Cronicas de Luiz Fernando Verissimo Pneu Furado
Não é trocando um governo anárquico por outro autoritário que conseguimos resgatar o estado de direito. Historicamente as grandes rupturas com força para gerar transformações sociais definitivas ocorreram de baixo para cima, e não de cima para baixo, assim que se chegue ao ponto de saturação como reação espontânea aos abusos dos dois extremos. Esqueça-se, portanto, a ideia de que colocar no poder uma força contrária e igualmente sem freios para combater os excessos cometidos antes dela será solução para alguma coisa, pois tudo se resume a inverter tão somente a natureza do problema.
Já me perguntaram a razão de tantos pensamentos lançados sem destino certo. Respondo que não escolho fazê-lo, pois que brotam de mim como lavas de um vulcão a que não resta alternativa senão lança-las para fora. Assim como ao pensador, ao vulcão não importa que distância alcançam, e menos ainda o tipo de terra que cobrem. O que a ambos suscita é que a mesma lava que parece tão destrutiva no momento da erupção, ao longo de toda a eternidade continuará fertilizando o solo que a acolhe.
A tirania de direita jamais se mostrará como alternativa de combate à tirania de esquerda ou vice-versa, pois que ambas se mostram igualmente aviltantes e contrárias à dignidade humana, independente de qual seja alçada ao poder. Daí que a batalha do homem livre – que lhes oporá uma resistência ferrenha e incansável – será sempre a travada entre a liberdade e a opressão, entre seus valores e a concupiscência, e não entre os extremos que se enfrentam, já que estes passam, e o que permanece é sua consciência.
Definir-se como de esquerda ou de direita já representa, por si só, flutuar numa folha que carrega formigas à deriva, dependendo do lado que o vento sopra, jogando-as de um lado para outro ao sabor das correntes que ele cria e desfaz sucessivamente. A mesma direita que chega como solução é a que conduz militares à mais torpe e cruel das ditaduras, e a mesma esquerda que muitos veem como libertadora, via de regra termina numa cúpula do poder que subjuga uma legião de miseráveis submetidos à sua tirania. A única forma de estar à salvo é permanecendo fundeado pela âncora do bom-senso a uma distância segura das inconstantes e revoltosas correntes dos “ismos”. De sua bóia firmemente presa ao fundo é possível tanto impedir que alguns barcos naufraguem quanto não afundar com os que fingem não ver o furo no casco.
Por recusar-se a negar o que sabia ser verdade, Giordano Bruno morreu pela fogueira. Já Galileu Galilei, 16 anos mais tarde e pelo mesmo motivo, optou por retratar-se para não ter o mesmo destino. Ainda que minha rebeldia me aproxime mais da postura de Bruno que de Galileu, a inteligência me alerta que nenhum mártir até hoje pôde constatar por si mesmo que o idiota não era ele.
6. Você pode levar coisas admiráveis ao mundo com as ideias que desenvolve, e até fazer com que a humanidade inteira se beneficie delas. Mas no momento em que se junta a uma segunda pessoa e dá um nome ao projeto em que acreditam, pronto: está criado mais um “ismo” do qual milhares irão se apropriar e transformar em bandeira para perseguir e destruir a todos que não a vejam como a única que pode salvá-los.
A percepção da realidade não é uma escolha, mas um despertar espontâneo e automático como o que nos é oferecido todas as manhãs, após uma noite de repouso obrigatório: os olhos se abrem e somos avisados pelo cérebro de que acordamos. Porém, fica na decisão de cada um erguer-se ou aceitar o convite da preguiça para voltar a dormir por quanto tempo consiga. Mas a paciência da mente cósmica também é limitada: em dado momento terá que decidir entre levantar-se ou aceitar o coma de modo irreversível.
Houve uma época em que apegar-se a convicções imutáveis se mostrava como sinal de se ter a posse da Verdade. Em nossos dias, porém, apenas exibe seu defensor como afundado numa ignorância à prova da verdade em permanente construção que vai se revelando à medida que a humanidade avança, e onde o Conhecimento, a cada novo momento, atinge patamares nunca antes alcançados, só restando a alguns acabar pisoteados pelo futuro.
Pensadores são eventualmente confundidos com julgadores. Há grande distinção, porém, entre julgamento e constatação: enquanto que o pensador identifica a fonte de risco como meio de proteção própria ou de terceiros, o julgador se mostra incapaz de distinguir entre realidade e preconceito, quando então acrescenta ao papel de juiz o do carrasco, a quem cabe aplicar a pena ao seu condenado.
A polaridade facilita o trabalho dos que adoram caixas cranianas ocas, que correm para o lado que paga mais sem dar a mínima em ser arrebanhadas num dia e chutadas no outro. Os pagadores sabem que desse vai-e-volta é que elas tiram seu volátil sustento, e como o plano dos senhores do momento não lhes diz coisa alguma, ao aliciador bastará apenas colocar uma fatia a mais de mortadela no sanduíche.
A única opção seria mesmo apostar na cruz para fugir da espada? Em se descartando qualquer delas traz-se à luz alternativas brilhantes que não surgiriam sob outra circunstância. O que chega como catastrófico num primeiro momento, no seguinte pode não apenas se apresentar como mera alternativa, mas como a solução definitiva que estivera mascarada o tempo todo pela zona de conforto. E então é quando os apavorados percebem que poderiam ter se poupado, e os que escolheram a única alternativa do momento descobrem o quanto foram idiotas!
O que mais quero para mim? Seguir até o último dia de vida sem ninguém me ditando o que devo vestir, comer, e se devo ir ou não à qualquer lugar; se “o melhor para mim” é sopa de legumes ou hambúrguer, a que horas vou dormir ou de que lado da cama deitar. Tem coisa melhor no mundo para um libertário do que permanecer senhor absoluto do próprio destino enquanto estiver vivo?
O efeito-manada é um dos males que mais assolam a humanidade, e pelo qual tantas ignomínias são praticadas. Os vultos que mudaram o curso da história surgiram por conta de ideias solitárias transformadas em gigantescas alavancas em vez de bandeiras, e é isso que difere um gênio autêntico do mero fabricante de ideias atrás de prestígio e dinheiro, antes de um legado à posteridade.
O dia em que todo indivíduo recusar-se a abrir mão de sua autonomia enquanto sujeito de escolhas, estará declarada a extinção definitiva e irreversível de toda tirania, despotismo e liderança focada num tipo de poder cujo objetivo não vai além de ampliar ao máximo o número de seus servidores.
Direita, centro ou esquerda são pontos alinhados e equidistantes que mostram lados conflitantes de um mesmo todo, aprisionados em uma caixa que, por sua vez, tem dois outros lados: um é o de dentro – onde os primeiros se encontram – e o outro é o de fora, único que garante mantermos intacta a nossa autonomia.
Há aquele tipo de pessoa que se torna nociva à sociedade pelas maldades que leva diretamente a milhares e, por vezes, a milhões de pessoas. Mas há outras que não o fazem de forma tão explícita: elas vão aos poucos despertando em doses homeopáticas todos os demônios que o ser humano traz adormecido dentro de si para disseminar, sem controle, a maldade da fonte em cada indivíduo do qual vão se apossando, dia após dia. Enquanto que, nas do primeiro tipo, o mal costuma ser extinto com sua morte, nas do segundo a ação é transformada num legado maldito que continua reproduzindo o mal e fazendo vítimas ao longo de muitas gerações, e que as deixa tão malignas e potencialmente tão destrutivas quanto o espírito que as gerou.
A partir de determinada idade o mundo nos dá uma espécie de “carta de alforria“ com grau progressivo de liberdade em relação ao que sempre quisemos, mas não tínhamos permissão para colocar em prática, e a sensação é a de se estar sendo abonado por tantos anos cumpridos de “detenção social”.
O combate implacável ao "efeito manada" – que cerceia o livre exercício do pensamento – é o caminho mais seguro para se fugir à manipulação usada como forma de garantir o poder. Todo indivíduo deveria ter as próprias convicções como seu bem mais sagrado e inviolável, recusando-se a delegar tudo que não se mostre em estreita sintonia com elas e preservar a autonomia enquanto senhor absoluto de suas escolhas. A lógica deveria ser a única coisa colocada à frente das escolhas pessoais.
De que se valem os déspotas para obtenção e manutenção do poder? Simplesmente aproveitar-se da ignorância que lhes facilite a livre manipulação da vontade alheia, impondo a outrem decisões que não passem pelo senso crítico de pretensos apoiadores de modo a respaldar decisões partidas da única cabeça pensante na obtenção de objetivos espúrios.
Se precisas de uma cartilha para definir teu rumo, melhor escreve-la tu mesmo, e ainda fazê-lo a lápis tendo uma borracha na outra mão. O cenário de transformação torna obsoleto qualquer caminho permanente. Daí porque somente trilhas – em vez de trilhos – podem reduzir riscos por permitir uma eventual mudança de rumo ou se tomar atalhos quantas vezes for necessário para não se perder a corrida para a história.
