Conversa
Netinho, curioso, pergunta ao seu vô:
— Vovô, por que você conversa com as estrelas e lhes dá nomes?
Resposta:
— Como as estrelas estão aqui e em todos os lugares do universo, são minhas mensageiras e, para não parecer mal-educado, eu as chamo pelo nome.
Mensageiras?
— Sim, elas levam minhas mensagens para aqueles que o vovô tanto gostou e amou, mas que partiram para muito longe.
E você recebe resposta vovô?
— Sim, melhor que no WhatsApp: diretamente no meu coração.
CONVERSÊ BÍBRICO
Demétrio Sena - Magé
Na longa fila do banco, a conversa entre dois idosos evangélicos, aparentemente conhecidos um do outro, estava bem animada:
- Paz do sinhô, irmão! Faz tempo que nóis não se vê!
- A paz, irmã! Sube que a sinhora tá com netinho novo! É home, né?
- isso, irmão! É um varão abençoado!
- Qual é o nome dele, irmã?
- É bíbrico, irmão; quero vê se o sinhô adivinha!
- Hum... é Jusé? Sadraque? Abidinego?
- Não. Vô dá só uma dica. É o nome da pessoa que botô os animá na arca de Noé!
- Aí a sinhora já disse! O nome dele é Noé!
- Noé? Não, irmão! O nome dele é Abraão! Foi Abraão quem botô os animá na arca!
- Não, irmã; foi o Noé mermo; ajudado pela famía!
- Nada disso! Eu sô professora da escola dominicá! Sei o que tô dizeno!
- Irmã, me adescurpe; mas acho que a sinhora tá inganada...
Foi, não foi; não foi, foi; parecia o poema OS SAPOS, de Manuel Bandeira. O diálogo foi esquentando, com ambos querendo saber mais que o outro, até que um senhorzinho franzino, enfiado em um terno laranja e com cara de veterano em assuntos "bíbrico" resolveu entrar na questão.
- Os sinhores me adescurpe; mas os dois tão errado. Não foi Abraão nem Noé quem botô os bicho na arca.
- Uai; mas entonce quem foi, se não foi nenhum deles? - Perguntou a mulher, com ares de muita indignação.
- É, eu tomém quero sabê; proque agora fiquei na dúvida. - Desafiou o outro.
- Foi Pilatos, meus irmão na fé... ocês tomém são invangélico, num são?
- Somo sim. Somo - Respondeu a mulher -; mas fala, irmão. Eu nunca sube dessa; que foi Pilatos quem botô os bicho lá.
- Eu tomém não; mas o senhô tem arguma prova? Prova mermo? Bíbrica?
- Os dois pense comigo: quem a Bíbria disse que lavô as mão? Num foi Pilatos?
- É; isso foi, mas... - A mulher tentou questionar.
- Pois entonce, meus irmão! Se Pilatos lavô as mão, foi proque as mão ficô tudo suja, de tanto animá que pegô!
- Agora o sinhô pegô nóis.
... ... ...
Respeite autorias. É lei
Transforme a solidão em solitude: quando o silêncio deixa de ser vazio e se torna uma conversa acolhedora consigo mesmo.
É tolice pensar que se pode vencer o tolo em uma conversa, é mais sábio correr da sua falácia em quanto se pode.
"Em uma conversa onde não aprendemos nada e não ensinamos nada é diálogo de tolos e desperdício de vida"
O homem tolo é bobo até no seu jeito de falar, e se ficar muito de conversa com ele, acaba por se tornar de igual modo.
O bêbado quer se passar por sábio de vez em quando na sua conversa, o melhor e se afastar, se não acabará se passando por tolo, atoa.
Às vezes uma conversa resolve grandes problemas, mas às vezes o silêncio é o que resolve melhor, o discernimento é que dita a regra e o momento.
Numa conversa sobre atitudes certas e erradas, basta uma palavra depreciativa de um dos seus simpatizantes para jogar fora horas sobre o entendimento.
Dez por cento da conversa masculina imaginária, reprimida pelo silêncio e por emoções negativas, poderia ser extinta por uma conversa amigável com a esposa.
Em um diálogo conjugal nunca use a conversa para criticar ou condenar, senão para informar ou construir a vida de seu cônjuge.
Pensar e escrever, em monólogos momentâneos do ser, conversa íntima, lancinante letras que afloram em grafias ocasionais.
