Enquanto
Enquanto formos úteis à economia, teremos valor; quando deixarmos de sê-lo, nos tornaremos cadáveres indignos até mesmo de um simples caixão.
Somente a prisão pode libertar um homem atormentado pelo próprio crime; enquanto estiver livre, estará preso.
Algumas portas não se fecham de repente. Elas envelhecem diante de nós enquanto esperamos coragem suficiente para atravessá-las.
As borboletas do meu estômago discutem qual direção seguir, enquanto meu coração insiste em não desistir.
Uma voa rumo ao novo, outra pensa em ficar, e há quem sussurre baixinho que ainda vale a pena tentar.
No fim, nenhuma escolhe partir.
Elas apenas continuam voando, até que o destino decida em qual abraço irá florir.
A identidade jurídica da estatal pode permanecer intacta enquanto sua função institucional é progressivamente transferida para o mercado.
Compartilhar conhecimento é descobrir que, enquanto você ensina, também aprende com quem está aprendendo.
Vou navegar na crista da tua onda,
lindo enquanto dura,
alto enquanto me deixas.
Pois sei...
quando a maré baixar,
serei esquecido na areia da praia.
Como espuma.
Como rastro.
Como se nunca tivesse amado tanto.
*- Saul Beleza*
Enquanto houver injustiça, haverá minha força. Não temo o combate quando a causa é proteger e ser a voz daqueles que o mundo tenta calar.
É muito fácil vender Bravura de Leão enquanto se goza das prerrogativas e do conforto que o poder financeiro proporciona.
Há quem diga o que lhe dá na teia para vender coragem só por gozar de privilégios…
Sob a sombra dessas garantias, o rugido soa alto, firme, quase convincente — mas não passa, muitas vezes, de um eco bem ensaiado em terreno seguro.
O problema não está apenas na encenação da coragem, mas no contraste brutal quando as circunstâncias mudam.
Porque o verdadeiro teste da bravura não acontece quando se tem a caneta que assina destinos ao alcance das mãos, nem quando os riscos são amortecidos por privilégios.
Ele se revela justamente na ausência dessas muletas — quando o silêncio pesa, quando a vulnerabilidade se impõe, quando não há plateia para aplaudir.
É aí que surge o trágico calote da performance: aqueles que se acostumaram a performar força descobrem, tarde demais, que não sabem sustentar leveza.
Tentam, então, entregar a meiguice de um ursinho de pelúcia, mas sem nunca terem aprendido o que há de genuíno nela.
Porque a doçura verdadeira não nasce da falta de poder — nasce do domínio sobre ele.
No fundo, o que se expõe não é apenas a incoerência, mas uma espécie de dependência: há quem só saiba ser grande quando tudo ao redor já o coloca acima dos outros.
E quando esse cenário se desfaz, resta apenas o desconforto de encarar a própria dimensão real — sem metáforas, sem encenações, sem privilégios para sustentar a doce ilusão.
Talvez a coragem mais rara não seja a do leão que ruge protegido, mas a de quem consegue ser íntegro quando já não há nada que o proteja — nem mesmo a própria imagem.
Solilóquio de Guerra
Minha armadura sangra em silêncio sob o peso do mundo,
Enquanto o abismo sussurra o meu nome na escuridão.
Caminho entre os espectros de sorrisos falsos e atos contraditórios,
Que tipo de dêmonios eles são?
Sem exército, cercada pelo deserto da solidão.
Cota de malha enferrujada e couro rasgado.
Espada sempre ao lado.
Fui lançada a uma trincheira que jamais aceitei,
Nem a carta da convocação me enviaram.
Busco a saída deste campo devastado, Seja pela vida ou pelo pó,
Persisto na travessia, até que as sombras me abracem,
E o último suspiro desapareça e se dissipe no mundo.
- Ramile Godon
Se tudo for uma história de sentido que criamos; enquanto animal que somos, o fizemos para dar significado ao insignificante da nossa própria existência. Se for apenas isso, a fé é a mentira mais bela e necessária que inventamos.
A quem me vê sem me enxergar
Espero.
E, enquanto espero, me desespero na esperança de que alguém me perceba sem que eu precise parecer ser aquilo que esperam que eu seja.
Sonho que me vejam, mas veja só que desgraça: quanto mais tento ser visto, mais visto o disfarce, mais visto a vontade de ser visto, menos visto o que sou.
E sou? Ou sou somente o som daquilo que dizem que sou?
Porque me dizem tão dito, me ditam tão ditado, que me torno, de tanto ser chamado, alguém que nunca chamei de meu.
Sou o que digo ou o que digo que sou? Sou o que sinto ou o que sinto que sentem por mim? Sou o que mostro ou o que escondo tão bem que até eu me esqueço de mim?
Espero e espero. E, de tanto esperar, desespero.
Espero que me olhem sem que o olhar me altere, que me ouçam sem que a voz me traia, que me sintam sem que o sentir me sentencie.
Quero ser visto sem ser vistoso, ser notado sem ser notável, ser amado sem ser amoldado, ser querido sem ser adquirido por quem me queira somente quando eu quiser ser o que querem de mim.
Porque há algo de cruel em ser claramente visto e, ainda assim, ser mal compreendido.
Há algo de quase cômico em dizer que sou quem sou e ouvir, como resposta, que não sou quem pareço ser.
Mas quem pareço ser senão aquilo que aprendi a parecer para não desaparecer diante de quem nunca quis me conhecer?
Eu me mostro e me escondo, me escondo e me exponho, me exponho e me componho conforme a composição dos olhos que me compõem.
E, nessa composição, perco partes, parto-me, reparto-me em partes que participam de pessoas que não sou.
Que disparate!
Tanto me reparto para caber que já não sei em qual parte me encontrar. Tanto me adapto para agradar que já não sei a quem devo desagradar para finalmente me agradar.
E o pior não é não me verem. É me verem e não me enxergarem. É me ouvirem e não me escutarem. É me tocarem a alma sem sequer saberem onde ela começa.
É ser presença para os olhos, ausência para o entendimento, aparência para o mundo, desconhecido para quem me chama pelo nome que me deram sem jamais perguntar como eu me nomeio por dentro.
Eu espero.
Espero que alguém veja o que há de avesso no verso, o que há de inverso no que expresso, o que há de imenso no silêncio e de silêncio no que digo.
Que perceba que nem todo sorriso sorri, que nem toda fala revela, que nem todo aquele que se cala consente com aquilo que lhe calam.
Que me veja sem me prever, que me conheça sem me concluir, que me escute sem me traduzir para uma língua mais conveniente.
Pois não quero ser decifrado por quem já decidiu minha definição.
Quero ser lido mesmo quando a leitura for difícil, mesmo quando a frase falhar, mesmo quando eu próprio me contradisser e a contradição disser mais de mim do que eu conseguiria dizer.
Não quero que me inventem perfeito. Quero que não me desfaçam por ser imperfeito.
Não quero que me vejam como gostariam que eu fosse. Quero que gostem de conhecer quem sou quando não estou tentando ser gostável.
E, se for para sonhar, que eu sonhe sem precisar me ensaiar; que eu exista sem precisar me explicar; que eu possa, enfim, ser sem que o ser me custe a necessidade de parecer.
Porque espero e sonho que me vejam como realmente sou.
E, se há alguma ironia nisso, é que passo a vida inteira tentando ser visto enquanto me torno invisível na tentativa de ser visto.
Talvez, um dia, eu não precise mais pedir para que me vejam.
Talvez alguém me olhe e, sem me moldar, me compreenda.
E talvez eu me olhe também.
Porque, no fim, de tanto desejar ser descoberto por alguém, tenho medo de que, quando me encontrem, eu já tenha me perdido de mim.
Algumas pessoas têm problemas, problemas tão graves, que não é possível ser feliz enquanto se está lidando com eles.
É verão de dezembro. O sol foi tão gentil enquanto eu buscava as palavras de alguns versos. Versos estes que mexiam com a minha inquietude, aquela que não doma o mundo selvagem lá fora, mas que é suficiente para me fazer vagante.
