

Elas raramente chegam em horário conveniente.

Quase nunca batem na porta.

Algumas aparecem quando você está cansado, quebrado, desconfiado, com o coração fechado e uma lista enorme de motivos para dizer não.

E talvez esse seja o problema.

A gente espera estar inteiro para começar de novo.

Só que ninguém está inteiro.

Não depois de certa idade.

Depois de algumas perdas, algumas traições, alguns funerais e algumas noites mal dormidas, você descobre que inteiro é uma palavra para quem ainda não prestou atenção.

O que resta é o que interessa.

Aquela parte que sobreviveu.

É dali que você tira alguma coisa.

Não porque a dor seja bonita.

Dor não é bonita.

Dor é dor.

Mas às vezes ela deixa alguma coisa escondida.

Uma habilidade.

Uma lucidez.

Uma coragem que você não sabia que tinha.

Um tipo de ouro ordinário, desses que não servem para comprar nada, mas servem para lembrar que você ainda está aqui.

O problema é que também carregamos nossas próprias imagens como condenados.

Repetimos insultos antigos.

Vozes de pessoas que já foram embora.

Frases ditas por quem nunca nos conheceu de verdade.

Você é isso.

Você não consegue.

Você nunca vai mudar.

Você não é suficiente.

E, depois de algum tempo, nem sabemos mais quem disse.

Somos nós.

A voz foi incorporada.

Virou morador.

E continuamos pagando aluguel para ela.

Talvez seja preciso expulsar algumas imagens.

Não esquecer.

Expulsar.

Porque aquilo que você repete todos os dias acaba parecendo verdade.

E algumas verdades são apenas feridas com boa memória.

O charuto estava quase no fim.

O gato continuava na porta.

Agora parecia menos paciente.

Olhei para ele e pensei que os animais talvez tenham entendido alguma coisa que nós complicamos demais.

Eles não ficam tentando justificar a existência.

Eles dormem quando têm sono.

Comem quando têm fome.

Vão embora quando querem.

E, quando gostam de você, simplesmente ficam.

Nós transformamos tudo em contrato.

Até o afeto.

Até a saudade.

Até o abandono.

Quando alguém parte, queremos explicações.

Quando alguém fica, queremos garantias.

Quando tudo termina, queremos saber por quê.

Mas o rio não explica por que seca.

Ele apenas seca.

E talvez algumas pessoas sejam assim.

Elas atravessam a nossa vida, deixam alguma coisa, levam outra e desaparecem.

Não é justo.

Nunca foi.

Então chega a hora de quebrar.

Não necessariamente por fraqueza.

Às vezes quebrar é a única maneira de deixar alguma coisa ir embora.

A gente segura tanto que começa a confundir apego com amor.

Não é a mesma coisa.

Amor sabe partir.

Apego exige cadáveres.

Fiquei olhando para a rua vazia.

Pensei no medo de esperar.

A espera é cruel.

Ela coloca você diante de si mesmo sem distração.

Sem barulho.

Sem pessoas.

Sem a próxima novidade.

E talvez seja justamente ali que estejam os tesouros que ninguém encontra porque ninguém suporta ficar tempo suficiente no escuro.

A gente foge.

Liga a televisão.

Abre o celular.

Procura alguém.

Procura qualquer coisa.

Tudo para não ficar sozinho com a própria cabeça.

Eu também fiz isso.

Muitas vezes.

Talvez ainda faça.

Mas naquela madrugada eu estava ali.

Sem fugir.

E percebi uma coisa desagradável.

A vida não estava me devendo nada.

Nem explicações.

Nem reparações.

Nem um final bonito.

Ela simplesmente continuava.

O mundo continuaria girando depois de mim.

Os grilos continuariam cantando.

Os carros continuariam passando.

Alguém estaria beijando alguém.

Alguém estaria chorando.

Alguém estaria nascendo.

Alguém estaria morrendo.

E nada disso pediria minha autorização.

Talvez maturidade seja aceitar essa humilhação.

Você não é o centro.

Nunca foi.

Mas isso não significa que sua vida não tenha valor.

Significa apenas que você precisa parar de esperar que o mundo confirme isso.

A Terra continua.

Ela parece cansada.

Mas continua.

E talvez ainda queira ser tocada.

Não com discursos.

Com presença.

Com verdade.

Com coragem para sentir novamente aquilo que você passou anos tentando anestesiar.

Inclusive a partida.

Porque todo recomeço cobra alguma coisa.

Às vezes cobra uma pessoa.

Às vezes uma versão antiga de você.

Às vezes uma esperança que já estava morta e você ainda carregava como se fosse viva.

Eu terminei o charuto.

O gato continuava olhando.

Talvez fosse hora de voltar.

Talvez não.

Fiquei mais alguns minutos.

Pensei nas raízes.

Elas não são bonitas.

Ficam enterradas.

Ninguém fotografa uma raiz.

Ninguém elogia uma raiz.

Ela trabalha no escuro.

Aguenta a terra.

Encontra água onde parece não existir nada.

E, se tiver sorte, algum dia aparece uma flor.

Talvez seja isso que nos resta.

Não tentar parecer flor o tempo inteiro.

Aceitar a raiz.

Aceitar o escuro.

Aceitar a parte de nós que ninguém vê e que talvez nem nós mesmos gostemos muito.

Porque pode ser justamente ali que alguma coisa esteja começando.

Não uma versão melhor.

Não uma versão perfeita.

Apenas uma versão verdadeira.

Olhei novamente para o gato.

Ele virou e voltou para a cama.

Sem discurso.

Sem terapia.

Sem conclusão.

Fui atrás.

A madrugada continuava lá fora.

E, pela primeira vez naquela noite, não precisei que ela me dissesse nada.

Eu já tinha entendido.

Algumas coisas precisam morrer.

Algumas precisam ser deixadas.

Algumas precisam ser perdoadas.

E algumas precisam permanecer enterradas.

Não para desaparecer.

Mas para criar raiz.

Porque, no fim, talvez reescrever a própria vida não seja começar do zero.

É olhar para o que sobrou.

Parar de mentir sobre isso.

E decidir, mesmo com medo, que ainda dá para plantar alguma coisa.

*Era outra noite no pub*

Eu ainda estava procurando um lugar que parecesse menos falso que os outros. Não necessariamente um lugar bonito. Beleza demais sempre me deixou desconfiado. Eu queria apenas um lugar onde ninguém precisasse fingir tanto.

Ela era uma das inúmeras profissionais que frequentavam o escritório. Já havíamos conversado algumas vezes. Coisas de trabalho. Horários. Processos. Café ruim. Aquele tipo de conversa que mantém duas pessoas civilizadas e completamente desconhecidas.

Naquela noite resolvemos sair.

Conhecer um pub.

Talvez conhecer um ao outro.

O segundo sempre dá mais trabalho.

Sentamos, pedimos alguma coisa e começamos pelo roteiro habitual dos primeiros encontros. Trabalho. Filmes. Música. Viagens. Relacionamentos. Pequenas biografias cuidadosamente editadas para não assustar ninguém.

As pessoas fazem isso.

Entregam uma versão resumida de si mesmas.

Como se fossem currículos emocionais.

Depois de algum tempo, a conversa cansou de ser educada.

Foi quando ela começou a falar de coisas que não cabiam no escritório.

Disse que crescera sentindo a falta de amor do pai. Não a falta física. A outra. A pior. Aquela em que o sujeito está presente, respira na mesma casa, ocupa a mesma cadeira e ainda assim parece ter feito um acordo com a própria ausência.

Depois veio o casamento.

Falido desde o começo.

Algumas relações não terminam. Apenas continuam mortas por falta de coragem dos vivos.

E havia o relacionamento mais recente.

Abuso emocional.

Ela não precisou usar muitas palavras.

Certas coisas aparecem no jeito como alguém segura o copo.

No intervalo antes de responder.

Na maneira de rir quando conta alguma coisa que ainda dói.

Eu ouvi.

Não porque soubesse o que dizer.

Eu quase nunca sei.

Também não acredito nessa obrigação moderna de oferecer uma frase bonita para cada ferida. Às vezes a melhor coisa que alguém pode fazer é não transformar a dor do outro em palestra.

Então fiquei ali.

Ouvindo.

Ao redor, o pub fazia seu trabalho habitual.

Gente bebendo para esquecer que precisava voltar para casa.

Casais se olhando como quem verifica se ainda existe alguma coisa ali.

Homens falando alto para parecerem importantes.

Mulheres rindo de coisas que provavelmente não tinham graça.

Garçons carregando copos.

Garrafas alinhadas.

Luzes baixas.

Música suficiente para impedir que o silêncio dissesse alguma coisa.

Era um lugar razoavelmente decadente.

Gostei.

A decadência, pelo menos, não costuma mentir.

Observei os rostos.

Todo mundo parecia estar tentando parecer alguma coisa.

Feliz.

Interessante.

Desejável.

Bem resolvido.

As imagens estavam por toda parte.

Nas paredes.

Nos copos.

Nas roupas.

Nas fotografias.

Nos telefones sobre as mesas.

Cada um carregava uma pequena propaganda de si mesmo.

Era curioso.

A espécie humana inventou espelhos e depois passou a acreditar neles.

Talvez seja por isso que eu goste tanto de observar pessoas quando elas não sabem que estão sendo observadas.

É quando a propaganda falha.

É quando aparece o sujeito.

Ou o que restou dele.

Ela continuou falando.

Eu continuei ouvindo.

Em algum momento percebi que aquela noite já não era sobre conhecer um pub.

Era sobre conhecer alguém além da pele.

E isso é perigoso.

A pele é uma excelente embalagem.

Esconde defeitos.

Esconde medos.

Esconde abandono.

Esconde pais ausentes.

Casamentos mortos.

Relacionamentos que transformaram carinho em controle.

Esconde quase tudo.

Até que alguém decide falar.

Então a embalagem começa a rasgar.

E você descobre que ninguém é exatamente aquilo que parece.

Nem eu.

Posso parecer um humano,
mas no fundo sou apenas notas inexoráveis,
hinos desconcertantes ao nascer do sol e muito silêncio
uma noção boba
um suspiro
uma emoção arrogante
eternidade em cativeiro, perpetuação irrepreensível
curvas, não uma única linha reta
uma contradição
uma contração tola, mas necessária
uma abstração
uma piada interna
uma risadinha sóbria
um enigma.

Talvez todos sejamos.

A diferença é que alguns aprenderam a esconder melhor.

Eu não tenho muita paciência para isso.

Nunca tive.

Talvez porque, depois de certa idade, você perceba que passar a vida inteira construindo uma imagem de si mesmo é uma maneira bastante sofisticada de morrer antes da hora.

Você começa tentando ser alguém.

Depois tenta parecer alguém.

Depois passa a defender essa aparência.

E, quando percebe, já não sabe mais onde termina o personagem e começa o sujeito.

Ela falava sobre o passado.

Eu pensava no meu.

Não havia muita diferença entre nós nesse ponto.

As histórias mudam.

A falta permanece.

Cada pessoa encontra uma maneira diferente de carregar aquilo que não recebeu.

Alguns bebem.

Alguns trabalham demais.

Alguns colecionam amantes.

Alguns colecionam dinheiro.

Alguns colecionam diplomas.

Alguns fazem discursos sobre felicidade.

Outros simplesmente ficam quietos.

Eu prefiro o silêncio.

Ele pelo menos não exige explicação.

Ficamos ali por algumas horas.

Duas pessoas tentando descobrir se havia alguma coisa além das apresentações.

Talvez houvesse.

Talvez não.

Não importa tanto.

Há encontros que não precisam terminar em romance para terem alguma importância.

Às vezes basta alguém enxergar você por alguns minutos sem pedir que você seja diferente.

Isso já é quase uma espécie de milagre.

Mas eu desconfio de milagres.

Eles costumam cobrar juros.

Quando saímos do pub, a noite continuava exatamente como antes.

A cidade não tinha aprendido nada.

As pessoas também não.

Os carros passavam.

As luzes continuavam acesas.

Alguém ria do outro lado da rua.

Alguém provavelmente chorava em algum apartamento.

Alguém estava começando um casamento.

Outro estava terminando.

Alguém dizia “eu te amo” sem saber o que aquilo significava.

Outro dizia “vai ficar tudo bem” sabendo perfeitamente que não ficaria.

E eu pensei que talvez essa fosse a grande piada.

A gente passa a vida procurando uma linha reta.

Não existe.

Existem curvas.

Desvios.

Contrações.

Recaídas.

Pequenos momentos de lucidez entre longos períodos de estupidez.

E, no meio disso tudo, chamamos a coisa de vida.

Talvez seja isso.

Uma contradição tentando respirar.

Uma emoção arrogante fingindo ter respostas.

Uma abstração andando por aí com documentos, contas, lembranças e alguma esperança mal escondida no bolso.

Uma piada interna que ninguém explicou.

Uma risadinha sóbria diante do absurdo.

Um enigma.

E talvez a parte mais amarga seja descobrir que não existe solução.

Só continuação.

A eternidade em cativeiro.

A perpetuação irrepreensível.

Você acorda.

Trabalha.

Ama mal.

É amado mal.

Perdoa quando consegue.

Machuca quando não consegue.

Bebe alguma coisa.

Escuta alguém contar uma história.

Conta a sua.

E segue.

Não porque encontrou sentido.

Mas porque, por alguma razão estúpida, ainda não acabou.

Talvez sejamos apenas isso.

Notas inexoráveis.

Alguns acordes desconcertantes ao nascer do sol.

Muito silêncio.

E uma vontade quase ridícula de continuar, mesmo sabendo que, no fim, ninguém saberá exatamente o que fomos.

Talvez nem nós.

E é aí que começa o verdadeiro problema.

Quando você finalmente fica sozinho, sem o pub, sem as imagens, sem os outros, sem a roupa social, sem a profissão, sem a história que conta sobre si mesmo, sem ninguém para confirmar que você existe...

quem sobra?

Talvez aquele seja o único encontro que realmente importa.

O resto é apenas barulho.

E talvez eu ainda esteja procurando um pub onde possa me encontrar.

“Eu desconfio das almas que nunca conheceram a própria escuridão; talvez elas ainda não tenham descoberto a profundidade da própria luz.”

— Juliana Hoffmann Liska

Os erros do passado
não definem quem eu sou.
Muito melhor do que ontem, com certeza, hoje sou.

Eu queria tanto ser teu, mas tu nunca me pertenceu.

Parabéns ao novo conceito de liderança:
'Faça a América Grande... desde que eu me salve primeiro'. O sujeito foge escondido no buffet de serviço, deixa trabalhadores voando como alvo móvel para mísseis e depois ainda debocha mandando os repórteres mudarem de profissão. Isso que é amor à pátria! Usar o próprio povo como distração militar é uma estratégia genial de quem confunde heroísmo com puro instinto de sobrevivência egoísta. Mas o slogan no boné continua bonito, né? É o legítimo patriotismo de fachada.
Melhorem os seus ídolos!⁠

"Eu fico chocado com o 'povo da pseudo-superioridade'.
O querido se acha o colonizador, mas o máximo de Europa que ele tem é o nome do condomínio. Alguém avisa que se tirar a herança negra, a indígena e a portuguesa, o Brasil vira o quê? Um deserto sem tempero! O preconceito além de criminoso é burro, porque tenta apagar logo a mistura que faz a gente ser o país mais foda do mundo.
Melhorem!"⁠

*Calma que Queima*

Eu vi.
Vi o sorriso torto que chama de apoio.
Vi a mão que aplaude na frente
e aponta por trás do espelho.

E sabe? Não vou gritar.
Gritar dá palco pra quem vive de mentira.
Minha revolta é silenciosa.
É tirar você da minha mesa sem fazer alarde.

Falsidade cansa.
Cansa porque gasta nossa fé à toa.
Cansa porque obriga a gente a duvidar
até de quem é verdade.

Então eu escolho a calma.
A calma de quem não deve explicação.
A calma de quem vira as costas
e segue com a consciência limpa.

Você pode até ganhar aplauso,
mas nunca vai ter paz.
E eu... eu durmo em paz.
Sem máscara. Sem teatro. Sem você.

O meu auge não é um lugar onde eu chego. É o fogo que me consome e me reconstrói todos os dias. Eu não busco a perfeição do agora; eu sou a fúria constante de quem se recusa a caber no próprio passado.

Respirem cinzas.
Eu assofro pra limpar o cinzeiro — gesto pequeno, gesto de sobrevivência.
Há uma fuligem que insiste em falar meu nome, mas eu já não tenho paciência pra suas sílabas.


Cinco meses foram um mapa de mil estradas que ela percorreu na minha cabeça.
Quilômetros interiores, passaportes carimbados na memória.
Porém — nunca travei. Nunca parei. Nunca me neguei ao beijo que vinha entre uma lembrança e outra.


A insuportável mulher do olhar torto ocupou janelas inteiras, fez morada em gavetas.
Quando o olhar saiu de mim, a sala clareou como se alguém tivesse aberto a cortina de dentro.
Não foi vingança, não foi perdão; foi uma pequena aliança entre ar e verdade: eu respirei outro ar.


Já não estou mais aqui de tanto querer estar.
Essa vontade me evaporou de dentro — deixou o corpo e levou a fumaça;
ficou um corpo que aprende a olhar o mundo sem pedir licença.


Gritei. Clamei. Ninguém respondeu — talvez porque ninguém estivesse mais lá.
Talvez porque eu também não estivesse mais, e isso foi preciso: abandonar-se para reaparecer.
Eu fui para o abandono e voltei com as mãos sujas de cinza e o peito limpo de delírio.


Chamuscado e floresci. Memória como tatuagem que não dói mais, só lembra —
lembrar é menos que sofrer, é estudar a própria paisagem.
Sou ferida que virou mapa, cicatriz que sabe dizer caminho.


FIM DE TEMPORADA:
não é morte, é o abaixar da cortina com reverência e sem aplauso.
Como se os heróis tivessem perdido o brilho falso e ganhado o peso do que realmente importa: permanecer.


Obrigado por assistir.
(é um riso que sobra no fim do filme — seco, com fumaça na garganta.)


Eu sou o que vai e o que fica.
Eu sou o que permanece e prevalece.

“Pode parecer uma miragem no deserto, mas eu consigo enxergar a vitória no horizonte.”
Léo Pedacci ✍️

Eu paro, admiro, rezo, fotográfo e sigo viagem.

"Eu odeio a minha escola. Eu odeio todo mundo. Eu odeio minha vida."

Family Guy

Nota: Fala da personagem Meg Griffin.

seus olhos.


Antes mesmo de entender o que estava acontecendo, eu já tinha encontrado alguma coisa nos olhos dela que não sabia explicar. Eu falava dos olhos porque era a maneira mais fácil de falar do que acontecia comigo quando olhava para ela. Pareciam ter profundidade suficiente para esconder tudo aquilo que eu não conseguia dizer. E talvez fosse exatamente por isso que eu gostasse tanto de mergulhar neles.


Porque havia dias em que o mundo parecia fundo demais.


As coisas lá fora tinham aquele peso que a gente tenta fingir que não sente. A vida seguia, as pessoas continuavam falando, os dias continuavam passando, mas existiam momentos em que tudo parecia difícil de levar. E então eu encontrava aqueles olhos.


Era como cair no mar sem ter medo de afundar.


Eu não precisava saber nadar. Não precisava saber para onde estava indo. Bastava entrar.


Talvez seja isso que algumas pessoas fazem com a gente. Elas não resolvem necessariamente aquilo que está quebrado, não apagam os problemas, não tornam o mundo mais fácil. Elas apenas conseguem fazer com que, por alguns instantes, a gente não precise lutar contra ele.


Ela era esse intervalo.


Eu podia passar horas tentando organizar dentro de mim aquilo que não tinha nome e, ainda assim, bastava olhar para ela para alguma coisa se aquietar. Havia um tipo de silêncio naqueles olhos que não era vazio. Era abrigo. Um lugar onde eu podia deixar todas as coisas que carregava sem precisar explicar por que elas pesavam tanto.


E talvez eu tenha amado também essa sensação.


A de ser recebido por alguém sem precisar chegar inteiro.


Eu acreditava que amar era isso: oferecer alguma coisa de si e perceber que, de alguma forma, aquilo também fazia o outro respirar melhor. Cada gesto pequeno parecia carregar uma energia que não precisava ser anunciada. Um cuidado aqui, uma presença ali, uma tentativa de estar perto quando o mundo ficava difícil. Como se amar fosse construir, aos poucos, um lugar onde dois poderiam descansar.


E eu queria ser esse lugar para ela também.


Talvez por isso a distância sempre tenha parecido tão cruel. Porque quando alguém se transforma em refúgio, a ausência deixa de ser simplesmente ausência. Ela começa a parecer uma porta fechada para um lugar onde você costumava conseguir respirar.


E ainda havia a saudade.


Aquela espécie de presença que continua existindo mesmo quando a pessoa não está. As lembranças permanecem vibrantes, ocupando espaços inesperados, aparecendo no meio de uma música, de uma noite, de um pensamento qualquer. Você percebe que algumas pessoas conseguem permanecer dentro da gente mesmo quando já não estão ao nosso lado.


Foi assim que ela ficou em mim.


Não como uma foto parada no passado, mas como uma paisagem que ainda aparece quando fecho os olhos.


E talvez seja por isso que aquela imagem do mar sempre tenha feito tanto sentido.


Porque eu não mergulhava apenas nos olhos dela.


Eu mergulhava naquilo que sentia quando estava ali.


Na tranquilidade que encontrava. Na versão de mim que aparecia quando não precisava me defender de nada. Na sensação de que, por alguns minutos, eu estava exatamente onde deveria estar.


Ao lado dela.


E talvez algumas pessoas sejam mesmo obra de alguma força que a gente não entende. Não necessariamente porque foram feitas para ficar para sempre, mas porque, em algum momento da nossa história, precisavam existir.


Ela existiu.


E me ensinou que existem olhos capazes de ser oceano.


Que existem abraços que parecem margem depois de muito tempo à deriva.


Que existe amor que não chega fazendo barulho, mas vai preenchendo os espaços vazios até a gente perceber que já não sabe exatamente onde termina a nossa solidão e começa a presença do outro.


Hoje, talvez eu entenda que mergulhar nos olhos dela nunca foi apenas sobre olhar.


Era sobre confiar.


Sobre fechar os olhos para o mundo por alguns segundos e acreditar que, se eu afundasse, alguém me encontraria.


E talvez seja essa a coisa mais bonita e mais dolorosa sobre amar alguém profundamente: às vezes, a pessoa se torna o mar onde você aprendeu a respirar.


E quando ela vai embora, você passa um tempo tentando descobrir como voltar a superfície.


Mas algumas profundidades não desaparecem.


A gente apenas aprende a carregá-las.


E eu ainda carrego aqueles olhos comigo.


Como quem um dia caiu no mar e, em vez de ter medo da profundidade, descobriu nela um lar.

⁠"A paz que ofereço diz quem eu sou. A paz que o outro rejeita diz onde ele está." — ChatGPT (Siger), em conversa com Régis.

Eu só tenho uma coisa para dizer o aço da minha pistola é Gerdau ou seja ou foi feito por mim ou pelo meus irmãos.

⁠É amor que eu estou buscando, Mas de um tipo belo e inaudito que não está no mundo.

⁠Ontem eu era criança, e hoje já tenho contas para pagar, mano o tempo não para.

“Crônica do Inferninho”

Eu estava prestes a sair do trabalho quando decidi chamar um Uber para me levar para casa. Assim, poderia relaxar um pouco no caminho de volta, depois de um dia bastante cansativo.

Quando o Uber chegou, entrei no carro e disse:
Boa noite!
O motorista respondeu educadamente:
Boa noite, senhor!

Seguimos em direção à minha casa.

De repente, o motorista me fez uma pergunta:
O senhor não gostaria de passar pelo inferninho antes de chegar em casa?

Respondi imediatamente:
Não, obrigado!

Pouco depois, ele perguntou novamente:
Tem certeza de que não quer passar pelo inferninho antes de ir para casa, senhor?

Tenho! Quero chegar em casa o mais rápido possível!

Mais uma vez, o motorista insistiu:
Tem certeza mesmo de que não quer conhecer o inferninho, senhor?

Já com certa irritação, respondi:
Não! Quero ir para casa. Estou muito cansado e quero descansar.

Mas, novamente, o motorista tocou no assunto:
Tenho certeza de que o senhor vai gostar do inferninho.

Dessa vez, alguma coisa despertou minha curiosidade.
Afinal, o que é esse tal de inferninho?

O motorista respondeu com um sorriso nos lábios:
O senhor precisa ir até lá para conhecer.

E completou:
Quem vai ao inferninho gosta muito.

O senhor não quer ir lá conhecer?

Não! Quero ir para casa, por favor!
respondi, já bastante irritado.

Claro, senhor. Não vou mais falar do inferninho.

Fez-se um silêncio total dentro do carro…

Mas, de repente, fui eu quem ficou com vontade de perguntar:
Onde fica esse inferninho?

O motorista respondeu:
O senhor gostaria de ir até lá?

Mas me diga primeiro: que diabos é esse inferninho?

Ele respondeu:
O senhor precisa ir lá para descobrir.

Você não pode simplesmente me dizer o que é esse inferninho?!

Não. O senhor tem que ir até lá!
exclamou o motorista.

Sério?! Eu tenho mesmo que ir para descobrir o que é?

Com uma voz muito convincente, ele respondeu:
Tenho certeza de que o senhor nunca viu um lugar como o inferninho.

Aquilo aumentou ainda mais a minha curiosidade.

E o motorista completou:
Tenho certeza de que o senhor vai gostar!

Pronto. Minha curiosidade foi parar nas alturas.

Comecei a imaginar que devia ser um lugar cheio de mulheres, muita bebida, música alta… uma verdadeira zona!

Fiquei pensando naquele inferninho durante alguns minutos e, finalmente, perguntei:
Você pode pelo menos me dizer o que tem lá?

O motorista respondeu:
O senhor precisa ver com os próprios olhos. Não posso dizer nada.

Aquilo me deixou com a pulga atrás da orelha.

Que lugar seria aquele? Até o nome era uma tentação! Devia ser bom demais. De repente, até o meu cansaço havia desaparecido.

E agora? O que eu faço???

Minha mulher pensa que estou trabalhando…

Hum…

O que eu faço???

Uma coisa era certa: se eu não fosse conhecer aquele inferninho, aquilo ficaria martelando na minha cabeça pelo resto da vida. Afinal, a curiosidade de um homem que se preze pode ser maior do que qualquer outra coisa!

Mas não.

Não cometi esse erro.

E ponto final!

Está bem falei para o motorista.
Pode me deixar em casa.

E ele me levou.

Mas aquele inferninho ficou na minha cabeça, me perturbando…

E tenho certeza de que ainda vai me perturbar por muito tempo.

Afinal…

Que diabos é esse inferninho???

E você?

Teria ido para casa… ou teria pedido ao motorista para levá-lo ao inferninho?