Coleção pessoal de pensador
A psique humana evoluiu para se defender contra a visão da verdade. Para nos impedir de avistar o mecanismo. A psique é o nosso sistema de defesa – ela se certifica de que nunca entenderemos o que está acontecendo à nossa volta. Sua principal tarefa é filtrar informações, mesmo que a capacidade de nosso cérebro seja enorme. Pois seria impossível carregarmos o peso desse conhecimento. Porque cada minúscula partícula do mundo é feita de sofrimento.
Os jornais precisam nos manter em constante estado de ansiedade, desviar nossas emoções das coisas que realmente importam para nós. Por que eu deveria me submeter ao poder deles e permitir que me digam o que pensar?
Percebi que – apesar de todos os riscos envolvidos – uma coisa em movimento sempre será melhor do que algo em repouso; que a mudança sempre será algo mais nobre do que a permanência; que aquilo que é estático vai se degenerar e sucumbir, transformar-se em pó, enquanto aquilo que está em movimento será capaz de durar por toda a eternidade.
Sabe, às vezes eu acho que estamos vivendo em um mundo que fabricamos para nós mesmos. Decidimos o que é bom e o que não é, desenhamos mapas de significados para nós… E então passamos a vida toda lutando contra aquilo que inventamos para nós mesmos. O problema é que cada um de nós tem a própria versão desse mundo, por isso as pessoas têm dificuldade de entender umas às outras.
Desenhar nunca é reproduzir – para poder ver, você precisa saber como olhar e precisa saber o que está vendo.
Eu gostaria de poder deixar para você algumas imagens em minha mente, porque elas são tão bonitas que eu odeio pensar que elas serão extintas quando eu me extinguir. Bem, mas, de novo, esta vida tem sua própria beleza mortal. E a memória tampouco é estritamente mortal por natureza. É uma coisa estranha, afinal, ser capaz de retornar a um momento, quando dificilmente pode-se dizer que ele tem alguma realidade, mesmo em sua passagem. Um momento é uma coisa tão leve. Quero dizer, sua permanência é um alívio muito agradável.
Não há justiça no amor, não há proporção nele e não precisa haver, porque em qualquer caso específico é apenas um vislumbre ou uma parábola de uma realidade abrangente e incompreensível. Não faz nenhum sentido porque é a eterna invasão do temporal. Então, como ele poderia se subordinar a causa ou consequência?
Uma vez sozinho, é impossível acreditar que uma pessoa poderia ter sido algo diferente. A solidão é uma descoberta absoluta.
Um homem pode conhecer o pai ou o filho e ainda pode haver nada entre eles além de lealdade, amor e incompreensão mútua.
Parece ridículo supor que os mortos sintam falta de algo. Se você for adulto quando ler isso – é o que pretendo com esta carta: que você só a leia quando já for adulto –, já terei partido há muito tempo. E terei aprendido quase tudo o que há para se aprender sobre o que é estar morto. Mas, provavelmente, guardarei para mim essas descobertas. Ao que parece, é assim que as coisas são.
No erro.
E nas suas emoções.
Estar à beira do erro é uma condição de medo.
Estar no meio do erro é estar em um estado de loucura e derrota.
Perceber que você cometeu um erro causa vergonha e remorso.
Como seria
morar em uma biblioteca
de livros derretidos?
Com frases fluindo pelo chão
e toda a pontuação
alojada no fundo como um resíduo.
Seria confuso.
Imperdoável
Uma grande aventura.
Porque tanto viva quanto morta, visível quanto invisível, eu continuo tratando e curando. Mas, sobretudo, eu me atribuí outra tarefa (...) fortalecer o coração dos homens. Alimentar sonhos de liberdade. De vitória. Não tendo uma revolta que eu não tenha feito nascer.
Eis a história da minha vida. Amarga. Tão amarga. Minha verdadeira história começa quando esta termina e não terá fim.
Elas me riscaram do mapa dos humanos. Eu era um não ser. Um invisível. Mais invisível que os invisíveis, pois eles, ao menos, detinham um poder que todos temiam.
Refugiada sob a saia de uma mulher, senti se solidificar em mim, como uma lava, um sentimento que deveria nunca mais me deixar, mescla de terror e luto.
