Cronicas de Luiz Fernando Verissimo Pneu Furado
Se, em meu diálogo com meu Deus interno, ouvisse dele que, por algum mérito, eu teria direito a uma graça, vêm-me à consciência ter recebido muito mais créditos do que débitos em toda a história escrita até aqui, não havendo nada mais a pedir. Assim sendo, a única coisa que ainda me restaria esperar seria um último momento sereno, entendendo isso como livre de sofrimento para mim a para os que deixo ao transpor meu portal. Mas sou capaz de assimilar que pelo entendimento de Deus essa serenidade se apresente de uma forma diferente da que concebi.
A incontestável evidência da perda de parâmetros de análise pelo extremista se faz visível quando se lhe tentam descrever outras possibilidades onde – por mais racional e até quanto mais lógica se apresentem – a reação se faz mais violenta e a hipótese mais rechaçada, passando a ser vista como uma declaração de guerra.
Não há nada que me assusta mais do que o extremismo. Mais do que qualquer regime político, mais do que qualquer iniqüidade – que são temporais – o extremista me assusta pela perenidade do entendimento de que a coexistência com qualquer hipótese diferente da sua é inaceitável, e sua causa pessoal o transforma naquele tipo de gente para o qual o fim justifica todos os meios.
Quando jovens temos a pretensão de acreditar que nosso protagonismo é decisivo para as mudanças pela qual a humanidade passa, quando não é bem assim. O mundo seguirá seu caminho evolutivo independente de nossas bandeiras, da mesma forma que a terra hoje não é mais o centro do universo não porque Galileu ousou contrariar o status quo da época, mas porque a ciência prevaleceu. Pela visão sistêmica, os mitos de ontem serão sempre as verdades de amanhã, independente da vontade dos que ocupam trincheiras opostas, que nada mais fazem do que acelerar ou retardar um pouco o Samsara da vida.
Não se confunda o imbecil com o boçal. Imbecilidade é inteligência em proporção mínima, enquanto se pode ter pessoas tão inteligentes quanto boçais na mesma proporção. Boçalidade é quando o indivíduo exibe tão arrogante, estúpida e grosseiramente valores típicos de um imbecil que não deixa dúvidas de que os entende como a melhor de suas qualidades.
Em nome de uma suposta igualdade de direitos, pobreza e falta de educação são rotineiramente confundidas, como se não aceitar o convívio com gente mal educada fosse o mesmo que rejeitar os mais pobres. Existe tanto gente humilde preparada para o convívio quanto as de posses que armam barraco, e vice-versa. Grosseria é grosseria, venha de onde vier! Daí que condenar a do rico porque é rico, e impor aceitar-se a do pobre porque é pobre, será sempre preconceito em ambos os casos.
A única posição firmada em caráter inegociável e permanente que mantenho na vida é a que toca ao meu esquema de valores. Todas as demais, inclusive as inaceitáveis até então, podem ser mudadas a partir do momento em que me provam que se mostra mais justa, lógica e, principalmente, com mais sentido na comparação com anterior.
Cada primeiro do ano é sempre uma oportunidade de nos renovarmos. Embora mudar não requeira uma data, o inicio de um ano pode ser o marco da mudança adiada por falta de estímulo. Tudo fica mais fácil quando definimos nosso DIA UM... É como uma nova chance oferecida já que, dos dez passos que nos separam de um objetivo, os nove que se seguem são apenas a METADE do caminho!
Ao longo da vida todos cometemos muitos erros. Faz-se necessário então dedicar o tempo que nos resta para corrigi-los ou, ao menos, nos redimirmos com quem sofreu com eles. Somos os únicos responsáveis por aqueles a que demos causa, e é neles que devemos concentrar todos os esforços de remissão. Sofrer pelos que outros geraram, além de absolutamente inútil, apenas os amplia pela falta de controle sobre os rumos que tomaram.
Tem pessoas que se acham inteligentes mas agem como imbecis completos, adotando um comportamento arrogante de poder por meio de usurpação ilegítima sem qualquer base na realidade, já que dependem de todos e se comportam como se não dependessem de ninguém. Com ações calhordas ainda conseguem afastar os poucos que poderiam valer-lhes para estender um pouco mais o momento da queda definitiva e claramente previsível.
Inacreditavelmente, pessoas que constroem castelos de cartas os cercam com muros, achando que estarão tornando-os impenetráveis àqueles que poderiam derrubá-los. Se, ao invés disso, construíssem pontes por todos os seus lados, os de fora poderiam reforçar-lhes as estruturas para que não caíssem, pois que nem os ventos que vêm de cima respeitam a barreira dos muros erguidos.
O amor incondicional pode ser dignificante para quem o dá, mas nada meritório para quem o recebe. Ainda que revele inquestionável capacidade de caridade e compaixão de seu doador, não contribui para retirar o beneficiado de sua pequenez, antes condenando-o a permanecer em perene processo de vermificação por conta da relação de dependência doador/receptor. A plenitude do amor é atingida quando o oferecemos àqueles que nos despertam admiração tal que simplesmente não conseguimos represá-lo dentro de nós, pois que o conquistaram por seus próprios méritos. E como tal, este tipo de amor se faz muito mais legítimo, pois que invariavelmente tanto irá despertar quanto oferecer mutuamente o que houver de melhor em ambos.
Que bom quando o significado de “amigo” deixa de estar atrelado à quantidade de acessos que as redes sociais definem como indicador de sucesso. O pequeno círculo que permanece, resultante dessa filtragem, assume um valor incalculável e inversamente proporcional ao sentido de perda que acompanha os que avaliam a si mesmos pelo número de “curtidas”.
Todo mundo tem direito de interromper um convívio por não gostar de uma pessoa e senti-la interferindo no seu emocional. Mas o desistir de alguém se mostra mais sensato quando a razão, e não a emoção, é o que norteia o rompimento, ao se concluir que a natureza irreversivelmente distorcida do outro nada nos acrescenta, tornando a distância a única garantia de preservação do bem maior, que é a nossa paz.
No primeiro momento de nossas vidas – o mais equivocado deles – nos afastamos das pessoas que não nos dizem o que queremos ouvir; num segundo momento passamos a romper com as que não vivem para nos cativar; no limiar da meia-idade tendemos a excluir aquelas que nos criam dificuldades; mas é a sabedoria da maturidade que nos leva a concluir que deve ser a irreversibilidade, e não a imperfeição, o critério de decisão entre as que saem e as que ficam.
Contrariando várias teorias psicanalíticas, valorizar o recolhimento pode indicar ampliação do significado atribuído às coisas simples em vez de acreditar que todas as importantes estão fora de alcance e precisam ser buscadas em algum lugar. Invertendo o estabelecido, esta incessante necessidade de buscar fora pode apenas indicar a incapacidade de encontrá-las em si – ou de entender formas que escapam aos padrões ditos “normais” de felicidade – enquanto a referência deveria ser o quanto cada qual se sente bem com sua própria receita.
Não existe nada mais improvável que a alma humana... E mais inútil ainda é tentar explicá-la. Que nunca se duvide do poder de influência de uma pessoa sobre outra, mesmo quando sua inteligência prognostica o contrário. Daí porque escolher não ter ídolos, nem líderes ou paixões pode ser o caminho do meio que aparece para nos redimir de nossos medos, e talvez a alternativa para a ovelha do aprisco moldada para reproduzir o pensamento de seu pastor.
Algumas pessoas não possuem dentro de si qualquer sentido de generosidade ou compaixão para oferecer a outrem um benefício espontâneo que lhes aflora da alma. Até mesmo suas “bondades” são cuidadosamente planejadas para resultar em um ganho mais à frente, onde os favores prestados não passam de investimentos naquilo que já trazem em mente para o período da “colheita”. Depois que o descobrimos tanto o perdão deixa de ser uma virtude como temos certeza de que não lhes fará qualquer diferença, exceto a de poder continuar nos usando.
Quem foi que disse que a primeira impressão é a que fica? Conheço quem passou toda sua existência tentando aplicar o golpe perfeito, e na última oportunidade o consegue... E sai como mocinho desfrutando de todas as prerrogativas dos heróis, onde os golpes de uma vida inteira são zerados porque se mostrou bastante convincente no último.
Não se chame de "crítica construtiva" uma opinião não solicitada que se apresente como condição para o resultado acontecer. Por definição, “crítica” é a análise de um feito com o intuito de contribuir com sua melhoria. Mas quando exercida sobre o momento da execução arrogando-se o direito de alterar a concepção de seu criador e subtrair-lhe a autonomia, deixa de ser contribuição e passa a ser censura.
