Enquanto
A língua é como um rio que se renova, enquanto a gramática normativa é como a água do igapó, que envelhece, não gera vida nova a não ser que venham as inundações.
oceano muito pacifico
Na cidade existia um mergulhador conhecido por um hábito incomum. Enquanto todos desciam ao oceano em busca de destroços, joias perdidas ou animais raros, ele voltava dizendo sempre a mesma coisa.
“Lá embaixo é silencioso demais para existir mentira.”
Ninguém entendia.
Os pescadores riam, os turistas fotografavam suas roupas encharcadas e os cientistas atribuíam aquilo aos muitos anos respirando ar comprimido. Diziam que a pressão confundia o cérebro. Que profundidade demais acabava alterando a percepção. Era uma explicação confortável, porque explicações confortáveis impedem que alguém precise mudar a maneira como enxerga o mundo.
Certa manhã, ele aceitou levar um rapaz que insistia em descobrir o motivo daquela frase.
Os dois mergulharam.
Quanto mais o sol desaparecia acima deles, mais o oceano parecia apagar qualquer vestígio da superfície. As cores deixavam de existir, os sons desapareciam, os objetos perdiam seus contornos e, pela primeira vez, o rapaz percebeu uma sensação estranha: ninguém ali embaixo precisava fingir ser coisa alguma.
Os peixes não pareciam felizes.
Também não pareciam tristes.
Eles simplesmente atravessavam a água.
As correntes não escolhiam direção por convicção. As baleias não cantavam porque alguém as escutaria. Nem os corais cresciam tentando provar que eram bonitos.
Tudo apenas acontecia.
Quando voltaram à superfície, o rapaz permaneceu em silêncio durante horas.
Foi então que o mergulhador sorriu pela primeira vez.
“Agora olha para eles.”
Na praia, centenas de pessoas caminhavam de um lado para o outro. Algumas escondiam lágrimas atrás de óculos escuros. Outras sorriam para fotografias que seriam esquecidas na semana seguinte. Casais prometiam eternidade enquanto pensavam em outras vidas. Crianças fingiam ser adultas. Adultos fingiam saber o que estavam fazendo. Todos carregavam uma versão cuidadosamente construída de si mesmos, como atores que esqueceram onde termina o personagem e começa o rosto.
O rapaz perguntou por que aquilo parecia tão diferente do fundo do mar.
O mergulhador respondeu que a superfície era o único lugar onde a realidade precisava competir com a imaginação.
“Lá embaixo, ninguém inventa significado. Aqui em cima, inventam tantos que acabam esquecendo de viver.”
Naquela noite, o rapaz não conseguiu dormir.
Olhava para o teto do quarto enquanto escutava a própria mente produzir pensamentos sem parar. Ela comentava o passado, ensaiava diálogos que jamais aconteceriam, antecipava tragédias improváveis, reinterpretava lembranças até transformá-las em outra coisa. Era como assistir a um homem desesperado tentando narrar um filme que nunca parava de mudar de roteiro.
Pela primeira vez surgiu uma suspeita quase ofensiva.
E se aquela voz não fosse ele?
E se tivesse passado a vida inteira acreditando em um narrador que nunca presenciou os fatos, apenas os interpretou?
Dias depois voltou sozinho ao mar.
Mergulhou até onde a luz deixava de alcançar.
Lá embaixo não havia opiniões.
Não havia culpa.
Não havia arrependimento.
O oceano não fazia perguntas porque não precisava de respostas.
E, cercado por um silêncio tão antigo que parecia existir antes da própria linguagem, ele compreendeu algo que o acompanharia pelo resto da vida.
A mente nunca foi uma janela para a realidade.
Ela é uma máquina de fabricar versões.
Algumas belas.
Outras insuportáveis.
Quase todas falsas.
Talvez seja por isso que tanta gente viva com a sensação de estar perdida. Não porque o caminho desapareceu, mas porque aprendeu a procurar a saída dentro do único lugar incapaz de oferecê-la.
Enquanto isso, o mar continua exatamente onde sempre esteve.
Profundo.
Indiferente.
Sem nenhuma necessidade de explicar a própria existência.
Como se soubesse, desde o princípio, que as únicas criaturas realmente perdidas nunca foram as que afundaram.
Foram as que passaram a vida inteira tentando encontrar a própria mente, sem perceber que ela era justamente o lugar de onde precisavam sair.
Aquele dia ele morreu afogado, mas na verdade nem precisou sair do próprio quarto.
Enquanto uns vivem para trabalhar, outros trabalham para viver! É preciso moderação e equidade de condições!
De nada valerá a justiça dos homens enquanto existir inconscientes para defender infratores, e de nada valerá nem uma escritura divina enquanto houver homens para absolver pecadores.
Seguiremos valorizando as coisas enquanto tivermos o maior valor de todos: a vida. E quando ela acabar,
ficam apenas as coisas."
"Moedas de mentiras compram multidões num piscar de olhos, enquanto a verdade morre de solidão em um minuto de silêncio."
"Incrível como um segundo de ilusão rende mil curtidas, enquanto um minuto de lucidez rende apenas o vácuo."
"É fascinante ver a verdade murchar em um minuto de solidão, enquanto o circo da farsa incendeia a internet em cinco segundos. Dá vontade de rir, se não desse vontade de chorar."
"O mundo acelerou tanto que a mentira já deu a volta na Terra, enquanto o pensamento ainda tenta calçar os sapatos no escuro."
Como pode exigir delicadeza das pessoas, enquanto se permite viver de forma tão… libertina?
Não digo isso em tom de julgamento, mas de confusão sincera. Pois, ao mesmo tempo em que pareces saber exatamente o que procuras, tuas atitudes contam uma história diferente — uma história incerta, por vezes contraditória.
Na minha insônia
As estrelas lá fora piscam em cumplicidade,
Enquanto a mente vagueia em busca de paz,
Cada minuto se estende em eternidade,
E o sono, esquivo, não vem jamais.
Mas há beleza na quietude da noite,
Nos segredos que ela sussurra ao coração,
E mesmo na insônia, há um toque de açoite,
Que desperta a alma para a introspecção.
Muitos pedem por riquezas, fama e prazeres, enquanto que pedir por sabedoria é maior de todas as possessões, desejos e felicidade.
Reserve tempo para brincar com seus filhos enquanto são pequenos. Construa memórias que durarão a vida toda.
A minha verdade
Enquanto houver verdade,
haverá em mim
um grito que não se cala.
Pois aqui habita
uma sabedoria única,
um sentimento inigualável.
Onde a destreza
provoca incertezas
e busca, no íntimo, a soberba.
O que se quer
é o que se vê,
não se inventa.
Apenas se compreende,
de certa maneira,
e não se explica.
A vida insiste
e, por ora,
é o que chega.
Nem há busca,
nem desespero;
por vezes, apenas exagero.
Ou talvez, esperança,
o que causa anseio.
E, no momento, é o que vejo.
Busco prazer
na simplicidade do acaso,
no milagre do amanhecer.
Em cada história
eu me encontro,
mas no amor, eu me perco.
Novamente,
como matemática básica,
não tem erro.
Essa sou eu:
não guardo segredos,
sou sempre do mesmo jeito.
SOCIEDADE
Enquanto os do Olimpo se alimentam da claridade que fabricam, os da Névoa navegam na bruma que lhes deixam e ambos, sem o saber, são reflexo um do outro: o poder feito mito, o povo feito abstração, numa dança onde o alto e o baixo são dois movimentos do mesmo rio parado.
“Vejo a política, esquerda e direita,
a discutir a margem do rio
enquanto milhões de seres humanos
se afogam no centro da corrente.”
Em Poesia “Fotografia da Ferida” de António CD Justo
Aproveite o rostinho bonito, o corpo bonito e a juventude enquanto existem. O tempo não pede licença: um dia, a beleza que hoje chama atenção vai se transformar em lembrança. Tudo passa, tudo muda, tudo se desfaz. No fim, não é o rosto nem o corpo que permanece, mas aquilo que você foi capaz de deixar na vida das pessoas.
