Coleção pessoal de pensador
E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.
palavra do homem não é uma ordem:
a palavra do homem é um abismo
O abismo,
que arde como um bosque:
um bosque que ao arder se regenera.
Todo salto volta a apoiar-se.
Mas em algum lugar é possível
um salto como um incêndio,
um salto que consuma o espaço
aonde deveria terminar.
Cheguei às minhas inseguranças definitivas.
Aqui começa o território
aonde é possível queimar todos os finais
e criar o próprio abismo,
para adentrar desaparecendo.
O centro não é um ponto.
Se fosse, seria fácil acertá-lo.
Não é sequer a redução de um ponto a seu infinito.
O centro é uma ausência,
de ponto, de infinito e ainda de ausência
e somente se o acerta com ausência.
Olha-me depois que tenhas ido,
ainda que eu recém tenha partido.
Agora o centro me ensinou a não estar,
porém mais tarde o centro estará aqui.
Um amor mais além do amor
Por cima do rito do vínculo
Mais além do jogo sinistro
Da solidão e a companhia
Um amor que não necessite regresso
Porém tampouco partida
Um amor não submetido
As chamas de ir e de voltar
De estar despertos ou dormidos
De chamar ou calar
Um amor para estar juntos
Ou para não está-lo
Porém também para todas as posições
Intermedias
Um amor como abrir os olhos
E talvez também como fechá-los.
Os naufrágios são belos
sentimo-nos tão vivos entre as ilhas, acreditas?
e temos saudades desse mar
que derruba primeiro no nosso corpo
tudo o que seremos depois
A casa onde às vezes regresso
A casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reúno baldes, estes vasos guardados
mas chove sem parar há muitos anos
Durmo no mar, durmo ao lado de meu pai
uma viagem se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo
Tivesse ainda tempo e entregava-te
o coração
Epitáfio para R.M. Rilke
quando as palavras
buscarem amparo
em teu secreto canto
serás ainda
o único pastor
do meu silêncio
Os dias de Job
Às vezes rezo
sou um cego e vejo
as palavras o reunir
das sombras
às vezes nada digo
estendo as mãos como uma concha
puro sinal da alma
a porta
queria que batesses
tomasses um por um os meus refúgios
estes dedos
inquietos na ignorância
do fogo
pois que tempo abrigará
os anjos
e que dia erguerá todo o sol
que há nas dunas
por isso
às vezes chove quando rezo
às vezes quase neva
sobre o pão
Revelação
Meu o ofício incerto das palavras
a evocação do tempo
o recurso ao fogo
Meu o provisório olhar
sobre este rio
o fascínio consentido das margens
sitiando a distância
Meus são os dedos que em tumulto
modelam capitéis
de sombra e arestas
Mas oculto na brisa
és Tu quem percorre o poema
despertando as aves
e dando nome aos peixes
Inscrição
o brilho é o leve
júbilo
que sustenta os versos
ainda que sejamos obscuros
e nenhum nome
sirva jamais para dizer
o fogo
A infância de Herberto Helder
No princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas
Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos
Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva
Não sabia que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar
a ordem do universo agora
acredito
Eu era quase um anjo
e escrevia relatórios
precisos
acerca do silêncio
Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios
Isto foi antes
de aprender a álgebra
As pessoas passam tanto tempo sendo entretidas, tendo prazer, conforto. Mas a gente não quer prazer, entretenimento e conforto apenas. A gente quer significado. Porque senão é todo mundo igual.
Eu estudei teologia comparada, estudei muçulmanos, budistas, hindus e vi que todos estão em busca de uma mesma luz. E eu prefiro essa luz antes que ela vire religião. É como se existisse uma luz que passa por um vitral e adquire cores. As religiões são as cores. Eu quero a luz. Minha religião é Deus e a luz de cada ser humano.
Todos já temos em nós o nosso potencial. Eu reverencio muito os seres humanos. Acho que eles são a coisa mais linda, só que com uma camada de fuligem, de poeira, uma camada de egoísmo. O que quero é pegar a luz que está lá dentro, esquecida, e trazer para fora. Eu confio na luz divina.
Ao mesmo tempo em que tenho livre-arbítrio e decido o que quero da vida, recebo o sol em mim e o canto dos passarinhos. São presentes que simplesmente vêm. E, às vezes, as coisas que vêm são duras.
Perceba que na sua vida você escolhe algumas coisas, mas outras são decididas pela vida, por Deus, você vai sendo levado. E a beleza é a gente aceitar essa dança, a dança com Deus.
"Renúncia" não é o mesmo que "repulsa". Eu não odiava o mundo, minha família, os confortos da minha vida anterior. Eu simplesmente estava disposto a trocar aquilo tudo por algo que eu queria muito mais, uma vida de significado, onde eu fizesse o bem para mim e os outros.
