Coleção pessoal de pensador
Ainda há pouco era dia.
Eu asilava na sombra
a estirpe dos antepassados.
Temia a chegada da tarde
com seus pássaros, vertigens,
cortejos, fantasmagorias.
No entanto, sem sabermos,
caminhávamos, ombro a ombro,
evitando as largas veredas.
E quando afinal a tarde desceu
entre labirintos, vales e cristais,
entrelaçamos as mãos inseguras.
Juntos, partilhamos o tempo,
reconstruindo pedra e pedra
a vida que quedou imediata.
A madrugada me desperta com seus dedos frios,
súbito me arrancando do lugar dos sonhos e maçãs.
Estive lá, amigos, em suores, tremores, elisões,
um país habitado por labaredas azuis, tão longe de tudo
e tão perto que meus olhos cansados me descreem,
desacostumados a olor de terra, a negras melenas.
Mas estive lá, amigos, os sulcos na pele testemunham,
estes espelhos nativos atestam, minhas mãos caladas certificam.
Quatro ou cinco motivos
para renunciar, eis a coluna
de haveres. E persisti,
embora tenham sumido
canetas e dias inteiros
no estranho calendário
que carrego às costas.
Eu não sabia – tu não sabias –
mas as fomes de domingos
as madrugadas rodoviárias
os nomes que se apagavam
as errantes ofertas dos ventos,
tudo nos empurrava para a porta
nunca aberta, nunca cerrada.
Um dos grandes problemas que afligem a vida do casal é o ciúme. Para eliminar totalmente esse mal, que provoca brigas inúteis comprometendo a união, deve-se fazer o seguinte: numa quinta-feira, compre um vidro de perfume de sua preferência. Benza-o contra o ciúme, fazendo uma cruz por cima da tampa. Dê o frasco de presente para a pessoa ciumenta, dizendo que gosta do aroma e por isso quer que ela o use. À medida em que o líquido vai acabando, vai indo embora também o ciúme.
Arqueologias
Envelhecemos, e teus projetos
aos sonhos retornam.
Aquela casa de campo,
quantos iriam visitá-la?
O filho inconcebido,
como mesmo irias nomeá-lo?
A viagem à Europa,
este país, que naquele.
Envelhecemos, no entanto,
e tudo à volta rui.
A cidade irreal,
envolta em névoa, tua.
Envelhecemos, e teus sonhos
em sonhos permanecem.
Ganhava bem, reclamava pouco e conversava com as crianças. Ele só não gostava de ser incomodado quando lia seu jornal, quando dormia até tarde e quando descansava depois do almoço, e desde que seus chinelos permanecessem em paralelo ao pé da cama, que seu café fosse servido quase que fervendo, que não houvessem natas no leite, que as crianças não corressem pela casa, que as almofadas permanecessem na diagonal (...) e que os banheiros cheirassem a eucalipto, ele não exigia demais.
Uma boa esposa não arranja projetos paralelos. Uma boa esposa só tem olhos para o marido e os filhos. Eu tenho que ter tranquilidade pra trabalhar, você tem que cuidar das crianças.
Fugir era que nem morrer, só que pior, porque na morte a pessoa vai embora sem saber, e não pode se despedir. Mas na fuga a pessoa sabe que está indo embora, e nem se importa em dizer adeus.
E era também por estar preocupado com o que os outros iam dizer que não queria que sua mulher costurasse para fora. Iam achar que ele era homem de menos porque a mulher trabalhava demais.
Eurídice, vejam vocês, era uma mulher brilhante. Se lhe dessem cálculos elaborados ela projetaria pontes. Se lhe dessem um laboratório ela inventaria vacinas. Se lhe dessem páginas brancas ela escreveria clássicos. Mas o que lhe deram foram cuecas sujas, que Eurídice lavou muito rápido e muito bem, sentando-se em seguida no sofá, olhando as unhas e pensando no que deveria pensar. E foi assim que concluiu que não deveria pensar.
Ela sempre achou que não valia muito. Ninguém vale muito quando diz ao moço do censo que no campo profissão ele deve escrever as palavras “Do lar”.
Ele tinha em seus braços a mulher que parecia ter sido feita para ele. Nada nunca superaria essa sensação.
Se ele visse algo que queria, ele tomava. Ele estava sempre no controle. Sem exceções. Para nenhuma mulher. Nem ninguém. E ele planejava em manter as coisas assim.
Se é isso que o amor e a emoção fazem com um homem, ele não tinha certeza de que o queria. Mas queria Bethany. Com cada respiração. Cada pensamento consciente. Ele a queria e não iria deixá-la partir sem uma boa briga.
Era um conto de fadas. Definitivamente, uma fantasia. Alguma realidade alternativa bizarra, porque coisas assim não aconteciam na vida de Bethany Willis. Nunca aconteceram. Nunca aconteceriam. Mas era bom viver um bom sonho por um tempo. Enquanto durasse.
Ele podia treinar e liderar um exército inteiro. Poderia vencer uma batalha quando estava em menor número, com cinco contra um. Entretanto, não conseguia manter uma mulher sob controle. Isso o desafiava em todos os sentidos e o estava enlouquecendo.
Posso viver sem comida. O castelo pode desabar. Conseguiremos sobreviver. Sempre sobrevivemos. De alguma forma vamos passar por isso. Porém não consigo viver minha vida sem você.
Deixa eu chorar
Porque meu sentimento é particular
Se eu te contar vai que ela fica sabendo
Melhor não divulgar meu sofrimento
Dizem que beijar faz bem pra esquecer
E que a bebida ajuda a aliviar
Mas quando se trata dela
É difícil de remediar
Eu quero crise de ciúme
Daquelas que até o perfume é regulado
Que a minha mente desarrume
Amor que deixa a perna bamba e o coração de quatro
Amor comum tá chato
