Coleção pessoal de pensador
Quando eu me encontrava naquele estado, o futuro não existia, tampouco o passado, só aquele momento, e era por isso que eu desejava tanto vivê-lo, porque o meu mundo, em toda a sua insuportável banalidade, brilhava.
Escrever era uma derrota, era uma humilhação, era deparar-se com o próprio âmago e perceber que aquilo não era bom o suficiente.
A literatura não se resume às palavras, a literatura é aquilo que as palavras despertam em quem lê. É essa transcendência que torna a literatura válida, e não a transcendência formal em si, como muitos parecem acreditar.
Sentimentos são como água, sempre adquirem a forma do meio que os circunda. Nem mesmo o pior luto deixa vestígios, se é esmagador e dura muito tempo, não é porque os sentimentos congelaram, isso eles não conseguem fazer, mas porque não se mexem, como a água estagnada de um charco.
Escrever é retirar da sombra a essência do que sabemos. É disso que a escrita se ocupa. Não do que acontece aí, não das ações que se praticam aí, mas do aí em si.
A única coisa que não envelhece no rosto são os olhos. Têm o mesmo brilho no dia em que nascemos e no dia em que morremos.
Uma vida humana dura em média oitenta anos terráqueos ou cerca de trinta mil dias terráqueos. O que significa que eles nascem, fazem alguns amigos, comem muitas refeições, casam-se, ou não se casam, têm um filho ou dois, ou não, bebem muitas taças de vinho, têm certo número de relações sexuais, descobrem um caroço em algum lugar, sentem um pouco de arrependimento, imaginando para onde foi aquele tempo todo, sabendo que deveriam ter feito tudo diferente, percebendo que teriam feito tudo do mesmo jeito, e então morrem. Caem na grande escuridão do nada.
Ocorreu-me que seres humanos não vivem além dos cem anos porque simplesmente não aguentavam. Psicologicamente eu quero dizer. Você se acaba. Não há você suficiente para seguir em frente. Você fica muito entediado com a própria mente. Com o modo como a vida se repete.
É isso que começa a acontecer quando percebe que pode sentir dor sobre a qual não tem controle. Torna-se vulnerável. Porque a possibilidade da dor está no lugar de onde o amor surge.
O maior ato individual de bravura ou de loucura que alguém pode praticar é o ato de mudar. Eu era alguma coisa. Agora sou uma coisa a mais.
Os humanos estão sempre fazendo coisas que não gostariam de fazer. Na minha melhor estimativa, em qualquer momento, somente três por cento dos humanos estavam fazendo algo que gostavam de fazer, e mesmo assim sentiam tanta culpa em relação a isso que prometiam a si mesmos fervorosamente que logo voltariam a fazer algo tremendamente desagradável.
Um alimento embrulhado em um envoltório sintético. Esse era, mais tarde eu percebi, um planeta de coisas embrulhadas dentro de coisas. Comida dentro de embalagens. Corpos dentro de roupas. Indiferença por trás de sorriso. Tudo era escondido.
Eu escalei as Montanhas do Norte, sobrevivi a um coração congelado e te salvei do meu ex-namorado, então, já sabe, eu tô indo.
(Anna)
