Coleção pessoal de pensador
Não podia mentir a si mesmo: acontecia nele algo terrível, novo e muito significativo, o mais significativo que lhe acontecera na vida.
Sempre o mesmo. Ora brilha uma gota de esperança, ora tumultua um mar de desespero, e sempre a dor, sempre a dor, sempre a angústia, é sempre o mesmo.
E sozinho tinha que viver assim à beira da perdição, sem nenhuma pessoa que o compreendesse e se apiedasse dele.
Tudo aquilo de que viveste e de que vives é uma mentira, um embuste, que oculta de ti a vida e a morte.
Mas o que é isto? Para quê? Não pode ser. A vida não pode ser assim sem sentido, asquerosa. E se ela foi realmente tão asquerosa e sem sentido, neste caso, para quê morrer, e ainda morrer sofrendo? Alguma coisa não está certa.
Fosse manhã ou noite, sexta-feira ou domingo, era tudo indiferente, o que havia era sempre o mesmo: uma dor surda, torturante, que não sossegava um instante sequer; a consciência da vida que não cessava de afastar-se sem esperança, mas que ainda não partira de todo; a mesma morte odiosa, terrível, que se aproximava e que era a única realidade; e sempre a mesma mentira. Para quê então os dias, semanas e horas do dia?
Talvez eu não tenha vivido como se deve – acudia-lhe de súbito à mente. – Mas como não, se eu fiz tudo como é preciso?
Às vezes, não dá para confiar em uma fórmula. Ou não dá para controlar cada variável. Às vezes, muitas vezes, dá tudo errado.
– Quantas cientistas mulheres você saberia citar?
– Madame Curie.
– Exato. Acha que isso é coincidência?
– Não sei. Só agora estou pensando no assunto.
– É, nunca precisou pensar nisso, porque todos valorizam seu potencial.
O corpo humano é 99% carbono, hidrogênio, nitrogênio, oxigênio, cálcio, fósforo e íons. Mas como chegamos a esse nível de complexidade na Terra?
O senhor tem todos os recursos e a atenção da comunidade científica toda, mas não dá valor. Deve ser inteligente, dadas suas realizações, mas anda por aí como um homem paranoico, ingrato e frágil. Então, respondendo ao seu comentário anterior, eu não te odeio. Eu só… Eu não gosto do senhor.
Fui a todos os departamentos, interroguei inúmeros químicos, inclusive os deste laboratório, que disseram que a senhorita é famosa por irritar as pessoas. E, talvez mais relevante, é arrogante, se acha importante.
Cuidar de quem gostamos dá trabalho. Muito trabalho. Quem discorda não cozinha para uma família grande toda noite.
Uma coisa que eu sempre procuro dizer a ele é para nunca se esquecer de onde veio. Continuar humilde.
