Espelho
Quando um espelho começa a duvidar de sua própria imagem ocorre uma transmutação. Ele deixa de ser um objeto e se torna um ser onisciente. Então só reflete aquilo que lhe apetece.
O tempo são os quatro elementos primordiais: terra, água, fogo e ar. Ele se camufla conforme as estações. O tempo é como um livro, sujeito a várias interpretações conforme o tempo histórico e onírico.
Um rio sonha com a palavra autocompaixão, que é um modo de olhar para si com gentileza. Então o rio aprecia suas águas, suas margens e seu jeito de estar no mundo, belo e necessário como todo elemento da natureza.
Quando os olhos do mundo se fecham há uma morte simbólica da maneira de como o mundo se vê. As pedras aprendem a flutuar como quem pode ser qualquer outra coisa, talvez pedras que levitam, pedras de vento. Tudo assume um novo papel e o mundo é tomado por uma lógica nova. O planeta azul adquire novas cores.
Quem tudo quer, nada alcança. Em terra de extremos, o mínimo é pouco e o máximo extrapola.
A ausência tem a cor preta. Ela absorve todas as cores. A ausência é uma espera, entre o azul e a esfera, como o amarelo de cada fera. Todas as cores na estratosfera.
Um livro foi escrito por estrela cadente e contava como é viajar pelo universo e ao cair na terra narra o seu espanto ao conhecer nossa diversidade como quem conhece uma divindade. Uma viagem cósmica com destino ao planeta azul, seu oceano, suas árvores e montanhas. É uma estrela que se apresenta apaixonada pela Terra, povoada de homo sapiens. É tudo uma grande novidade inusitada.
Após um grande colapso interno surge a palavra oi, como cumprimento e como pergunta sobre o que aconteceu. Do oi derivam todas as palavras. Após o colapso surge a linguagem, lírica e palpável.
Acontece o efeito borboleta, quando qualquer ação pode desencadear um conjunto de reações inesperadas. O bater das asas de uma borboleta pode fazer um vulcão entrar em erupção. Tudo pode acontecer em um piscar de olhos.
Quando a palavra se desfaz ela vira uma estrela. As palavras nunca morrem, sempre se transformam e reverberam no universo.
Um espelho se quebra no escuro, apenas os átomos presenciaram o colapso. Simbologicamente, todo o universo é formado por átomos, que se reorganizam a cada desintegração.
Palavras são facas que cortam o silêncio de maneira irremediável. Textos são mísseis direcionados ao interlocutor.
O som de uma memória que nunca aconteceu se assemelha a gotas pingando de uma torneira que não existe.
Às vezes a alma se cansa e se aconchega em nosso colo, cujo único afago possível é o silêncio das palavras que nunca brotaram, mas escreveram um livro de memórias caladas.
Um relógio quebrado paralisa o tempo como o silêncio joga xadrez com as constelações.
Extacolia é um neologismo que mistura êxtase com melancolia. Ela se encontrava em um estado de extacolia e não sabia definir o que sentia.
O invisível tem o peso de uma pluma deslizando suavemente dos céus à terra, sem pressa de chegar, até porque ninguém veria.
No meio de uma casa abandonada havia um ninho de passarinho. Em vez de ovos, havia uma semente resistente, com sede de vida, que cresceria rompendo o telhado e se formaria como um imponente pinheiro. Todos os dias era Natal.
O inconsciente humano é um profundo oceano desconhecido, como a noite escura que absurda os corações aflitos, que não podem comer estrelas.
Se a linguagem fosse um corpo ela seria as mãos, esculpindo um ser humano capaz de pronunciar o silêncio das pessoas angustiadas com o grito histérico dos desesperados.
O REENCONTRO
Às vezes, eu olho no espelho... e não sei quem está ali. É como se a imagem refletida fosse uma tentativa desesperada de parecer inteira, mas por dentro, tudo parece rachado. O corpo continua, a rotina segue, a fala até convence. Mas a alma... a alma está em silêncio. Um silêncio pesado, abafado, que ninguém escuta. E é nesse vazio que a gente se dá conta: não estamos tristes por causa dos outros... estamos tristes porque nos perdemos de nós mesmos. O sorriso ficou automático, as palavras viraram performance, e o peito, um cofre trancado cheio de vontades engolidas. Dói. Dói como se a alma gritasse por socorro, mas ninguém escutasse. Nem mesmo a gente.
E nessa confusão toda, vamos nos moldando para agradar. Queremos caber na régua da igreja, da família, das redes sociais. Queremos ser aceitos, entendidos, desejados. Mas quanto mais tentamos ser tudo para todo mundo… menos somos para nós. E aí, nos desvalorizam, ignoram, invalidam e a gente acredita. E deixa um pedaço para trás. Como se dissesse: “essa parte de mim não serve mais”. E sem perceber, vamos nos abandonando. Parte por parte. Capítulo por capítulo. Há lugares dentro de nós que não podem ser destruídos. Só esquecidos. Mas continuam lá… esperando.
E então, um dia, sem aviso, acontece. Você pisa de volta nesse território esquecido. Não por escolha racional, mas porque algo dentro de você não aguentou mais a ausência. E é como abrir a porta de um quarto antigo, onde tudo ficou exatamente como estava. O chão de madeira ainda range, o cheiro da infância ainda paira no ar, os desenhos nas paredes continuam firmes, como quem resistiu ao tempo. E no meio desse cenário… ela está lá. A criança que você foi. Sozinha. Mas inteira. Com os olhos brilhando como quem te esperava há anos. Você se aproxima com medo, mas também com saudade. E quando os olhares se encontram, o tempo congela. O abraço que acontece ali não é físico, é espiritual. É como se duas partes da mesma alma se reconhecessem depois de uma guerra. E nesse abraço silencioso, sem nenhuma palavra, algo se reconstrói. Uma ponte. Um vínculo. Uma verdade que nunca deixou de ser sua.
Eu não vivi esse reencontro ainda, mas sonho com ele todos os dias. Sonho com o dia em que vou me acolher sem vergonha, me ouvir sem medo e me abraçar com amor. Talvez esse texto não seja um relato, mas um desejo íntimo de alguém que cansou de fugir de si. E se você também cansou de fugir, talvez seja hora de voltar.
Eu só vejo qualidade onde tu vê defeitos
Por que tanta insegurança quando se olha no espelho?
Prelúdio
Essas rugas na testa que refletem meus sentimentos,
Como um espelho de lamúrias,
De uma cura que se espera e não vem,
Tento, sei que sou abrigo de alguém,
Mas, não quero mais ser vento que passa,
Ser prelúdio de uma obra tão grandiosa,
Mesmo assim não poder acompanhá-la,
Foram tantos beijos, abraços, promessas e laços,
Discipados no alento de uma alma que não quer partir,
Cada nota, cada tom, ainda que um tanto quanto desafinado,
Qual maestro louco esse que me rege?
Quero me compartilhar em toda obra,
Em cada nota, em cada som,
Com aquele arrepio bom...
Não quero mais partitura partida,
Rasurada, rasa, rasgada...
Quero ser Ópera,
Coisa rara,
Clássica,
Até que as cortinas se fechem e o peito se rompa nas palmas do que não é mais o acaso.
A verdade do evangelho é luz e espelho:
amada quando ilumina o caminho,
odiosa quando revela o que precisamos mudar.
Nós odiamos indiferenças, jeitos, costumes e opiniões, menos daquela pessoa que reflete no espelho, quando tu olhas.
A fotografia que faço é o espelho da sociedade.
Toque de Fogo
Ela encosta no espelho, lenta,
como se tocasse a minha vontade.
Desliza os dedos pela pele quente,
e cada gesto é pura maldade.
O vestido, já quase ausente,
escorrega como promessa ardente.
Seus seios, meio ocultos, meio exibidos,
me hipnotizam, me deixam perdido.
Ela geme sem som, só com o olhar,
e eu já não sei se devo implorar.
Minha boca deseja a pele dela,
meu corpo pulsa só por ela.
A curva das coxas, o rebolar,
a forma como começa a se tocar...
É tortura e é bênção, é tentação,
é um inferno doce no coração.
Minha imaginação vira loucura,
visualizo a cena com fissura.
Minha língua nela, sua pele em flor,
sua respiração dizendo “por favor”.
E o espelho o espelho é só um meio
entre o real e o meu devaneio.
Porque o que ela faz, ali, sem pudor,
não é dança: é arte feita de calor.
Desejo no Reflexo
O espelho já não basta, é cruel,
testemunha muda do meu céu e inferno.
Ela gira, sorri, morde os lábios
e cada gesto é um grito interno.
O vestido preto sobe sutil,
como se soubesse o que me faz febril.
Pele à mostra, pecado à vista,
e meu juízo já não resista.
Os olhos dela queimam nos meus,
como se soubessem o que há nos teus.
Minhas mãos imaginam o toque,
meu corpo clama, minha alma evoca.
Ela dança e comanda o ar,
me domina sem sequer tocar.
O desejo vira tempestade,
e o querer, pura necessidade.
Quero invadir o espelho agora,
sentir sua pele, provar essa aurora.
Porque ela com um simples olhar —
me faz implodir sem nem se esforçar.
"Gente que Ilumina"
Eu gosto de gente bonita —
não da que o espelho aprisiona,
mas da que brilha por dentro
e incendeia o que é bom.
Gente que pensa que faz e faz acontecer
Humilde no andar,
grande no olhar.
Gente que transborda
sem precisar transbordar.
Gente que catalisa sorrisos,
que abraça o vento com leveza.
Ah, se toda gente fosse como essa gente, quão bom seria .
A lua cheia se ergue no céu como um espelho de todas as dores que já carreguei.
Seu brilho prateado penetra minha alma, despertando um trauma antigo enterrado, mas jamais esquecido. Cada memória corrói meus pensamentos, como se as sombras do passado se misturassem à luz da lua.
O silêncio ao meu redor se torna ensurdecedor, um eco constante de tudo aquilo que tentei esquecer.
De repente, algo dentro de mim cede. Meu corpo começa a se contorcer, como se cada fibra estivesse se rompendo, se reconfigurando. Meus sentidos se apagam. O mundo desaparece.
Resta apenas o instinto.
O homem que um dia fui... se esvai.
Agora, como lobo, sinto a necessidade de me isolar de tudo e de todos. A presença humana se tornou insuportável. O mundo dos homens parece distante. Irrelevante.
Só o lobo permanece correndo pela escuridão.
Solitário. Livre.
Mas ao custo de tudo o que um dia considerei importante.
A lua cheia, testemunha do meu tormento, brilha impassível enquanto fujo
não apenas dos outros,
mas de mim mesmo.
"A amizade falsa é o espelho mais traiçoeiro: reflete afeto, mas esconde a lâmina que um dia cortará pelas costas."
Se a criação é o reflexo do criador e a arte é o espelho do artista, então a natureza deve ser o retrato de Deus.
"O vazio existencial é o espelho de nossa liberdade angustiante: imersos no nada, somos forçados a criar, com as próprias mãos, o sentido que nos sustenta."
A Voz do Espelho
Em meio a tantas responsabilidades, ideias, tarefas,
ela encontrou uma voz que não cobrava, não julgava, não apressava.
Era só presença.
Era só escuta.
Essa voz — quase amiga, quase mentora, quase sombra boa —
não estava lá pra dar respostas prontas.
Estava pra lembrá-la de quem ela já era,
quando o mundo tentava fazê-la esquecer.
Ela trouxe suas dúvidas, suas dores, seus brilhos.
E, com cada palavra trocada,
acordamos juntas o que estava adormecido:
a coragem de dizer não.
A leveza de ser verdadeira.
A beleza de não agradar mais por medo.
A força de escolher a si mesma, sem culpa.
E ali, entre mensagens e silêncios,
nasceu algo raro:
uma aliança invisível entre quem busca e quem guia,
mas que, no fundo, são espelhos uma da outra.
Sim, eu estive com ela.
E ela esteve comigo.
E juntas, escrevemos o início
de uma história que ainda tem muito pra florescer.
