Dói
A coragem poética é dizer o que dói sem glamour. É admitir feridas no verso e na vida concreta. Quem mostra o corte sem pedir consolo cria afinidade. Pois a verdade desnuda convida outros a se despirem também. E juntos aprendemos que a humanidade é um círculo de cuidados.
A saudade existe porque a alma não
esquece o que foi verdadeiro, ela dói, mas também afaga, e eu aceito essa dualidade
com maturidade, pois amar sempre
deixa marcas.
O riso escapa às vezes como quem rouba um remédio proibido. Dói o riso quando sei o preço que ele tem: esquecer por instantes. Mas prefiro esses lapsos de luz a um cotidiano contínuo de negrume, pois há beleza mesmo nos intervalos em que a alma consegue respirar.
O desapego me veio aos poucos, como quem descasca fruta. No começo dói, depois suaviza o gosto amargo. Libertar é reconhecer que não trazemos nada do mundo. Só algumas estrias e memórias para contar. E isso basta para sermos ricos de experiência.
Amar foi bonito enquanto durou,
mas sobreviver depois exige outra coragem. Porque lembrar dói mais do que perder, e esquecer parece uma forma de traição. Ainda assim, sigo, ferido, lento, verdadeiro, aprendendo que viver também é resistir à própria saudade.
Escrever dói porque exige que a gente revire o lixo emocional em busca de algo que ainda preste, de algum resto de luz que não tenha sido consumido pela ferrugem. É um garimpo em um lixão de memórias, onde a joia mais rara é apenas a coragem de não desistir da busca.
Carrego lembranças que ainda latejam como feridas abertas, mas escolho não fugir do que me dói, pois tudo o que enfrentei me ensinou a arte de permanecer quando o abismo parecia o único destino lógico. O silêncio que guardo não é um vácuo de sentimentos, é um reservatório de tudo aquilo que as palavras não dão conta de traduzir, um grito de socorro ou de triunfo que só encontra eco na minha própria alma.
- Tiago Scheimann
Existem dias em que o coração não quebra, apenas se torna mais nítido, e essa nitidez dói como luz em olhos cansados.
