Deserto
Eu não posso dizer que quem já esteve no deserto seja melhor ou pior do que quem lá nunca esteve. Cada um tem a sua jornada e deve ser respeitado por isso. Sábio é aquele que aprende a levar a vida com leveza independente do tempo lá fora, é aquele que sabe que a tempestade é passageira e que pode aprender com ela. Quando estiver no olho do furacão, respire fundo várias vezes e procure entender que tudo é do jeito que tem que ser... Acalme seu coração e abra a mente para o novo, você verá a saída!
A solidão é o único deserto capaz de restaurar, aquele que, longe de ser uma condenação, se apresenta como um espaço sagrado de reinvenção.
Quanto mais se bebe das águas do conhecimento, mais insaciável se torna a sede — e mais deserto se faz o caminho. A filosofia, esse deleite sombrio que Nietzsche chamou de segundo prazer, não consola: fere. Pensar é filosofar, e filosofar é olhar o abismo até que ele revele, não verdades confortáveis, mas as ruínas da ilusão. A filosofia não oferece felicidade; ela é uma lâmina silenciosa que rasga o véu da ingenuidade humana, uma bomba lançada contra os alicerces da estupidez satisfeita. Quem pensa, sangra. E quem sangra por ver demais, aprende que há mais verdade na tristeza lúcida do que na alegria cega.
Nascer é ser lançado ao deserto da vida. Viver é aprender a ouvir o vento que embala a dança do viver. Morrer é tornar-se o próprio vento.
O deserto e as três verdades…
O deserto é mais do que um lugar; é uma revelação. Não há máscaras sob o peso do sol, nem distrações que amortecem a dureza da existência. Ao atravessá-lo, você descobre três verdades que, até então, eram meras sombras de ideias: quem é amigo, quem é você, e quem é יהוה. Cada uma dessas verdades surge como uma miragem que, ao invés de enganar, desvela.
O amigo, no deserto, não é aquele que caminha ao seu lado, mas aquele que permanece mesmo quando a jornada parece interminável. É ali que a palavra “aliança” ganha corpo, onde vínculos forjados no conforto das cidades desmoronam diante da areia movediça da adversidade. O amigo verdadeiro não oferece promessas vazias, mas compartilha o silêncio do cansaço, a água escassa e a esperança persistente. Essa descoberta não é suave; é uma peneira implacável que separa o ouro da poeira.
Depois, o deserto volta seus olhos para dentro. Quem é você? A pergunta ecoa como o vento entre dunas, insistente, desconfortável, impossível de ignorar. No isolamento, sem os adornos do mundo, você encara sua essência. Suas forças e fraquezas emergem com brutal clareza; seus medos, antes disfarçados por conveniências, tornam-se companheiros constantes. O deserto não aceita dissimulações. Ele te obriga a reconhecer o que você carrega e o que te carrega. É um espelho que não reflete a imagem que você gostaria de ver, mas a verdade que precisa enfrentar.
E então, quando todas as ilusões se dissipam, resta apenas o silêncio. É nesse vazio que você encontra יהוה. Não como uma voz audível ou uma figura tangível, mas como a presença que preenche o que parecia estar perdido. Ele não surge como resposta direta às suas perguntas, mas como a certeza de que o caminhar tem sentido, mesmo que você não o compreenda por completo. O deserto, afinal, é a metáfora da existência: um lugar inóspito onde a fé é a única bússola confiável. É ali que se entende que יהוה não é um conceito distante ou uma ideia abstrata, mas o próprio sustento que mantém a vida nos dias mais áridos.
Sair do deserto é sair transformado. Amigo, identidade e divindade deixam de ser apenas palavras. Tornam-se verdades vividas, não porque você as escolheu, mas porque o deserto o escolheu para aprendê-las. E, ao final, a poeira que ficou para trás não é sinal de perda, mas de tudo o que foi refinado.
A efêmera aclamação alheia, qual miragem no árido deserto da existência, não constitui o fulcro da beatitude genuína. Outrossim, a verdadeira realização emana da íntima convicção de haver exercido a humanidade em sua plenitude, reverberando empatia e compaixão em um éon marcado pela insensibilidade.
A noite escura da alma
No deserto escuro de uma alma sem força.
Não é possível encontrar o caminho, nem saída, nem entrada.
Não se sente o cheiro doce da flor, nem o refrescante toque da garoa.
A lua não brilha perto, o sol já não esta repleto.
As palavras geram ecos, os sistemas neurais já não subsistem a ociosidade cognitiva do desencorajamento cerebral.
As decepções não emocionam mais, o inconformismo não traciona a vontade.
As decepções não geram traumas capazes de esgotar a dor do vazio.
A vida carrega em si o peso de um globo oco, escuro e frio.
O salvador não pode salvar aquele que nem vive nem morre, nem dorme, nem sonha.
No escuro não há vida, nem luz, nem produz, só há dor, nem amor, nem calor, nem valor.
No escuro não há depois, nem talvez, só o fim.
Mesmo assim, escuro não tem fim, nem inicio, escuro é obtuso, é nada.
O escuro transcende a imagem, os sentidos, o escuro é em si mesmo a razão.
No escuro não se tem paixão, nem valor, só pavor.
O escuro não tem alma, mas tem a calma e o barulho silencioso do desespero.
No escuro, não existe abandono, nem perseguição, nem desanimo, nem angustia, só o horizonte imóvel, estático, apático.
A escuro anoitece a alma.
Provérbios Bíblicos: “melhor é viver no deserto, do que com uma mulher briguenta e amargurada”. Nos dias de hoje tem a leitura misógina, adequado substituir mulher para alguém. Agora, não ter nem no deserto o refúgio: “é pedir a Deus que o mate e ao diabo que o carregue”.
Antigamente, o eremita era de fato um ermitão. Isolado em seu eremitério, lugar deserto ou caverna em uma montanha inóspita, cumpria penitência em seu plácido ostracismo até o dia em que encontrou um celular e, pior, funcionando. Coitado, foi abduzido pela humanidade.
Você hoje esta na terra prometida, mas antes vivia na terra sofrida, no deserto a sofrer. Mas a sua ingratidão te faz esquecer de quem um dia te deu a mão na travessia do rio Jordão.
Tocando minha boiada enfrentei os perigos da estrada, no sertão selvagem e deserto vi a morte de perto, enfrentei vacas brabas, fugi de cornadas,coices e chifradas, lacei muitos bois xucros na invernada, mas não fugi do laço de uma Mulher apaixonada.
Naquele sertão deserto, no meio da campina, vi o amor de perto no olhar de uma menina, meu coração disparou, uma abelha pousou na flor do capim e um passarinho cantou para anunciar o nosso amor sem fim.
estou no deserto
e não vejo nada por perto
não consigo mais andar
a sede veio me buscar.
estou no calor
sentindo enorme dor
aqui no coração
fico olhando a imensidão.
estou aqui deitado
permaneço calado
não bebi, quebrei a taça
nesse sono me abraça.
correr na rua
embaixo da chuva
molhar o deserto da alma
tirar a secura da boca
matar a sede de ser feliz
e tirar o gosto amargo
que acompanha nossos dias.
