Conselho para uma Pessoa Orgulhosa

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UCRÂNIA
Há nações que morrem duas vezes: uma ao lado dos seus inimigos, outra ao lado dos seus amigos. Havia um terceiro caminho, chamava-se neutralidade, mas ninguém lhes disse.
António da Cunha Duarte Justo

GEOGRAFIA


A geografia é uma consciência silenciosa.


A Europa desorientou-se das suas raízes eurasiáticas,


esquecendo que a ortodoxia russa é sua gémea civilizacional.


E o discurso do ódio, selectivo,


revela apenas a hipocrisia de quem escolhe o que recordar.


António da Cunha Duarte Justo




Era uma vez uma linda borboleta azul. Suas asas brilhavam sob a luz do sol como pequenas joias vivas, e ela adorava voar pelos campos, jardins e bosques, admirando a beleza do mundo.


Em um de seus passeios, avistou ao longe um escorpião caminhando sozinho. Curiosa e gentil como era, aproximou-se para cumprimentá-lo.


O escorpião ficou surpreso. Nunca antes uma criatura tão bela havia demonstrado interesse em sua companhia. Acostumado ao medo e à rejeição, ele não entendia por que aquela borboleta desejava estar perto dele.


- Olá - disse a borboleta com um sorriso. - Posso caminhar com você?


O escorpião, sem esconder o espanto, aceitou.


A partir daquele dia, os dois passaram a passear juntos. A borboleta voava lentamente para não deixar o amigo para trás, enquanto o escorpião caminhava com rapidez para acompanhá-la.


Com o passar do tempo, o escorpião começou a mudar alguns hábitos. Mantinha o ferrão recolhido e imóvel sobre as costas, como se quisesse mostrar que não representava perigo. Parecia até que não possuía ferrão.


A borboleta o levava para conhecer lugares encantadores. Juntos atravessavam jardins coloridos, seguiam por caminhos floridos e observavam o pôr do sol nas avenidas arborizadas.


Para o escorpião, aqueles momentos eram preciosos. Pela primeira vez em sua vida, sentia que alguém gostava dele de verdade.


Até então, conhecera apenas a solidão.


Todos fugiam ao vê-lo. Ninguém desejava sua amizade. O medo que inspirava era maior do que qualquer qualidade que pudesse ter.


Mas a borboleta azul era diferente.


Ela enxergava além da aparência e não demonstrava receio algum. Sua confiança fazia o escorpião sentir-se aceito, algo que jamais havia experimentado.


Os dias passaram, e a amizade entre os dois parecia cada vez mais forte.


Porém, certa noite, algo inesperado aconteceu.


Como de costume, a borboleta adormeceu ao lado do escorpião.


A noite estava silenciosa. Apenas o som suave do vento atravessava as folhas das árvores.


Foi então que o escorpião sentiu um estranho impulso.


Seu ferrão começou a se mover lentamente.


Ele tentou detê-lo.


Lutou contra aquele movimento.


Mas, pouco a pouco, o ferrão ergueu-se sozinho, aproximou-se das delicadas asas da borboleta e a atingiu.


A borboleta despertou imediatamente, tomada por uma dor intensa.


Assustada e com lágrimas nos olhos, olhou para o amigo e perguntou:


- Você sempre foi tão gentil comigo. Por que me feriu?


O escorpião abaixou a cabeça.


Tomado pela tristeza e pelo arrependimento, respondeu:


- Eu não queria fazer isso. Mas é da minha natureza. Tentei controlar meu instinto, porém não consegui.


Aquelas palavras machucaram quase tanto quanto a ferroada.


Com grande esforço, a borboleta afastou-se.


Mesmo sentindo dor, abriu as asas e começou a voar.


Voou para longe.


Voou enquanto lágrimas escorriam pelo seu rosto.


Voou sobre jardins, campos e rios, até que a distância entre ela e o escorpião se tornou impossível de medir.


Com o tempo, a ferida cicatrizou.


A dor diminuiu.


A vida seguiu em frente.


Mas a lembrança daquela noite jamais desapareceu completamente.


Desde então, a borboleta aprendeu uma lição difícil: por mais que exista bondade e afeto, algumas criaturas não conseguem vencer a própria natureza.


E, embora tenha conseguido superar a ferroada, a borboleta nunca mais voltou a se aproximar de um escorpião.

Viver a vida como uma grande missão é o que faz grande diferença, quando há uma forte disposição para se ir adiante, em termos de progresso pessoal.

A ideia de que a parede é sólida, é uma expectativa criada pelas infinitas repetições do pensamento.

Uma boa nova


Caminho pela noite fresca sob os reflexos de luz na calçada, nas paredes, nas árvores: figuras modeladas pela minha crença. O que serão essas ilusões? Que verdade guardam? Por que me projeto sobre a realidade e a modelo com as minhas mãos? Por que a necessidade de crer quando a liberdade está roçando as solas dos meus pés?

Uma vida simples é uma vida sem esforço, sem exigências e sem expectativas. O caminho que vai longe é o macio, sem resistência, calmo e devagar.

Para ficar sem pensar, é preciso compreender as palavras apenas como uma pequena parte da percepção, que é captar o imediato, sem memória e sem objetivo. Assim nos tornamos parte da paisagem.

A arte é uma forma de tornar tudo belo.

A memória não se refere ao passado, pois esse não existe, é uma ilusão. Só podemos nos fiar no momento e na nossa pequena bagagem.

Aurora


Passar oito horas na frente do piano todo dia se exercitando é uma boa maneira de não aprender música. Ficar uma eternidade desenhando objetos é uma forma de engessar a mão e não aprender o que é desenhar. Escrever com uma meta e reduzir a escrita a contos, romances e poesias é deixar de ser escritor. Essas práticas produzem artistas robôs. Na verdade, operários da arte. Vendem o seu esforço inútil pela sua sobrevivência. A arte vem do nada, não da repetição e cópia do trabalho de outros artistas. É uma forma de nos descobrirmos, aí é que está o seu valor. A arte não é um aprendizado, é uma descoberta.

Looping


Tudo é velho. O mundo é uma repetição imutável, não se pode perceber o movimento. Falta-nos a ausência. A voz diz que não há vida. O guia nos abandonou. A noite caiu. A dor é perene, a luz está distante, não se pode recuperar o que o dano finalizou. Os meus músculos estão tensos, o coração apertado, as mãos trêmulas. A liberdade me levou a isso, as infinitas possibilidades. Mas ainda ne resta força para quebrar o encanto: posso ver um dos níveis superiores e me agarro nele. A paciência é amiga. O ar volta a soprar. A tranquilidade nunca foi perdida realmente. Tudo isso é o que acontece no momento.

A religião é uma forma de procurar a Deus, quando ele nunca saiu daqui.

A pergunta é a adivinhação de uma resposta.

A vida é uma oração.

Eu sou um escritor, tenho uma imaginação fértil e acredito no que digo. Isso é muito raro. Eu sou apenas o escritor talentoso que a chefia contratou para escrever esta história.

Eu olho para o espelho e o que eu vejo é só uma imagem. Eu olho para as minhas pernas, mais uma imagem projetada. Os objetos são a projeção dos meus olhos.

O conteúdo é uma forma.

Aumentar a ignorância é uma limpeza da mente.

É preciso fazer uma arqueologia dos sentimentos.