Desejo Morte

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Perante a morte, os códigos penais convertem-se em cinzas e a toga torna-se mortalha.

A inconstitucionalidade suprema é a própria morte, que abole todos os direitos sem respeitar o devido processo legal.

O réu mais perigoso da história da humanidade é o tempo, e sua condenação perpétua é a morte.

O Direito delimita o território dos vivos; a morte é a abolição implacável de todas as fronteiras.

Julgar os vivos é ofício dos homens; a morte é a sentença que o universo profere sem advogado de defesa.

O contrato social é assinado com a tinta da vida e cancelado pela caligrafia anônima da morte.

O Direito é a frágil tapeçaria com que cobrimos o abismo; a morte é o vento que rasga a trama e revela o nada.

No intervalo entre o nascimento e a morte, construímos histórias para convencer a nós mesmos de que nossa passagem pelo mundo possui significado.

Talvez a morte não seja o fim da existência, mas certamente é o fim de muitas das certezas que construímos sobre ela.

O medo da morte criou muitos deuses; a consciência da morte criou também a filosofia.

Prometer um paraíso depois da morte é o jeito perfeito de anestesiar a luta por justiça aqui e agora.

Nenhuma Constituição precisa decidir se existe vida após a morte; precisa apenas garantir que ninguém seja juridicamente obrigado a afirmar que sabe a resposta.

Encontra algo que ames o bastante para que, no fim, até a morte pareça apenas o último capítulo de uma vida bem vivida.

Existir é escolher; e toda escolha verdadeira contém uma pequena morte, porque cada caminho assumido sepulta os inúmeros caminhos que poderiam ter sido.

A morte é a possibilidade extrema que encerra todas as outras possibilidades e, justamente por isso, confere gravidade à existência.

Filosofar talvez seja aprender a contemplar a morte sem permitir que ela transforme a vida em mera antecipação do fim.

Amar alguém é afirmar, contra a evidência da morte, que aquela existência não pode ser reduzida à condição de algo passageiro e descartável.

O homem teme a morte, mas deveria temer também sobreviver às próprias convicções depois que os fatos já as sepultaram.

Temer a morte como certeza é uma forma de arrogância diante do desconhecido; ninguém possui conhecimento suficiente para transformar o mistério em sentença.

O homem verdadeiramente livre não organiza sua existência em torno do medo da morte; procura compreender a vida com intensidade suficiente para não desperdiçá-la.