Espelho
Se espelhar nos outros é humildade e gratidão; querer viver a vida dos outros é egoísmo e inaptidão; plagiar a vida dos outros é inveja e escrotidão!
O Chamado Silencioso do Teu Deserto Interior.
— Um Diálogo que Te Desvela.
Apenas acende tochas no escuro das tuas próprias cavernas interiores.
Há um lugar dentro de ti que te parece profundamente secreto, quase interditado. Não porque seja sombrio, mas porque é verdadeiro demais. E a verdade tem o hábito de nos encarar de frente, sem ornamentos face to face, como dizem em inglês (frente a frente). É justamente por isso que tu o evitas: temes que ali se revele a tua audácia legítima, aquilo que há muito deixaste dormir sob o peso das expectativas, das reações alheias, das justificativas tão delicadamente construídas para te manter longe de ti mesmo.
Esse espaço é teu deserto interior não um vazio, mas um lugar onde nada distrai. Onde tudo o que existe és tu, sozinho com tuas inquietações, tuas contradições, teus desejos ainda sem nome. Por isso ele te abala. Porque aquilo que tentas sustentar externamente não resiste ao espelho desse silêncio.
Ha uma pergunta que não responde nada por ti:
Por que relutas tanto em entrar nesse deserto, se é justamente ali que guardaste o que te falta?
Não corro para te oferecer solução. Apenas deixo que a pergunta te toque como água na pedra suave, mas contínua.
Quando te aproximas desse território íntimo, começas a perceber que o temor que sentes não é pelo desconhecido…
é pelo que já sabes e finges não saber.
Então te pergunto:
O que exatamente temes encontrar ali que não toleras dizer em voz alta?
Talvez uma verdade antiga esperando pela tua coragem renovada.
Talvez uma dor que só precisa ser escutada, não temida.
Talvez um talento, um impulso criativo, uma força que te intimida porque te convoca a viver com mais autenticidade.
Se esse deserto fosse, na verdade, o lugar onde começa o teu caminho e não onde termina o teu fôlego como mudaria o que chamas hoje de dificuldade?
Percebes?
Não há imposição.
Só perguntas… aquelas que te devolvem a ti mesmo.
A jornada interior não é um chamado para fugir do mundo, mas para deixar de fugir de ti.
Quando te aproximas desse núcleo secreto, algo se realinha silenciosamente: o que te abala por dentro deixa de comandar o que mostras por fora.
E assim, pouco a pouco, vais descobrindo que a porta do deserto nunca esteve trancada.
Tu é que aprendeste a desviar o olhar.
Então te deixo com a última pergunta aquela que abre todas as outras:
Quando é que tu vais te permitir entrar no lugar onde finalmente podes ser inteiro?
Essa resposta…
só tu podes dar.
Narrativa Inspirada no Conto Sufi.
Fragmentos do Infinito.
Conta um antigo conto da tradição sufi, atribuído a diversas escolas do Oriente Médio, que a Verdade em sua pureza integral desceu à Terra e os homens não puderam contemplá-la em sua totalidade. Para que não se perdesse por completo, Deus partiu a Verdade como se fosse um espelho, e lançou seus estilhaços ao mundo.
Desde então, cada ser humano carrega em si um pequeno fragmento desse espelho divino, refletindo uma porção da Verdade, mas jamais o seu todo. Aqueles que tentam impor seu pedaço como sendo a totalidade do espelho, sem reconhecer os fragmentos que os outros portam, caem na ilusão do orgulho e da cegueira espiritual.
A Chuva passou
de madrugada
deixou
espelhos
espalhados
pela calçada
refletindo
árvores alagadas
no fundo
infinito do céu...
A felicidade do próximo deverá ser a nossa felicidade também. É uma troca, um reflexo, um vai e vem; como um espelho quando reflete na nossa alma.
PESSOAS
Pessoas, eu as tiro da minha vida, em questão de segundos, num piscar de olhos, num estalar de dedos, num súbito sacudir de ombros. Eu as tiro como quem tira o que lhe incomoda ou o que não lhe faz bem ou não lhe satisfaz. Tiro-as, rapidamente como um delirar espontâneo, uma brisa passageira ou um temporal de verão.
Pessoas, eu as deixo na minha vida, em questão de milésimo de segundo. Deixo-as quando valem apena. Quando demonstram gratidão, respeito e emoção. Eu as deixo quando o meu peito sorri, a alma agradece e o momento se torna inesquecível. Quando a sua chegada, é como o sol que aponta nos braços do horizonte. É quando o céu inteiro sorri, mesmo quando não há um astro se quer visível. É quando o mar deslisa na areia e beija os pés de quem passa por ele.
Tudo depende das circunstâncias, dos acasos, das limitações, das ilimitações, dos trajetos. Tudo depende de uma série de interferências ou não.
Pessoas, são dádivas. Por isto, preservo, cuido, aconchego, alimento, embalo, abraço, como se fossem um tesouro muito valioso. Portanto, ao se aproximar, olhe, observe, pense, analise, fique atento. Não iluda e nem deixe o descaso entrar. Seja simplesmente mágico, como a vida.
Recebemos da vida aquilo que somos, aquilo que damos, aquilo que preservamos e aquilo que nos importamos. Se quisermos receber, temos que dar, doar e se empenhar o melhor que podemos ser. A vida é um espelho, o seu reflexo é o que emitimos.
Diante de uma esfera que reflete o mundo ao redor, não me reconheço no reflexo. Ainda vejo o menino assustado, encolhido na própria pele. Vejo o covarde que, apesar dos anos, não encontrou força para enterrar seus próprios demônios e talvez nem tenha decidido se quer viver sem eles.
Nem bem acordo
Já espio teu retrato
Faço um trato com o espelho
Hoje eu não quero sentir dor
Hora do almoço
Falo teu nome
Santo nome em vão
O que consome
Meu corpo moço
Fome ou solidão
Não quero nada
Essa estrada eu já sei aonde vai dar
Vai dar em nada,
Não quero ir, nem voltar
Cinco da tarde
Tudo arde
Coração e céu
Fico com ar de
Quem espera
Um aceno um sinal
Já noite alta
Não sinto sono
Não te esqueço mais
Viro do avesso
Adormeço
Cansada de mim sem paz
Não quero nada
Essa estrada eu já sei aonde vai dar
Vai dar em nada,
Não quero ir, nem voltar
Hoje eu não quero dor
Hoje eu não quero flor
Não quero nada
Que rime com o amor
Segredo do espelho
Em um mundo obscurecido te encontro, Teu ser é um mistério na penumbra, Teu corpo, apenas um reflexo, Na tela sombria da minha mente.
Teu corpo agora é como papel, Marcado pelo meu desejo ardente, Lembranças vagas, mas adoradas, Dos teus contornos e curvas envolventes.
O cheiro da noite em ti é um convite, Tua boca, um sabor de amoras agridoces, Teus segredos, um labirinto sem fim, Teu discurso, uma melodia que me enlouquece.
Atrás do espelho, te escondes, Teus segredos, um tesouro só nosso, Teus beijos, compartilhados e intensos, Ciúme não existe, apenas desejo fervoroso.
Entre quatro paredes, nosso mundo secreto, Onde os suspiros se Misturam em êxtase completo
Ela só sussurra eu te amo enquanto desliza as mãos para abrir os botões da minha calça,
Ela só me fala "você é incrível" enquanto estamos suados, deitados em uma cama, e em um lugar onde ninguém pode ouvi-lá.
É ai que você tem que entender a diferença entre querer e precisar, eu posso querer muito ela, mas não preciso dela.
Se der o valor que merece (falo olhando pros meus olhos no reflexo do espelho), você merece mais, e te digo, bem mais.
Jonathan Marzo
