Coleção pessoal de pensador
quero a intimidade
da liberdade do teu corpo em sono.
ao prometer-lhe a novidade e o prazer
de ser a primeira a dormir
escravizei-me ao sonho teu.
Eu prometo que não dormiria
por mais que meus olhos pesassem
não os fecharia.
eu ali, inerte, dura
resistindo aos apelos de Morfeu
deitada de frente a ti
a contemplar tua insônia
fazendo-lhe mil cafunés
você pedindo imobilidade
eu respirando o cheiro forte da química
do teu cabelo em minhas mãos
Sempre gostei do frescor e silêncio
da noite.
As ruas com poças
ainda da chuva.
Sombras coloridas nos olhos
um homem passa
um carro passa
um rato passa
não há ninguém além da noite
já começo de amanhã.
Jamais lembrarei as palavras ditas
saídas como vômito
de algodão-doce
sem filtro
feito flechas
tentando cegar aqueles olhos de capitu
que me petrificavam
e me botavam a falar
como doida
ou criança com sono,
quizás.
Fechou-se o bar.
E aquela rua tão movimentada
de dia!
Parecia viagem
parecia outra cidade.
Está pensando que é ótima atriz mas você só se engana
Você circula numa vida infeliz buscando ajuda e fama
Foi tanta coisa que deixou de provar por medo ou por vergonha
E foi deixando em casa mesa de bar um pouco do que sonha
Quanto medo essa gente tem
De querer ser livre também
E olhar bem pra dentro e ser mais,
Muito mais e melhor
Você diz como vive a vida
Acreditando nas suas mentiras
Paralisado no tempo
Morrendo um pouco por dentro
Um dia a gente há de se encontrar
A vida vai levar pra esse lugar
Eu sei que você vai me procurar
Querendo brincadeira
Segunda ou terça-feira pra dançar
É que eu gosto do perigo
Tempestade solar, exposta, sem abrigo
Então você apareceu
E eu nem sei explicar
Mas não tenho medo disso
Diga onde estará
Eu vou até você
Só estou ligando pra avisar que estou voltando
Já se passaram alguns anos
Eu mudei você vai ver
Eu estava disfarçado, acredite eu precisei
Nós sabemos da verdade
Ou pelo menos, eu sei
Vamos falar do futuro
Eu preciso te dizer
O quanto me fez maduro, prazer de te conhecer
Retorno
Gastei toda aquarela, recolhida. Silêncio de barcos acidentados, fruta madura espatifando-se na terra. Colhi no ventre da treva estas
palavras tocando-as devagar, com medo de que por trás de suas faces frescas me aguardasse uma emboscada. Sei pelo avesso suas formas
conturbadas, atormentam-me seus abismos híbridos. Vê-las pulsando salva-me da lábia estofada cotidiana, mas também me expõe à rude dimensão da liberdade e seu preço poucas vezes raso. Cintila a pedra noturna dos meus olhos nos seus olhos, sei que posso atravessá-los num sopro. Após tantas águas fugidias, o refluxo. As portas batem, como nos dias arejados.
Felicidade
nada como namorar
um poeta marginal
incendiado
nada
como um mingau de maizena
empelotado
de tanto amor acumulado
uma casinha em botafogo
um quarto uma eletrola
uma cartola
&
depois da praia sonhar
que a bossa nova voltou
pra ficar
eu você joão
girando na vitrola sem parar.
