É hoje

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Hoje a cor que eu quero é o dourado dessa cerveja, que é a única coisa que brilha sem me cobrar um sorriso de volta.

Hoje eu preciso de uma bebida que não tenha história, que não tenha safra e que não me lembre de nenhum brinde que a gente deixou de fazer.

Hoje a gente não comemora a alegria, a gente só respeita a caminhada.

Hoje a gente bebe por tudo aquilo que a gente guarda e que não serve para mais nada, a não ser para machucar.

Hoje a gente bebe pra ver se o álcool apaga essa mania besta de esperar por quem já esqueceu o meu número.

Hoje a gente bebe pra ver se o corpo esquece os caminhos que os pés não podem mais trilhar.

Há um ano, a gente estava fazendo planos pro futuro; hoje, eu sou o cara que torce pra essa data passar logo, como quem espera uma tempestade forte passar debaixo de um telhado velho.

Hoje a gente bebe por essa liberdade que eu nunca pedi pra ter, mas que agora sou obrigado a carregar nas costas.

O meu compasso hoje foi desacelerando conforme a noite chegava, mas sem pânico.

Hoje a gente bebe por essas emboscadas que a vida arma sem avisar, e por quem consegue continuar dirigindo mesmo com o farol fechado por dentro.

Hoje a gente brinda pelas mensagens que a gente tem a decência de não mandar — porque às vezes o maior gesto de amor que resta é o silêncio que a gente escolhe segurar.”

Hoje o brinde é diferente: é por quem segura os outros de pé e nunca pede pra ser segurado de volta.

O compasso hoje não foi só meu. Foi teu também — só que o teu ninguém escreve.

O compasso hoje desafinou de um jeito mais quieto, tipo quem finalmente entende que o relógio de verdade não é o meu.

Hoje o brinde é esquisito, eu sei, mas é sincero: por esses minutos roubados de alívio, mesmo que a gente ainda não saiba se merece ficar bem.

O compasso hoje quase acertou o tom sozinho. Por uns minutos, ele nem lembrou que tava tocando uma música triste.

Hoje o brinde é cru: por essa raiva chegando atrasada, mas chegando — porque talvez seja o primeiro passo pra eu parar de só sentir saudade e começar, enfim, a sentir tudo o resto também.

O compasso hoje não desafinou. Ele mudou de ritmo. Ficou mais seco, mais duro, tipo bateria sem melodia por cima ainda.

O compasso hoje não desafinou por causa dela. Desafinou por causa do tempo mesmo — esse troço abusado que insiste em provar que oito anos não somem só porque a gente resolveu seguir em frente.

Hoje a gente brinda pelas lembranças que aparecem sem avisar — e por aprender, aos poucos, a olhar pra elas sem se afogar de novo.