Coleção pessoal de PensamentosRS

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O dramático do mundo de 2017 é que aumentamos tanto a comunicação que ela corre o risco de se tornar irrelevante. Talvez por isso a gente digite tanto: não há mais nada a dizer.

As festas, em tese, deveriam espantar a tristeza, mas conseguem apenas escondê-la. O barulho mascara e desculpa nossa dificuldade de dizer ou de escutar qualquer coisa que preste.

Quando imagino uma espécie de homem que repugna a todos os meus instintos, o resultado é sempre um alemão.

O que hoje sou, o lugar em que me encontro — a uma altura em que já não falo com palavras, mas com raios — oh! Como então estava ainda longe disso! — Mas eu percebia a Terra prometida — em nenhum instante me enganei sobre o caminho, o mar, os riscos — e o sucesso! A grande tranquilidade no prometer, a feliz visão em direção a um futuro que não há de ficar em simples promessa! — Aqui cada palavra é vivida, profunda, íntima; nem faltam coisas dolorosíssimas, havendo palavras que propriamente sangram. Mas um vento de grande liberdade sopra sobre tudo; a própria ferida não age como objeção.

PERPLEXIDADE DIANTE DA MORTE

A tragédia do avião da Chapecoense me provoca um sentimento repetitivo: não somos nada.

É trivial.

Um lugar-comum.

Um sentimento devastador: somos poeira.

Lembra uma expressão do próprio futebol para o toque de bola: estava aqui, não está mais.

Quem não se perturba?

Bolhinhas de sabão, estouramos todos os dias.

A vida é uma ilusão compartilhada.

Até que se acaba como um suspiro.

Ficam as lágrimas de quem ainda tem algum tempo por aqui.

Mas quanto?

Até onde sabemos, de um ponto de vista puramente científico, a vida humana não tem sentido algum.

O clericalismo é rico. E se não é rico de dinheiro, o é de soberba.

A espécie humana e a economia global podem muito bem continuar crescendo, mas muito mais indivíduos passam fome e privação.

Garantir que cada indivíduo seja livre para fazer o que desejar inevitavelmente compromete a igualdade.

Dói menos viver sem perceber quanto da vida perde quem vive com medo.

Todo pensador profundo tem mais receio de ser compreendido que de ser mal compreendido.

Não é possível que um homem não tenha no corpo as características e predileções de seus pais e ancestrais: mesmo que as evidências afirmem o contrário.

Feminista não entende nada de mulher.

O homem do conhecimento, ao obrigar seu espírito a conhecer, contra o pendor do espírito e também, com frequência, os desejos de seu coração – isto é, a dizer Não, onde ele gostaria de aprovar, amar, adorar – atua como um artista e transfigurador da crueldade.

Nunca tantos instrumentos de comunicação nós tivemos e nunca tanta solidão existiu neste mundo.

Olhe à sua volta, você vê um povo feliz? Impossível. Temo pelo futuro, pois fácil é se perceber o presente. Sobreviver é diferente de viver.

A poesia pode ser muito perigosa. Ela subverte a banalidade da vida.

No Brasil, não aparece a expressão "guerra civil", mas Revolução ou Guerra dos Farrapos, movimento constitucionalista de São Paulo de 1932, Cabanagem de 1835, a Sabinada na Bahia, a Balaiada de 1838. Não gostamos nem da expressão guerra civil, e vivemos prolongadas guerras civis. E o mais fascinante é que todas essas derrotas, como a de São Paulo, do Pará, da Bahia e do Rio Grande do Sul, viraram marcos de identidade. Celebramos periodicamente nossas derrotas.

Não há uma boate no mundo onde a gente possa ficar muito tempo, a não ser que tome umas e outras e fique logo de porre.

Os vencedores não têm medo de perder. Mas os perdedores, sim.