De Repente Nao mais que Derepente

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Nunca viram ninguém triste?
Por que não me deixam em paz?
As guerras são tão tristes,
E não tem nada demais!

O ontem não é nosso para recuperar, mas o amanhã é nosso para ganhar ou perder.

Recebi no coração o golpe de misericórdia. Ah! Eu não o havia previsto.

Respeite os limites

Você já tentou beijar o próprio cotovelo? Não? Então tenta, você vai se contorcer todo e ele não se aproximará um só centímetro de sua boca. Já tentou lamber a ponta do seu nariz? Não? Nem tente, você vai se babar todo e mesmo assim não vai conseguir.

Estive pensando por esses dias em certos limites que a vida nos impõe, muito difíceis de serem ultrapassados. Há limites por toda a parte, regras a serem obedecidas, fronteiras a serem respeitadas, assim como cada um de nós temos as nossas particularidades e obrigamos aos outros o respeito devido. Pense agora, o que te faz perder o controle, sair da linha, da área segura de si mesmo? Eu respondo por mim, enquanto você se analisa, ok?

Não tente interromper minha noite de sono, eu acordo pisando nas tamancas. Esperneio e grito de tanto ódio que ninguém é capaz de conseguir ter uma noite de sono tranquila depois, você jamais me reconheceria. Se quiser conversar comigo, ser meu amigo, seja objetivo. Detesto conversa mole pro meu lado, não acredito muito em quem fala manso, baixo e pausadamente. Parece que arquiteta as palavras no pensamento antes de expor os argumentos. E eu não tenho muito tempo a perder com quem não sabe o que de exato dizer.

Não ande devagar na minha frente, odeio gente lerda. Tanto espaço pro lado de lá, tem que ficar logo aqui, atrapalhando minha passagem!? Eu sou um pouco estressada, está bem, eu admito, eu sou muito estressada. Não preciso estar naqueles dias para deixar florescer toda ira daqui de dentro.

Não me apego fácil a nada nem a ninguém e o desapego pra mim é a parte mais fácil da vida. Eu não vou levar nada daqui. Nu eu nasci, nu vou partir. Essa é uma certeza que muita gente esquece. Não perco tempo com coisas inúteis nem com pessoas inatas, que ainda não nasceram para a realidade da vida. Não enxergam um palmo à frente sem que precisem de ajuda.

E eu não tenho paciência para ensinar, é verdade que não nasci sabendo, mas tudo o que hoje sei da vida, aprendi sozinha, com os próprios esforços, com os próprios erros. Tenho personalidade mais do que própria, auto-estima mais do que sarada, por isso é que talvez me chamam de arrogante e prepotente, mas não é isso. Aprendi a lutar pelos meus ideais e a depender só de Deus para atingi-los e algumas pessoas se incomodam por você não precisar dos favores delas. Elas só se encontram como indivíduos e só se acham úteis quando são requisitados por alguém, quando clamam a elas por socorro, e eu aprendi desde novinha a não acreditar em promessas falíveis nem em pessoas prestativas demais.

Pessoas não se doam de graça, sem interesses, aquelas que muito se dão, muito cobram, muito pedem em troca, e acaba saindo mais caro do que ter ido à luta sozinho.

Se encontrar comigo no ônibus e quiser sentar ao meu lado, sente com calma, e não invada o meu lado do banco. Você é um e não dois, respeite os limites do meu corpo. Respeite o seu também. Não queira entrar numa calça 38 se você veste 42. Ame-se em primeiro lugar e aí sim, estará apto a amar alguém.

Nunca me interrompa quando eu estiver falando, seja lá onde for, como for e com quem for. Não seja mal educado e inconveniente, não se precipite em participar se não for convocado à conversa. Detesto pessoas ignorantes e entronas, isso me tira do sério, me faz perder a classe.

Não grite comigo. Não aumente o som da TV. Apague as luzes. Feche a janela. Não me irrite. Não me sufoque. Não me compare. Não me desafie. Não me toque. Não me subestime. Respeite os meus limites!

Eu não vou por os fundamentos da minha fé em pequenos deuses que podem ser destruídos em uma era atômica, mas em um Deus que tem sido nosso socorro desde as eras passadas, e nossa esperança para os anos que virão, e nosso abrigo no tempo da tempestade, e nosso eterno lar. Este é o Deus em quem eu estou colocando o fundamento da minha fé. Este é o Deus que eu rogo a vocês para adorarem nesta manhã.

Há metafísica bastante em não pensar em nada.
O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

(in O Guardador de Rebanhos)

Deus nem sempre vai responder às suas orações com “Sim” ou “Não”. Às vezes a resposta é “Espere”.

O que é preciso é não ir demais contra a onda. A gente faz como quando toma banho de mar: procura subir e descer com a onda. Isso é uma forma de lutar: esperar, ter paciência, perdoar, amar os outros. E cada dia aperfeiçoar o dia. Tudo isso está parecendo idiota... Mas até que não é.

Clarice Lispector
Todas as cartas. Rio de Janeiro: Rocco, 2020.

Nota: Trecho de carta a Elisa Lispector e Tania Kaufmann, escrita em 12 de maio de 1946.

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Só não existe o que não pode ser imaginado.

Secaram as sementes no silêncio da rocha e mineral. As palavras que não chegamos a gritar, as lágrimas retidas, as pragas que se engolem, a frase que se encurta, o amor que matamos, tudo isso transformado em minério magnético, em turmalina, em ágata, o sangue congelado em cinábrio, sangue calcinado tornado galena, oxidado, aluminizado, sulfatado, calcinado, o brilho mineral de meteoros mortos e sóis exaustos numa floresta de árvores secas e desejos mortos.

Anaïs Nin
NIN, A., A Casa do Incesto, Assírio e Alvim, 1993

Era disso que eu tinha medo: do que não ficava para sempre.

Escrever é não esconder a nossa loucura.

Arnaldo Jabor
A invasão das salsichas gigantes. São Paulo: Objetiva, 2001.

Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas. Também escrevi em meu tempo cartas de amor. Como as outras, ridículas...

Corpo, meu velho companheiro, nós pereceremos juntos. Como não te amar, forma a quem me assemelho, se é nos teus braços que abarco o universo.

Estar apaixonada não é quando tudo fica lindo. É quando todos os outros ficam feios.

Algumas coisas não precisam fazer sentido, bastam valer a pena.

A intuição, não testada e não comprovada, é uma garantia insuficiente da verdade.

Eu não sou boa, eu não sou má, eu sou justa e cada um tem de mim o que merece.

No mundinho habitado pelas crianças, seja quem for a pessoa que as cria, não há nada que seja percebido com mais clareza, nem sentido com mais profundidade que uma injustiça.

Refugio-me nas rosas, nas palavras. Pobre consolação. Estou inflacionada. Não valho nada.

Clarice Lispector
Um sopro de vida. Rio de Janeiro: Rocco, 2015.