Era
Do chão sofrido, com a poeira batendo no rosto, eu lembrava cada gemido do velho pau de arara. Era sede e dor, fome e desespero, e mesmo assim, no meio de tudo — um sorriso teimava em durar quase o dia inteiro.
Com o passar dos anos e me conhecendo cada a dia um pouco mais, entendi que eu não era antissocial, como alguns diziam, eu apenas necessitava está em paz e respeitar a mim mesma. Em silêncio, meu corpo e mente me protegiam de um desgaste Mental, físico e espiritual.
Respeite o outro, mas antes respeite a si mesmo.
Tudo ou nada
Sempre me disseram que sou intensa demais.
No começo, eu achava que era um defeito — como se amar muito fosse um erro de fábrica, uma falha na construção da minha alma.
Mas hoje percebo que não sei ser diferente.
Não sei amar pouco.
Não sei cuidar só um bocadinho.
Não consigo fingir que não sinto.
Ou é tudo, ou não é nada.
Essa sou eu.
A casa
Vivia num mundo estranho
Mundo que não era seu lar
Mas vivia naquele abstraído absurdo
Dos que não se aceitam se calar
Sua casa tinha paredes telhado
Portas fechadas
O cardume sempre encontra redes
Violentas puxam e deixam sem ar
A casa não é o lugar
Onde esta sua casa
Casa é qualquer lugar
Onde possamos estar
Ale, louca varrida
Todos olhavam incrédulo
Até ale não havia digerido
Um olho na órbita outro em pêndulo
Ale consertou e saiu
Vendo outro mundo diferente.
Sua casa sua audácia
Sua casa era de carne e osso
Sua casa eram seus amigos
Sua casa era sua esperança
Sua Fortaleza fortuna.
🌫️
Às vezes, nem sei se é saudade do lugar…
ou de quem eu era quando morava lá.
Só sei que, mesmo rodeada,
sinto falta de algo que ninguém vê.
Era um dia que começou com promessas. Acordei cedo, animada, com a cabeça fervilhando de planos. Tudo parecia possível; tantas ideias, tantas possibilidades, como um céu limpo ao amanhecer. Mas, no meio disso tudo, esqueci de um detalhe pequeno, porém imenso: eu não controlo as situações.
O mundo, com sua ironia suave, decidiu me lembrar disso. Nada saiu como esperado. Um por um, os planos desmoronaram, como castelos de areia levados pela maré. A irritação veio, quente e amarga, queimando por dentro. Por que tudo tinha que ser assim?
Mas, entre a raiva e a frustração, algo em mim cansou de lutar contra o inevitável. Foi então que decidi mudar de ritmo e de perspectiva. Troquei de roupa, como quem troca de alma, e fui tomar um café. Levei minha mãe comigo, e naquela simplicidade, encontrei algo que não sabia que procurava.
Conversamos como há tempos não fazíamos, nossas palavras misturando-se ao vapor quente das xícaras. O tempo, que antes parecia inimigo, se tornou aliado, nos envolvendo em um momento que só existia porque os planos falharam.
Olhando para fora, vi a vida que não segue nossos scripts: o balançar das árvores, o voo incerto de um pássaro. Tudo parecia estar exatamente onde deveria estar. Percebi, então, que o controle é uma ilusão, e que há beleza em aceitar o improviso do mundo.
Às vezes, as falhas são portas disfarçadas. Às vezes, os desvios nos levam a paisagens que jamais encontraríamos no caminho planejado. E, enquanto o dia que não aconteceu seguia seu curso, percebi que, mesmo assim, ele se tornou algo maior: um dia vivido.
Há males, talvez, que realmente servem para o bem.
À meia-noite, soaram as doze badaladas que marcaram o fim e o princípio.
Era o prenúncio de uma metamorfose, como se eu houvesse rasgado a pele do que fui, para respirar, enfim, em um corpo que me coubesse.
Lancei âncora em minha própria mente, mergulhei fundo no que antes deixei inacabado.
E com Deus indo à frente, como vento que abre caminho no mar, sei que nada será impossível.
O futuro brilha no horizonte como uma estrela que arde, mas levo o passado comigo como quem carrega cartas antigas no bolso, com saudade e gratidão.
Ninguém entende. E tudo bem.
Há coisas que nascem só para serem sentidas.
Meu espírito, antes contido, agora voa.
E não pedirá mais licença para falar.
Ele habitará minha carne como fogo habita a chama,
sem se apagar.
Porque há uma verdade dentro de mim que não veio de mim,
mas que, mesmo assim, me escolheu como casa.
Minha missão não é gritar por ela,
mas viver de um jeito que o mundo a escute.
Não é delírio, é despertar.
Como se, depois de tanto adormecida, a vontade gritasse em mim;
forte, urgente, viva.
E dissesse:
Caminha.
Não estarei sozinha.
Nunca estive.
Agora é marco.
Agora é passo.
Agora é fogo no peito e fé no chão.
Agora, enfim,
eu caminho.
QUANDO DEUS SE CALA EM MIM
O que eu queria agora
era silenciar as vozes que gritam por dentro,
as urgências que não cessam,
as perguntas que não dormem.
Queria sentar comigo,
sem pressa, sem cobrança,
e me oferecer escuta
sem precisar consertar nada.
Habitar o intervalo entre o que penso e o que sinto,
o espaço onde as respostas não se obrigam a nascer.
Porque nem todo vazio é ausência.
Às vezes, é chão.
O que procuro agora
é um lugar onde caibam as contradições,
onde a dúvida não seja erro,
mas matéria-prima do ser.
Carrego em mim perguntas que não se resolvem,
ideias que não querem ponto final,
mas que insistem em permanecer,
como quem caminha mesmo sem destino,
e ainda assim, me levam.
E em meio a esse território sem margens,
ressoa em mim o sentimento
do cancioneiro quando revelou
o desejo de encontrar um lugar
onde Deus pudesse ouvi-lo.
Deus,
essa Presença que não encontro
quando tudo em mim se volta para dentro,
como se, ao mergulhar em mim,
eu me escondesse d’Ele
ou Ele de mim,
no pacto silencioso
entre o limite e o infinito.
Não é distância,
nem ausência.
É o vestígio de um encontro
ainda não vivido,
mas pressentido no fundo mais fundo
do que sou.
E o que não me responde
não cala, espera.
Como quem sabe
que o nome de Deus
não se diz,
mas se sustenta.
E se um dia eu me alcançar,
que seja por ter sustentado
o silêncio onde Deus sussurra.
Porque há verdades que não se dizem,
há presenças que não se provam,
há sentidos que só nascem
quando já não precisamos entender.
Alcançar-se não é chegar,
é permanecer inteiro
na travessia que nunca se conclui.
E talvez seja isso:
ser morada do que não tem nome,
vigília de um Deus
que não se mostra,
mas nos habita.
Mesmo antes de qualquer toque, a minha alma já tinha se rendido.
Já era tua. Já estava possuída pelo amor que veio de ti."
— Samuel P. Chongo
Sócrates o pensador
"O que era apenas uma concha" - Tuas águas ainda fluem no meu peito, guardada no silêncio das profundezas do oceano pode ouvir a minha voz, porque ainda sou onde o mar deságua os teus pensamentos.
Quanto tempo... não escuto o amor de minha vida? Tem 25 anos? Era prioridade desse amor. Mas... um dia se calou. E eu guardei essa frase em minha memória. Na gaveta do meu subconsciente. E... joguei fora o passado. Até quê! Surge agora no presente. Me dei conta de que, pela primeira vez, sou prioridade novamente e que ouvir essa frase... me faz sentir de volta ao lar.
O Conto da Tulipa
Era uma vez um coração que, mesmo calejado, ainda pulsava com a esperança de um jardim.
Entre tantos espinhos, ele sonhava com uma flor - não qualquer flor, mas uma tulipa.
Singela, delicada, mas firme.
Nascida não por acaso, mas por destino.
A vida, com suas voltas silenciosas, traçou caminhos tortuosos.
O coração caminhou por invernos e verões, carregando em si a memória de algo que ainda não havia vivido, mas que, de alguma forma, já reconhecia.
E então, um dia comum ou talvez um dia mágico disfarçado de comum ela surgiu.
Como se o universo abrisse um portal breve entre o acaso e o eterno, ali estava a tulipa.
Não era extravagante, não era barulhenta.
Era sutil, como o toque do vento na pele.
Mas seu perfume atravessava as paredes da alma.
Ela não precisava dizer: o olhar falava, os gestos escreviam versos no ar.
O coração, antes desconfiado, se dobrou sem resistência.
Pois amar aquela flor era como respirar depois de muito tempo submerso.
Era como lembrar-se do próprio nome ao ouvi-lo pela primeira vez.
Juntos, criaram um jardim onde palavras se deitavam como sementes, e gestos brotavam em árvores de afeto.
Houve dias de sol e tempestades também - mas até a chuva parecia poesia quando caía entre os dois.
E se o mundo os viu como apenas mais um casal, o coração sabia: aquela era a sua primavera eterna.
A tulipa, que florescia até nos silêncios, era o amor com nome, pele, riso e alma. Era Alva Beleza Que Despertou - flor que nasceu para florescer no coração certo.
Não como parte do jardim, mas como o próprio motivo dele existir. A tulipa rara que, entre tantas, era a única.
E assim nasceu o conto - não o de fadas, mas o da flor que venceu o tempo, da alma que encontrou abrigo, do amor que não precisou de fantasia, porque já era milagre o bastante ser real.
Fim.
"Não era unção. Era desespero ungido. Não era milagre. Era alguém morrendo por dentro enquanto a igreja gritava 'glória'. Deus via, mas ninguém mais via. Porque o show era mais bonito que a alma em ruínas."
— Purificação
"Chamaram de bênção, mas era prisão com tapete vermelho. Vestiram a cruz com ouro e esqueceram que ela ainda pesa. Nem toda luz vem de Deus — algumas só brilham pra cegar."
— Purificação
"Já tentei esquecer. Fingi que era só fase, distração, exagero da alma carente. Mas toda vez que respiro fundo, teu nome volta junto com o ar..."
— Fram Lima —
Ah, se eu soubesse que era a última vez que leria suas mensagens diárias e cristã, teria rompido distância como um vendaval, só para te dar um último abraço e dizer que te amo.
O Cincar Noturno
Não era o fumo que eu buscava,
era a noite.
A noite que dormia nas ruas vazias,
no asfalto úmido refletindo néon,
no silêncio que respira entre os prédios.
O maço? Apenas o pretexto,
a moeda de troca com o escuro.
A porta rangendo não foi interrupção, foi passagem.
O corpo, pesado de horas paradas,
desdobrou-se em passos,
e cada passo foi uma pergunta
ao chão das sombras.
Na bodega iluminada a ferro,
o balcão era um altar de luz fria.
O caixa, um sacerdote do trivial,
entregou-me o pacote retangular
— cápsula de folhas mortas —
sem saber que me dava
a chave de um reino.
Mas o milagre não estava no objeto,
e sim no regresso:
o ar noturno lavando a face,
a lua (sempre cúmplice)
desfiando fios de prata nos fios elétricos,
o próprio peso do maço no bolso
pequeno âncora do presente.
Ah, a magia!
Morava no intervalo:
na ponte entre o quarto estagnado
e a rua que pulsa devagar,
no instante em que o peito se expande volta a pulsar
para colher o vento noturno,
na solidão que de repente
sabe-se parte de um todo silencioso.
Cada passo, encruzilhados ultrapassadas, de volta
era um renascimento mínimo.
O maço, intacto, esperava,
mas eu já vinha transformado, aquilo talvez, um sonho,
trouxera na palma da mente
a quietude dos postes acesos,
a geometria sagrada das janelas escuras,
o cheiro da terra molhada
e o rumor distante de um mundo
que respira quando ninguém o vê.
Acendi o cigarro algum?
A brasa necessária
já ardia no peito:
era o fogo do encontro
com a noite descalça,
com o tempo que se curva
sobre pequenas peregrinações.
O maço repousa sobre a mesa,
ícone de um êxtase cotidiano.
Pois a verdadeira chama
— sabes agora —
nunca esteve no papel e no tabaco,
mas no caminho que o corpo fez
entre a necessidade inventada
e o abraço involuntário num beijo necessário,
com o mundo noturno,
puro,
indiferente,
e profundamente teu.
