Coleção pessoal de NinoCarneiro

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O Uber, o Azulejista e o Perigo de Esquecer o Despertador
Era mais um dia normal de trabalho para o motorista peregrino. Pelo menos era o que ele imaginava quando, por volta das seis e vinte da manhã, recebeu um chamado da senhora Luana para levá-la até uma marmoraria localizada na Vila Brasília, na zona norte de São Carlos, próxima à Rodovia Washington Luís e ao campus da UFSCar. Para o motorista, uma corrida com mais de oito quilômetros naquele horário, antes das sete da manhã, normalmente significava que alguma coisa havia acontecido. Afinal, passageiro que precisa percorrer uma distância dessas logo cedo geralmente não está simplesmente passeando. Ou perdeu o ônibus, ou perdeu a hora, ou perdeu a paciência. Às vezes, perde os três de uma só vez.
Dito e feito! Ao chegar ao ponto de partida e confirmar o nome da passageira, o motorista desejou-lhe um ótimo dia e, logo em seguida, perguntou: “A senhora está atrasada para o trabalho? O ônibus não passou? Ou será que o relógio não despertou?”. Luana, uma mulher de estatura acima da média, olhou para o motorista e respondeu, com a maior tranquilidade: “E se eu lhe disser que aconteceram as três coisas que o senhor falou e ainda mais duas?”. Naquele momento, o motorista peregrino percebeu que aquela não seria uma corrida como as outras. O problema agora era descobrir quais seriam as duas coisas que faltavam naquela história.
O motorista ficou todo embananado, tentando imaginar o que poderia ter acontecido com Luana. Por alguns segundos, pensou que talvez fosse melhor não perguntar. Afinal, existem passageiros que entram no carro querendo apenas chegar ao destino, e existem aqueles que parecem carregar uma novela inteira dentro da mochila. Como o peregrino adora conversar com os passageiros e, principalmente, colher histórias para o seu próximo livro, resolveu arriscar: “Então me conte o que mais aconteceu. Quem sabe isso não vira uma história engraçada para o meu livro?”. Luana imediatamente perguntou: “O senhor escreve?”. O motorista respondeu que sim. Ela então completou: “Bem que eu imaginei. Pela sua aparência, o senhor deve fazer coisas muito interessantes”. O motorista sorriu e respondeu: “Olhe, senhora, eu faço tantas coisas que, às vezes, até eu mesmo ponho em dúvida a minha sanidade mental”.
Luana caiu na risada e quis saber: “Mas que coisas o senhor faz para se achar um homem assim?”. O motorista, percebendo que a conversa estava ficando cada vez melhor, respondeu: “Primeiro a senhora me conta quais foram essas duas coisas que aconteceram e que a obrigaram a pegar um Uber. Depois eu conto as minhas”. Luana respirou fundo e começou: “Então está bem. O meu marido, na noite anterior, bateu o carro porque tinha bebido um pouco a mais. Ainda bem que foi bem perto da nossa casa. Aliás, ele chegou a tentar entrar na casa do vizinho. Imagine o estado do meu marido!”. O motorista ficou surpreso e perguntou: “Sim, mas, se isso aconteceu na noite anterior, por que a senhora perdeu o horário do trabalho hoje?”.
“Quer saber mesmo?”, perguntou Luana, já segurando o riso. “O meu marido é azulejista. Ele é um ótimo profissional, mas é muito chato quando não bebe. Eu até deixei de trabalhar com ele por causa das chatices. Quando está sóbrio, parece que o mundo inteiro está assentando azulejo errado.” O motorista começou a rir, mas lembrou que ainda faltava uma parte importante da história: “Sim, mas não me enrole, porque já estamos quase chegando ao destino da corrida”. Luana continuou: “O meu marido, quando bebe, é uma pessoa maravilhosa, muito carinhoso. Então, naquela noite, como eu estava a fim de receber uns carinhos, convidei-o para tomar umas cervejas comigo”.
A história estava começando a fazer sentido. Luana prosseguiu: “Lá pelas tantas da noite, eu o peguei pelo braço e o levei para o quarto. Quando chegamos lá, falei para ele: ‘Sobe aí na cama, agora! Se você dormir, eu te taco no chão!’”. O motorista peregrino já não sabia se deveria rir, fazer outra pergunta ou simplesmente continuar dirigindo e agradecer por ter escolhido aquela profissão. Luana, então, encerrou a explicação: “Para resumir, tivemos uma noite maravilhosa. Eu sequer me lembrei de colocar o relógio para despertar”.
Faltava pouco menos de um quilômetro para chegarem ao destino quando Luana, como quem havia acabado de descobrir a moral da própria história, disse ao motorista: “O meu destino é casar-me com gente que gosta de um mé, de cachaça, de cerveja... Sei lá, de tudo o que tem álcool. O meu primeiro marido bebia bastante, mas era violento. Agora este bebe, mas é carinhoso. Então eu estou num dilema: se ele não bebe, ele nem se lembra que eu existo; agora, se ele bebe, sou eu que não me lembro do trabalho”.

Os dois caíram na gargalhada, enquanto o motorista pensava que, definitivamente, aquela não tinha sido apenas mais uma corrida. Tinha sido uma daquelas histórias que aparecem de repente, entram no carro sem avisar e, quando chegam ao destino, deixam uma lembrança que vale mais do que o próprio valor da corrida.
E talvez seja justamente isso que o peregrino aprendeu nas estradas e também atrás do volante: **há pessoas que entram em nossa vida por alguns minutos e acabam deixando histórias que permanecem por muitos anos**. Algumas nos ensinam, outras nos emocionam, algumas nos fazem pensar e outras simplesmente nos fazem rir. E, para quem gosta de caminhar pela vida com os olhos e os ouvidos abertos, até uma corrida de Uber pode se transformar em uma página de livro.
Peregrino Nino Carneiro

Uma Corrida, Duas Histórias e um Novo Começo
Em mais uma de suas corridas, o motorista peregrino recebeu uma mulher negra acompanhada de dois filhos pequenos, também negros. Desde os primeiros instantes, percebeu que não eram apenas passageiros, mas uma família unida pelo carinho, pelo cuidado e pela cumplicidade. Os três cumprimentaram o motorista separadamente, com um educado “bom dia”, gesto simples que chamou sua atenção. Para o Peregrino, são justamente essas pequenas atitudes que revelam muito sobre as pessoas e podem transformar uma corrida comum em um encontro especial.
O primeiro destino seria a escola das crianças e, depois, o Laboratório Mariconde. Durante o trajeto, o motorista percebeu o sotaque diferente e perguntou de onde Yasmin era. Ela explicou que havia nascido em Nampula, no norte de Moçambique, e que vivia no Brasil desde 2018. Contou que seu marido, Mussa, havia conseguido um visto pela CPLP — Comunidade dos Países de Língua Portuguesa — e que, depois de alguns anos, retornara a Moçambique para buscá-la. Antes disso, o casal formalizara o casamento para facilitar sua vinda ao Brasil.
Curioso sobre a terra natal de Yasmin, o motorista quis saber como estava Moçambique depois de tantos anos de independência. A conversa passou pela FRELIMO, que liderou a independência do país em 1975 e permanece no poder desde então, e pelos problemas enfrentados pela população, como pobreza, desigualdade, corrupção e violência. Yasmin explicou que essas dificuldades fazem muitos moçambicanos procurarem oportunidades fora do país, enquanto sua própria família havia encontrado no Brasil uma maneira legal e segura de recomeçar.
Na conversa, surgiu também a história das crianças. Felipe, de seis anos, e Bruna, de quatro, eram brasileiros e são-carlenses. Naquele momento, o motorista percebeu que aquela família já não estava apenas vivendo em um novo país: estava construindo uma nova vida em São Carlos, com escola para os filhos, trabalho, casa e novos sonhos.
Na primeira parada, Yasmin deixou as crianças na escola. Depois, seguiu com o motorista até o laboratório, onde trabalhava como atendente. Ao perceber que ela estava feliz com o emprego, principalmente por ser próximo da escola dos filhos e de sua casa, o Peregrino entendeu que aquela mulher havia encontrado mais do que um lugar para morar. Havia encontrado uma oportunidade para trabalhar, criar os filhos e construir seu próprio caminho.
Ao chegarem ao destino, o motorista fez uma última pergunta: de zero a dez, que nota Yasmin daria ao Brasil? A resposta veio acompanhada de um sorriso: “Se pudesse dar vinte, daria”. Para ela, o Brasil havia proporcionado oportunidades que não encontrara em seu país de origem. O motorista respondeu que compartilhava do mesmo sentimento e que também não trocaria o Brasil por nada deste mundo.
Naquele momento, porém, o motorista revelou uma lembrança que guardava consigo e, quase em um sussurro, disse: “Foi Moçambique que me deu o meu primeiro grande amor.” A frase carregava uma história que Yasmin ainda não conhecia e que, de repente, aproximava ainda mais aquelas duas vidas, aparentemente tão diferentes.
Quando a corrida terminou, o Peregrino percebeu que havia levado uma família de um ponto a outro, mas recebido em troca uma história de coragem, recomeço e esperança. Para ele, a vida é assim: feita de caminhos que se cruzam, encontros que ensinam e pessoas que, muitas vezes, deixam uma marca sem sequer perceber.
Yasmin atravessara um oceano em busca de novas possibilidades. Trouxera consigo sua história, sua cultura, seus sonhos e, principalmente, a esperança de oferecer aos filhos um futuro melhor. E foi justamente isso que o Peregrino enxergou naquele encontro: não importa de onde uma pessoa vem; quando existe coragem para seguir em frente, sempre pode surgir um novo caminho.
Talvez essa seja uma das maiores lições que os caminhos ensinam: algumas viagens terminam quando o passageiro chega ao destino, mas outras continuam dentro de quem teve a oportunidade de ouvir uma história. Aquela corrida havia terminado, mas o encontro entre o Peregrino e Yasmin certamente continuaria caminhando na memória dos dois.
Até a próxima corrida. Até o próximo encontro. Até o próximo caminho.
Peregrino Nino Carneiro

O Brasil do Futuro e o Futuro do Brasil
Uma caminhada entre memórias, ilusões e esperanças
A cada ano que passa, uma pergunta insiste em caminhar comigo: será que aquilo que venho vivenciando ao longo dos últimos vinte anos é suficiente para desacreditar que o Brasil ainda possa ser o país do futuro? Ou continuaremos carregando a velha ironia de sermos eternamente o país mais antigo do futuro? Talvez o problema não esteja apenas no Brasil que construímos, mas na maneira como nós, brasileiros, estamos escolhendo caminhar dentro dele.
Cheguei ao Brasil em 1977. Assim que consegui minha carteira de trabalho, o funcionário público que me entregou o documento disse algo que jamais esqueci: “Agora você tem o Brasil inteiro para procurar qualquer tipo de trabalho que quiser.” Naquele instante pensei: **que país maravilhoso é este!** Não sofri preconceito por ser estrangeiro e percebi que as portas estavam abertas para que eu pudesse competir em igualdade de condições com qualquer cidadão brasileiro. Voltei para casa feliz e, apenas trinta dias depois, já estava empregado em um grande banco, o Banco Auxiliar de São Paulo.
Minha vida profissional passou por apenas três empresas brasileiras de renome nacional. Em todas elas procurei trabalhar com competência, responsabilidade e dignidade. Nunca enxerguei o trabalho apenas como uma obrigação para receber um salário. Para mim, trabalhar sempre foi uma maneira de participar da vida e de provar que ainda poderia ser útil. Hoje sou oficialmente aposentado, mas, oficiosamente, nunca parei de trabalhar. Talvez porque tenha aprendido que **quando o corpo deixa de caminhar, a alma não precisa necessariamente parar de avançar**.
O que me preocupa é perceber uma mudança profunda na maneira como parte da sociedade passou a enxergar a própria vida. Tenho a sensação de que estamos construindo uma existência baseada cada vez mais nas aparências, no faz de conta e na necessidade de convencer os outros de que somos aquilo que gostaríamos de ser. Há quem compre um carro que não pode pagar apenas para aparentar prosperidade; quem não fale outro idioma, mas diga que seu inglês está apenas “desatualizado”; e quem ostente produtos de grife falsificados para fazer o outro acreditar que são autênticos. Talvez esteja aí uma de nossas maiores contradições: **estamos cada vez mais preocupados em parecer do que em ser**.
Na política, essa contradição também aparece. Pessoas defendem ideologias que muitas vezes não encontram correspondência em suas próprias atitudes. É o velho princípio do “olhe para o que eu digo, mas não olhe para o que eu faço”. Quando uma sociedade valoriza mais o discurso do que o exemplo, começa a perder algo essencial: a coerência. Afinal, não é aquilo que proclamamos que revela quem somos, mas aquilo que fazemos quando ninguém está olhando.
Também me preocupa o afastamento das pessoas das boas conversas, da leitura e do conhecimento. Existe uma diferença enorme entre **não saber e querer aprender** e **não saber e fingir que não precisa aprender**. O primeiro comportamento revela humildade; o segundo, pobreza intelectual.
É por isso que olho para o futuro com preocupação. Temo que uma educação cada vez mais frágil, combinada com uma tecnologia cada vez mais poderosa, possa produzir uma geração com acesso a quase todas as respostas, mas pouca capacidade de formular perguntas; com informação em abundância, mas pouco conhecimento; que consiga conversar com máquinas, mas tenha dificuldade para conversar com pessoas. A tecnologia pode ser uma extraordinária companheira de caminhada, mas jamais deveria substituir o esforço humano de aprender, raciocinar e descobrir.
Também me preocupa o futuro dos idosos. Uma sociedade que envelhece deveria respeitar ainda mais aqueles que já percorreram boa parte do caminho. Se perderem progressivamente seu poder de compra e sua autonomia, muitos poderão enfrentar uma velhice marcada pela pobreza, pela solidão e pelo abandono. **Quem despreza o passado acaba caminhando para um futuro sem direção.**
Tenho ainda receio de que deixemos de procurar os livros porque acreditamos que a inteligência artificial pode pensar por nós. Ela pode explicar, resumir, pesquisar e ampliar nosso acesso ao conhecimento. Mas não deveria tirar de nós o prazer de descobrir, de virar uma página e encontrar uma frase capaz de transformar nossa maneira de enxergar a vida.
Olho ao redor e vejo um céu que, às vezes, parece cada vez mais sombrio. Vejo pessoas falando apaixonadamente sobre a natureza, mas que jamais plantaram uma árvore. Vejo falastrões com uma capacidade impressionante de convencer, mesmo quando lhes falta conhecimento. E vejo pessoas acreditando em tudo o que ouvem simplesmente porque foi dito com segurança.
Mas existe uma preocupação ainda maior: **a possibilidade de perdermos a fé**. Não apenas a fé religiosa, mas a fé como esperança, força interior, capacidade de agradecer e humildade para reconhecer que nem tudo está sob nosso controle. Temo por uma sociedade que saiba conversar com máquinas, mas já não saiba conversar com Deus; que peça muito, mas agradeça pouco.
Depois de tantos anos caminhando, aprendi que o ser humano não pode se colocar acima da natureza, como se fosse seu dono. **Nós não somos espectadores da natureza. Somos parte dela.** Respiramos o mesmo ar, dependemos da mesma água, recebemos da terra aquilo que comemos e, no final da caminhada, retornamos a ela. Quando destruímos a natureza, destruímos também uma parte de nós mesmos.
Talvez, então, a pergunta mais importante não seja se o Brasil continuará sendo o país do futuro. Talvez devêssemos perguntar que tipo de pessoas queremos ser quando esse futuro chegar. Um país não se transforma apenas por governos, leis, tecnologias ou discursos. Ele se transforma quando seus cidadãos aprendem a valorizar o trabalho, a verdade, o conhecimento, a responsabilidade, a solidariedade, a natureza e a fé.
Depois de tantos caminhos percorridos, aprendi que não adianta reclamar da estrada sem olhar para os próprios passos. **Todo caminho começa com uma escolha, e toda escolha deixa uma marca no lugar por onde passamos.**
Se escolhermos a aparência, teremos uma sociedade de aparências. Se escolhermos a ignorância, teremos uma sociedade manipulável. Se escolhermos a irresponsabilidade, colheremos suas consequências. Mas, se escolhermos o trabalho, o conhecimento, a honestidade, o respeito, a preservação da natureza e a fé, talvez ainda possamos construir um país que não precise ser chamado eternamente de “país do futuro”.
Porque o futuro não é um lugar para onde chegaremos um dia.
O futuro é o caminho que estamos construindo agora.
E, como aprendi caminhando, toda estrada começa exatamente onde estamos.
Natureza sadia gera povo sadio.
Povo consciente gera um país melhor.
E um país melhor começa dentro de cada um de nós.
Peregrino Nino Carneiro

As Seis Paradas e o Mistério das Mochilas
Era 12 de junho de 2023. Exatamente às quatro horas e cinquenta minutos da madrugada, o motorista Peregrino abriu o aplicativo de transportes. Ainda era noite, e a cidade começava lentamente a despertar. Quase no mesmo instante, recebeu uma chamada curiosa: a corrida informava vários pontos de parada e, para completar, o valor era bastante convidativo. O Peregrino pensou consigo mesmo: “Hoje é Dia dos Namorados. Quem sabe não vai ser uma ótima corrida!” Sem imaginar o que aquela viagem lhe reservaria, dirigiu-se ao primeiro endereço indicado pelo aplicativo.
O ponto inicial ficava atrás de um condomínio residencial no bairro do Embaré. Ao chegar, um senhor, aparentando estar na casa dos quarenta anos, muito bem-vestido e extremamente educado, saiu de um dos imóveis e entrou no carro. Depois de cumprimentar o motorista, explicou: “Senhor, nós temos seis paradas, sendo a última, esta de onde estamos iniciando a corrida.” O Peregrino respondeu tranquilamente: “O senhor é quem manda. Vou fazer o máximo possível para que o senhor goste do meu serviço.” Tudo parecia normal, embora aquela quantidade de paradas, logo de madrugada, já tivesse despertado sua curiosidade.
Na primeira parada, o passageiro pediu: “Por favor, abra o porta-malas do carro. Um rapaz que está me esperando vai colocar uma mochila.” O Peregrino abriu o porta-malas e, poucos instantes depois, um rapaz apareceu, colocou uma mochila no veículo e foi embora. Na segunda parada, exatamente a mesma cena se repetiu. Foi então que o Peregrino começou a desconfiar de que havia algo estranho naquela corrida. “O que será que está acontecendo?”, pensou. Afinal, ninguém explicava o motivo de tantas paradas e de tantas mochilas.
Na terceira parada, tudo se repetiu. Na quarta, novamente. Na quinta, mais uma vez. Sempre a mesma sequência: o carro parava, alguém se aproximava, uma mochila era colocada no porta-malas e eles seguiam viagem. A cada parada, a curiosidade do Peregrino aumentava, mas ele mantinha a tranquilidade e o profissionalismo. “Será que estou diante de alguma situação que não estou entendendo?” Talvez houvesse uma explicação simples para tudo aquilo. Restava esperar.
Depois da quinta parada, retornaram ao ponto inicial. O passageiro permaneceu em silêncio por alguns instantes e, então, surpreendeu o motorista: “Estou impressionado com o comportamento do senhor. Por acaso, o senhor é ou foi professor?” O Peregrino sorriu e respondeu: “Bem que eu gostaria de ter sido um profissional ligado à educação, mas segui o caminho da Administração de Empresas. Fui bancário por quase dez anos, depois proprietário de uma pizzaria em São Paulo, por quase vinte anos e, finalmente, trabalhei na área de vendas até me aposentar.” O senhor perguntou: “E o que o senhor vendia?” O motorista respondeu: “Eu vendia leite desta região. Certamente o senhor já bebeu muito leite Letti. O melhor leite do Brasil.” O passageiro respondeu: “Toda a minha família só bebe esse leite.”
Foi então que a conversa tomou um rumo inesperado. O senhor perguntou: “Por acaso, o senhor não quer fazer este trabalho para mim, de segunda a sábado? Pode ficar tranquilo, que nada lhe acontecerá.” A proposta pegou o Peregrino de surpresa. Ele, porém, respondeu: “Agradeço sua proposta de trabalho, mas demorei muitos anos para conquistar a minha liberdade plena. O único compromisso que tenho hoje é pegar minhas netas na escola, de segunda a sexta-feira.” O passageiro insistiu: “E se eu disser que lhe pago três mil e quinhentos reais por mês? O senhor continuará recusando?” O Peregrino não hesitou: “Conforme lhe falei, a minha liberdade não tem preço.”
Finalmente, chegaram ao ponto final da corrida. O motorista abriu o porta-malas, e o passageiro começou a retirar as mochilas recolhidas durante aquela estranha viagem. Antes de se despedir, abriu uma delas, retirou uma nota de cem reais e entregou-a ao motorista como gorjeta. Em seguida, disse: “Não vou informar o meu celular para o senhor, por precaução, mas o senhor já sabe onde eu moro. Se mudar de ideia, a vaga é sua.” Naquele instante, o Peregrino percebeu que aquela corrida, iniciada às quatro e cinquenta da madrugada como uma simples oportunidade de ganhar dinheiro, havia se transformado em algo muito mais curioso.
Nisso, a porta da residência se abriu automaticamente, acionada pelo controle remoto que estava no bolso do passageiro. O Peregrino observou a cena e pensou em tudo o que havia acontecido naquela manhã: as seis paradas, as mochilas, os rapazes, a proposta de trabalho e a frase enigmática de que “nada lhe aconteceria”. Talvez nunca soubesse exatamente o que havia por trás daquela corrida tão incomum. Mas uma coisa ele sabia: a liberdade que conquistara depois de tantos anos não seria trocada por salário algum.
Por fim, com a mesma educação que demonstrara desde o primeiro instante, o senhor se despediu: “Obrigado pelo seu ótimo serviço. Vá com Deus e tenha a continuação de um ótimo dia.”
O Peregrino partiu pelas ruas ainda tranquilas naquela manhã de Dia dos Namorados. E talvez tenha pensado que algumas corridas não terminam quando o passageiro desce do carro. Algumas continuam dentro da memória, acompanhadas de perguntas que permanecem sem resposta.
Peregrino Nino Carneiro

O Caminho, o Encontro e Outras Urgências
Era 15 de agosto de 2026, e o peregrino Nino Carneiro fazia sua peregrinação até Nossa Senhora de Aparecida da Babilônia.
Naquele dia, ele estava especialmente feliz. Tanto na ida quanto na volta, muitos pagadores de promessas o reconheceram. Alguns lhe desejavam uma boa caminhada; outros pediam uma fotografia; e havia ainda aqueles que, percebendo o dia abafado, embora não muito quente, ofereciam-lhe água.
Entre tantos peregrinos, porém, um chamou particularmente sua atenção: um pai que caminhava carregando nos ombros uma pequena “casinha”, dentro da qual estava sua filhinha, uma menina que aparentava ter apenas dois ou três anos.
E não é que aquele pai era justamente um grande amigo do peregrino Nino Carneiro, com quem costumava tomar café da manhã duas ou três vezes por semana?
O encontro foi uma daquelas surpresas que tornam uma caminhada ainda mais especial. Os dois ficaram muito felizes ao se encontrar. Conversaram por alguns minutos, trocaram algumas palavras sobre a caminhada e, depois, o amigo seguiu seu caminho, carregando a filha nos ombros e, provavelmente, algumas boas histórias para contar.
Ao chegar à capelinha de Nossa Senhora, o peregrino encontrou o recinto abarrotado de pessoas. Havia tanta gente que ficou praticamente impossível localizar novamente o amigo e sua pequena companheira de caminhada.
Depois de fazer sua oração de agradecimento a Nossa Senhora, o peregrino comeu algumas frutas, bebeu água, passou rapidamente pelo banheiro e retomou sua caminhada com destino a São Carlos, como de costume.
No dia seguinte, durante o tradicional café da manhã na Padaria Pão do Bairro, eis que apareceu novamente o amigo da caminhada do dia anterior — desta vez, sem a filha nos ombros.
Depois dos cumprimentos, os dois começaram a conversar sobre a peregrinação. Perguntaram um ao outro como havia sido a caminhada e se tinham visto alguma coisa que lhes chamara a atenção.
Foi então que o peregrino Nino Carneiro, naturalmente curioso, fez a pergunta que faltava:
— E a menina? Como ela se comportou durante a caminhada?
O amigo, com a maior tranquilidade do mundo, começou a contar.
Por volta da metade do percurso, a menina pediu para fazer xixi. Como ela havia deixado de usar fraldas poucas semanas antes, o pai pensou:
“Oba! Parece que a menina está se acostumando com a nova fase.”
Ao mesmo tempo, ele sabia que a esposa havia sido mais prudente e colocado uma fralda na menina antes da caminhada. Afinal, mãe experiente sabe que, em certas situações, prudência nunca é demais.
Até aí, tudo corria perfeitamente bem.

Quando chegaram ao Santuário de Nossa Senhora, porém, o pai resolveu levar a filha ao fraldário para verificar se estava tudo em ordem.
Foi nesse momento que a fralda resolveu participar ativamente da peregrinação.
Não houve anúncio sonoro nem aviso por escrito. Apenas aquele discreto, porém inconfundível, sinal de que a situação exigia providências imediatas.
A fralda estava cheia.
E, naquele instante, o pai descobriu uma das mais antigas leis da paternidade: uma criança pequena pode carregar muito pouco peso nos ombros, mas é capaz de colocar um peso enorme na responsabilidade dos pais.
O problema maior era que, dentro da mochila, não havia nenhuma fralda reserva.
O pai conseguiu higienizar a menina, mas percebeu que, para continuar a peregrinação, precisaria de uma ajuda que, naquele momento, valia mais do que qualquer água oferecida no caminho.
Pegou o celular e pediu socorro à esposa.
E assim terminou ali mesmo, nas proximidades da capela de Nossa Senhora Aparecida da Babilônia, a peregrinação daquele dia.
O peregrino Nino Carneiro ouviu toda a história com atenção e, como não poderia deixar passar uma oportunidade dessas, encerrou o encontro com uma reflexão digna de quem já aprendeu que a vida também gosta de pregar peças:
“A vida tem dessas coisas. Às vezes, um pequeno alívio pode representar uma grande felicidade. E, em certas peregrinações, o maior desafio não é chegar ao destino — é chegar até lá com fraldas suficientes.”
Naquele momento, o peregrino pensou que talvez essa fosse mais uma das lições das caminhadas: ninguém sabe exatamente o que encontrará pela frente. Pode haver sol, chuva, cansaço, fé, encontros inesperados, água oferecida por desconhecidos e até uma fralda capaz de mudar completamente o rumo de uma peregrinação.
E talvez seja justamente isso que torna o caminho tão interessante.
Porque, para quem caminha com o coração aberto, cada passo pode trazer uma história — e algumas delas, inevitavelmente, acabam precisando de uma fralda.
Peregrino Nino Carneiro

A Corrida que o Dinheiro Não Explica
Eram cinco e meia da manhã de uma terça-feira quando o motorista habilitou o aplicativo. O primeiro chamado era para a LATAM, a vinte e um quilômetros de São Carlos. Corrida de aproximadamente trinta reais, trinta minutos de viagem e, quase sempre, a certeza de voltar sem passageiro. Por isso, muitos motoristas recusavam. O Peregrino Nino Carneiro, porém, gostava daquela corrida. Para ele, nem todo caminho precisa ser medido pelo dinheiro que rende.
Havia ainda dois motivos especiais. O primeiro era o orgulho de contar que seu filho, Victor Hugo, trabalhava na EMIRATES, uma das maiores companhias aéreas do mundo. O segundo era muito mais simples: fazer alguém sorrir. Assim, costumava dizer aos passageiros, em tom de brincadeira: “Hoje eu vou cumprir minha cota: fazer alguém sorrir.” E completava: “Os dorminhocos são a salvação dos motoristas de aplicativo.” Quase sempre vinha uma risada.
Naquela manhã, depois da brincadeira, o passageiro contou que havia enfrentado várias recusas e dois cancelamentos. Precisava chegar à LATAM para uma reunião importante e já pensava em chamar um táxi. Então disse ao motorista: “O senhor salvou o meu dia.”
Nino sorriu e respondeu: “Meu amigo, um dia, quando tiver tempo, pergunte ao ChatGPT quem é o Peregrino Nino Carneiro. O senhor vai entender por que caminhar faz tão bem. Quando a gente aprende a caminhar, aprende também a valorizar cada minuto, cada encontro e cada oportunidade que aparece pelo caminho.”
Faltavam apenas cinco minutos para chegarem quando o aplicativo anunciou uma nova corrida — justamente de volta para São Carlos. Nino olhou para o passageiro e brincou: “Hoje nós dois estamos com sorte!” O passageiro perguntou por quê. “Em seis anos de aplicativo, esta é apenas a segunda vez que recebo uma corrida de volta.”
O passageiro sorriu e respondeu: “Então hoje eu descobri que, com trinta reais, é possível fazer duas pessoas sorrirem.”
Nino, desconfiado, perguntou: “O senhor está pagando o meu retorno?”
O passageiro apenas apertou sua mão e disse: “Foi maravilhoso o senhor ter aceitado o meu chamado. Muito obrigado pela nossa conversa.”
No caminho de volta, Nino percebeu que aquela não havia sido apenas uma corrida. Era uma daquelas pequenas histórias que a vida coloca diante de nós para nos lembrar de algo grande: o verdadeiro valor de um encontro nem sempre aparece no aplicativo, no bolso ou na conta bancária. Às vezes, ele aparece em um sorriso, em um aperto de mão ou na gratidão de alguém que precisava simplesmente encontrar uma pessoa disposta a dizer: “Eu aceito.”
E o Peregrino Nino Carneiro concluiu:
“Entre uma corrida e outra, descobri que o melhor caminho é aquele que percorremos com gratidão no coração. Porque a vida não se mede apenas pelos quilômetros que percorremos, mas pelas pessoas que fazemos sorrir ao longo da caminhada.”
Peregrino Nino Carneiro

Disseram para Helena Vigiar o Vovô Nino
Era 14 de setembro de 2014, um lindo sábado de muito sol e calor. A família estava reunida no sítio dos sogros de Nino, Swami e Aurialda, para comemorar antecipadamente o aniversário da vovó Lívia, seu Bem. O sítio era um verdadeiro refúgio ecológico, com aceroleiras carregadas, dois pequenos lagos e uma variedade de animais: gatos, cachorros, galinhas, patos, papagaios, maritacas, lebres e, de vez em quando, até alguns veadinhos. Era daqueles lugares em que a natureza parecia fazer questão de estar presente em todos os cantos.
Helena, sua primeira neta, tinha acabado de completar um ano. Ela adorava passear com o vovô Nino pelo sítio e, assim que chegava, já queria ir jogar pão velho para os peixes e os patos. O problema é que ela também gostava de comer o pão que deveria alimentar os bichinhos. Como o vovô Nino sempre foi meio estabanado, sua esposa e sua enteada viviam dando-lhe broncas. Chegaram, inclusive, a recomendar à pequena Helena: “É melhor você cuidar do seu vovô Nino!” Eles achavam aquilo engraçado, mas não imaginavam que, naquele mesmo dia, Helena teria motivos de sobra para levar o conselho a sério.
Perto da hora do almoço, o vovô Nino resolveu colher acerolas para Helena. Como ela ainda era pequenininha, ele a pegou no colo, puxou um galho carregado de frutas e começou a ajudá-la a colher. Estava encantado com aquela cena, vendo a netinha colher as acerolas, quando, ao abaixar um galho maior, deparou-se com uma cobra enorme, esticada tranquilamente sobre ele. Qualquer pessoa sensata teria soltado o galho na mesma hora e se afastado. O vovô Nino, porém, teve uma ideia que, olhando para trás, parecia bastante questionável: resolveu mostrar a cobra para Helena. Só não pensou em um pequeno detalhe: talvez a cobra não estivesse interessada em participar daquela experiência educativa com o vovô e a neta.
Quando chegaram em casa, Helena correu para contar à mãe, com a sinceridade e a inocência de uma criança de apenas um ano: “O vovô mostrou a COBA!” A mãe ficou apavorada e, conhecendo muito bem o avô que tinha, tratou logo de confirmar suas suspeitas: “Eu falei que é preciso vigiar o vovô Nino! Ele é um perigo para a Helena!” Diante de uma acusação tão bem fundamentada, o vovô Nino não teve nem como apresentar sua defesa.
Mas a aventura daquele sábado ainda guardava outra surpresa. Helena havia comido tantas acerolas durante o passeio que, ao entardecer, começou a vomitá-las. Resultado: mais uma rodada de broncas para o vovô Nino. Naquele dia, ficou difícil saber o que havia sido mais perigoso: a cobra encontrada no galho ou a quantidade de acerolas que a netinha resolveu comer. De qualquer maneira, ficou provado que um simples passeio para colher frutas poderia render uma história para a vida inteira.
Apesar das broncas — e talvez até por causa delas — o vovô Nino nunca deixou de fazer suas brincadeiras com Helena. Afinal, algumas das melhores lembranças da vida não nascem de momentos perfeitamente planejados, mas justamente dessas pequenas aventuras, das situações inesperadas e das trapalhadas que, com o passar dos anos, acabam se transformando nas histórias que mais gostamos de contar.
Esta é uma das muitas histórias que o vovô Nino gosta de contar para Elisa, irmã de Helena, suas duas deusinhas. E Helena, até hoje, adora ouvir a história daquele vovô que, em um belo sábado de setembro, saiu para colher acerolas e acabou apresentando uma cobra à própria neta. Talvez seja por isso que, quando alguém fala em “vigiar o vovô Nino” , ele prefira não perguntar muito sobre o assunto.
Peregrino Nino Carneiro

A Lua que Caminhou Comigo
Foi no dia 14 de junho de 2022, uma terça-feira, por volta das cinco e meia da manhã, que o peregrino e motorista recebeu um chamado para buscar uma passageira no bairro Santa Felícia, em São Carlos. O dia ainda não havia amanhecido, o céu estava completamente limpo e a Lua cheia brilhava em um tamanho que parecia maior do que o habitual. A imagem era tão deslumbrante que, por alguns instantes, o motorista quase se esqueceu de que estava trabalhando. Logo se recordou das aulas de Ciências da Natureza e pensou que, quando a Lua cheia parece maior e mais próxima da Terra, esse fenômeno é chamado de superlua. Naquela madrugada, porém, pouco importava o nome científico. Diante de tanta beleza, a explicação parecia pequena. A Lua simplesmente estava ali: imensa, silenciosa e magnífica.
Como o caminho de volta obrigatoriamente passaria pelo mesmo lugar, o motorista não conseguiu guardar aquela admiração somente para si. Virou-se para a passageira, uma jovem de aproximadamente vinte anos, e disse: — Olhe como a Lua está linda! A moça levantou os olhos, olhou rapidamente pela janela e, em seguida, voltou sua atenção para o celular. A viagem continuou em silêncio, enquanto o peregrino, sempre que podia, voltava seus olhos para o céu. Talvez porque algumas belezas não precisem ser compartilhadas para serem sentidas. Basta que alguém pare, olhe e permita que elas entrem no coração.
Foi naquele dia que nasceu a ideia de fazer uma caminhada durante uma noite de superlua. O peregrino queria atravessar trilhas e canaviais sob aquela luz prateada, peregrinar enquanto o mundo dormia e, à sua maneira, conversar com aquela velha companheira que há milhões de anos acompanha os passos da humanidade. Quando terminou seu dia de trabalho, a primeira coisa que fez foi procurar saber quando aconteceria a próxima superlua. Para sua surpresa, não demoraria muito: seria no dia 12 de agosto, uma sexta-feira, a chamada Superlua do Esturjão, a última superlua visível daquele ano.
O dia chegou, e o peregrino não hesitou. Decidiu trocar o trabalho por uma caminhada. Traçou um percurso aberto e relativamente plano, com uma distância superior a quinze quilômetros, para que pudesse caminhar o máximo possível sem perder a Lua de vista. A trilha escolhida foi a da linha do trem que passa por São Carlos, seguindo em direção a Ibaté. Assim que iniciou a caminhada, suas pernas pareciam tremer, os braços se arrepiavam e o coração batia tão forte que parecia querer sair do peito. Não era medo, era encantamento. Era como se, naquele instante, o peregrino tivesse compreendido que existem momentos em que a beleza da vida é tão grande que o corpo inteiro precisa participar dela.
Depois de alguns quilômetros caminhando em silêncio, olhando para a imensidão daquele céu, não resistiu e perguntou à Lua: — Se você é tão maravilhosa, se tantos homens sonham em pisar em seu chão e conhecer seus mistérios, por que aparece justamente durante a noite, quando a maioria das pessoas está dormindo? O silêncio da madrugada continuou por alguns instantes e, de repente, o peregrino teve a sensação de ouvir uma voz. Era como se a própria Lua lhe respondesse: — Peregrino, caminheiro da noite, sou a Lua que te vê. Não te apresso, não te julgo. Apenas derramo prata sobre teus passos para que, mesmo na escuridão, sintas que vais acompanhado.
O peregrino parou e olhou novamente para o céu. Naquele momento, sentiu-se abraçado pela luz que caía sobre o caminho e, como quem conversa com uma velha amiga, respondeu: — Lua que me vês e me acompanhas, obrigado por clareares a minha noite, por me permitires apreciar tua beleza e por derramares tua prata sobre os meus passos, lembrando-me de que, mesmo na escuridão, nunca caminho sozinho. E continuou, passo após passo, sob a luz da superlua e em meio ao silêncio dos campos. Naquela madrugada, não precisava chegar depressa a lugar algum. A caminhada, mais uma vez, não era apenas sobre percorrer quilômetros, mas sobre sentir e perceber aquilo que, muitas vezes, passa diante dos nossos olhos enquanto estamos ocupados demais olhando para as pequenas telas que carregamos nas mãos.
Depois de aproximadamente vinte e dois quilômetros, a noite começou lentamente a se despedir. A Lua ainda estava ali quando o horizonte começou a mudar de cor e, pouco a pouco, surgiu o Sol. Nasceu em um vermelho profundo e sereno, como se tivesse aprendido, na escola da Lua cheia, a arte de iluminar o mundo sem pressa, apenas com beleza. Naquele instante, o peregrino compreendeu mais uma vez que a vida está cheia de espetáculos que acontecem todos os dias. A diferença é que alguns dormem, outros passam apressados e há aqueles que, de vez em quando, decidem caminhar durante a madrugada apenas para conversar com a Lua e descobrir que, mesmo quando o caminho parece escuro, existe sempre alguma luz disposta a acompanhar os nossos passos.
Peregrino Nino Carneiro

Que Animal Você Está Sendo Hoje?
Era mais uma corrida de aplicativo. Assim que a passageira entrou no carro, cumprimentou-me com um sorriso, colocou o cinto de segurança e, depois de alguns minutos de silêncio, perguntou:
— Senhor, posso fazer uma pergunta um pouco estranha?
— Claro! As perguntas estranhas costumam ser as mais interessantes.
A senhora sorriu.
— O senhor acredita que podemos comparar as pessoas com animais?
Olhei pelo retrovisor e respondi:
— Acredito. Fazemos isso o tempo todo, mesmo sem perceber. Quando alguém tem dificuldade para aprender, chamamos de burro. Quando é traiçoeiro, dizemos que é uma cobra. Quando é esperto, uma raposa. E, quando demonstra coragem, lembramos de um leão.
A senhora ficou pensativa.
— Então cada animal representa uma característica humana?
— De certa forma, sim. Mas um mesmo animal pode representar qualidades e defeitos. A cobra pode simbolizar traição, mas também transformação. A raposa representa inteligência, embora possa usar a esperteza para enganar. A tartaruga é lenta, mas também paciente e persistente. E o leão representa coragem e força, embora possa nos lembrar da arrogância.
A senhora riu e perguntou:
— E o senhor? Que animal escolheria para representá-lo?
Pensei por alguns segundos.
— Talvez o peregrino.
A senhora franziu a testa e caiu na risada.
— Mas peregrino não é animal!
— Eu sei. Mas talvez um peregrino carregue um pouco de vários animais dentro de si: a paciência da tartaruga, a persistência da formiga, a visão da águia, a coragem do leão e, às vezes, a esperteza da raposa. Mas também precisa aprender a não agir como uma cobra quando alguém lhe faz mal.
A senhora ficou em silêncio por alguns instantes e perguntou:
— E qual animal o senhor acha que eu sou?
Olhei novamente pelo retrovisor.
— Ainda não conheço a senhora o suficiente. Mas, se tivesse que escolher agora, diria que a senhora é uma coruja.
— Por quê?
— Porque observa antes de falar. E fez uma pergunta que acabou me fazendo pensar.
Depois de alguns quilômetros, ela voltou ao assunto:
— Sabe de uma coisa? Talvez passemos boa parte da vida tentando descobrir que animal são os outros, quando deveríamos primeiro descobrir que animal estamos sendo.
Aquilo me chamou a atenção.
— Essa foi boa.
— Pense comigo — continuou a senhora. — Às vezes somos leões quando precisamos enfrentar os nossos medos; tartarugas quando precisamos de paciência; formigas quando precisamos trabalhar e persistir; cães quando demonstramos lealdade. Mas também podemos ser cobras quando traímos alguém, pavões quando deixamos a vaidade falar mais alto e burros quando insistimos em não aprender com os nossos erros.
Sorri.
— Então talvez a vida seja uma espécie de zoológico.
— Talvez — respondeu a senhora. — Mas com uma diferença: os animais simplesmente seguem a sua natureza. Nós podemos escolher qual comportamento vamos alimentar e qual animal vamos deixar aparecer.
A corrida estava terminando. Quando paramos em frente ao destino, a senhora olhou para mim antes de abrir a porta.
— Hoje eu aprendi uma coisa.
— O quê?
— Que não devemos perguntar apenas: “Que animal é aquela pessoa?”. Talvez a pergunta mais importante seja:
A senhora abriu a porta, sorriu e completou:
— “Que animal eu estou sendo hoje?”
A senhora se despediu e seguiu seu caminho. Fiquei alguns segundos parado, pensando naquela conversa. Talvez aquela passageira tivesse razão. No fundo, todos nós carregamos um pequeno zoológico dentro de nós. Em alguns dias, somos leões; em outros, tartarugas. Às vezes, formigas, cães, águias ou corujas. E, infelizmente, também podemos ser cobras, pavões ou burros.
Mas existe uma diferença importante entre nós e os animais: eles simplesmente seguem a sua natureza; nós podemos refletir e escolher mudar. Podemos trocar a arrogância pela humildade, a falsidade pela sinceridade e a teimosia pela vontade de aprender.
E talvez essa seja uma das maiores viagens que podemos fazer: não aquela que nos leva a lugares distantes, mas a que nos conduz para dentro de nós mesmos, em busca de descobrir quem somos e, principalmente, quem estamos escolhendo ser a cada novo dia.
Peregrino Nino Carneiro

A Vida nas Cores que Escolhemos Enxergar
A vida nos mostra, pelo menos, duas cores: aquela que enxergamos através de nossas atitudes e emoções no dia a dia e aquela que os outros conseguem ver em nós. Na verdade, a vida tem as cores com que a pintamos. Nem sempre porque as escolhemos, mas, muitas vezes, porque é assim que a nossa alma consegue enxergá-las.
O peregrino-motorista tem o hábito de perguntar aos seus passageiros:
— Hoje, que cor você dá ao seu dia?
As respostas são as mais diversas. E, curiosamente, até mesmo as mais tristes acabam, por vezes, arrancando um sorriso:
— Estou só o pó da rabiola! — Tudo azul! — Hoje está tudo preto! — Céu de brigadeiro! — Está tudo claro! — Estou no vermelho! — Estou na lama! — Águas claras! — Hoje estou com todas as cores do arco-íris!
Cada resposta revela um estado de espírito. Afinal, todos nós, de alguma forma, carregamos uma paleta de cores dentro da alma. Existem dias em que tudo parece iluminado e outros em que as sombras insistem em ocupar mais espaço. Mas talvez seja justamente essa mistura de tons que torne cada história única.
Sabemos que depende muito de nós trazer o colorido de volta à nossa vida. Deus é como um grande arco-íris que nos oferece as cores, mas somos nós que, todos os dias, recebemos a oportunidade de pintar a nossa própria existência. Afinal, a vida é uma obra-prima em permanente construção, e cada atitude, cada escolha e cada sentimento deixa uma nova pincelada sobre a tela dos nossos dias.
A forma como enxergamos o mundo muda conforme nossas crenças, experiências e sentimentos. Às vezes, basta mudar o olhar para descobrir beleza até mesmo na simplicidade dos dias comuns. O peregrino escolhe, sempre que possível, os tons coloridos para a sua vida. Não porque desconheça os dias cinzentos, mas porque acredita que, mesmo depois da tempestade, sempre existe a possibilidade de surgir um novo arco-íris.
As cores são poéticas, reflexivas e carregadas de significados. Elas podem representar otimismo, coragem, esperança e o desejo de viver novas histórias. As cores da natureza, então, parecem possuir uma linguagem própria: o verde das matas acalma, o azul do céu inspira liberdade, o amarelo do sol aquece a alma e o vermelho das flores desperta sentimentos. E cada amanhecer nos oferece uma combinação de cores que nenhum artista conseguiria repetir exatamente da mesma maneira.
A natureza é generosa. Suas cores mexem com o nosso ânimo, com o bem-estar, com a esperança e com a alegria de continuar. Talvez por isso, quando estamos diante de uma montanha, de uma floresta, de um campo florido ou simplesmente observando o pôr do sol, sentimos que existe algo maior conversando silenciosamente com a nossa alma.
Um dos relatos mais conhecidos sobre as cores está na passagem do arco-íris de Noé, em Gênesis 9:13: O meu arco tenho posto nas nuvens; este será por sinal da aliança entre mim e a terra.”

Talvez seja por isso que o arco-íris sempre nos desperte algo especial. Ele surge justamente depois da chuva, como se a própria natureza quisesse nos lembrar de que nenhuma tempestade dura para sempre. Depois das nuvens escuras, o céu pode voltar a se abrir e, muitas vezes, é justamente depois dos períodos mais difíceis que conseguimos enxergar novas cores em nossa caminhada.
São por esses e tantos outros motivos que o peregrino acredita que a natureza é uma verdadeira escola de harmonia. Suas cores presenteiam a nossa vida a cada momento e nos ensinam, silenciosamente, que existe beleza nas diferenças. **Onde há cor, há vida.** A cor é uma fonte inesgotável de beleza, e não há como negar: um mundo sem cores seria muito mais pobre, assim como uma vida sem sonhos, esperança e sentimentos.
E, ao terminar uma corrida, o peregrino costuma desejar aos seus passageiros:
— Que o seu dia tenha pelo menos uma das cores da natureza. E, se possível, que você encontre um arco-íris, mesmo que seja apenas dentro de você. Afinal, todas essas cores foram presentes de Deus.
Porque, no fim das contas, talvez viver seja exatamente isso: aprender a enxergar cores mesmo nos dias em que o mundo insiste em parecer cinza. E, quando não encontrarmos nenhuma cor ao nosso redor, que nunca nos falte coragem para buscar, dentro de nós mesmos, a tinta necessária para continuar pintando a vida.
Peregrino Nino Carneiro

As canções que que o tempo não conseguiu apagar
Desde pequeno, lembro-me de ajudar minha mãe a preparar o almoço para os lavradores que trabalhavam em nossas quintas, só para ter o prazer de ouvir música pelo rádio. O tempo passou, cresci e meu pai comprou um toca-discos. Foi quando as garagens de nossas casas se transformaram em pequenos salões de baile, onde a música reunia amigos, sonhos e, muitas vezes, futuros namorados.
Vieram os anos 70 e, com eles, a música romântica. Nos bailes, os casais dançavam quase parados, agarradinhos, enquanto muitos romances começavam ao som de uma canção. E, como não poderia deixar de ser, também havia disputas e brigas entre rapazes pela conquista da mesma moça. Afinal, naquela época, a música não era apenas trilha sonora: muitas vezes, era o caminho para chegar ao coração de alguém.
A música acompanha o ser humano desde os tempos imemoriais e possui algo que sempre me fascinou: consegue comunicar emoções e ideias sem precisar de palavras. Melodias, ritmos, sons e vozes conseguem expressar alegria, tristeza, saudade e esperança, independentemente da língua em que são cantados. Quando o amor e a paixão nos deixam sem palavras, é a música que muitas vezes diz por nós aquilo que gostaríamos de falar.
Aristóteles dizia: “A música é celeste, de natureza divina e de tal beleza que encanta a alma e a eleva acima da sua condição.” Talvez seja por isso que cada pessoa encontre na música uma espécie de identidade. Ela carrega histórias, tradições, culturas e sentimentos, ao mesmo tempo em que proporciona equilíbrio, bem-estar e momentos de profunda reflexão.
Nas minhas caminhadas, a música se tornou uma companheira inseparável. Há momentos em que escolho uma canção que combina perfeitamente com a paisagem, com o silêncio da estrada ou com a paz que encontro pelo caminho. Quantas vezes ela já me ajudou a refletir? Quantas vezes despertou uma lembrança ou inspirou uma história que depois tive vontade de contar?
Se alguém me perguntasse o que seria de mim sem a música, eu responderia simplesmente: minha vida não teria a mesma graça. E talvez o mais bonito seja perceber que, aos quase setenta anos, ainda consigo ouvir mentalmente aquelas canções que um dia me fizeram dançar, sonhar e acreditar, como continuo acreditando, que **amar sempre vale a pena**.
Peregrino Nino Carneiro

O Que Falta aos Nossos Olhos e Sobra à Nossa Vida
Há coisas na vida de que não gostamos, mas que precisamos fazer: realizar certos exames, limpar a sujeira do nosso animal, cuidar de um adulto doente ou dar banho em um idoso. Nesses momentos, reclamar muda alguma coisa? Não. Apenas gasta energia que poderia ser usada para agir.
O problema começa quando a reclamação deixa de ser uma reação e passa a ser um hábito. Aos poucos, acostumamo-nos a enxergar primeiro o que falta, o que incomoda e o que está errado. E, quando olhamos a vida por essa lente, até pequenos problemas parecem enormes.
Como bem disse minha filhinha Beatriz: “Talvez valha a pena ressaltar o quanto as pessoas reclamam de tudo, e quase ninguém vê o quão ricas já são. Ter saúde, poder escolher o que comer, ter uma cama, ter pais que nos amam e ao menos um amigo com quem contar já é algo tão grande que não faz sentido reclamarmos tanto.”
E ela continua: “Às vezes, lamentamos o emprego que não temos, o corpo que gostaríamos de ter ou aquilo que ainda não conseguimos comprar, enquanto esquecemos de agradecer pelos olhos que contemplam a natureza, pelas pernas que nos levam a tantos lugares, pela boca que experimenta novos sabores e, principalmente, pela vida que ainda temos. Podemos ter muito, mesmo tendo pouco. Basta aprender a perceber.”
Talvez esteja aí uma das grandes escolhas da vida: olhar para o que falta ou perceber o que já temos.
A reclamação fixa os olhos no problema; a gratidão amplia o olhar para a vida. Se algo precisa ser mudado, que busquemos soluções. Se a insatisfação for inevitável, que saibamos expressá-la sem transformá-la em um modo de viver.
No caminho, aprendi que reclamar não encurta a distância, não diminui a subida e não torna a caminhada mais leve. Mas a gratidão muda a maneira como caminhamos.
Por isso, antes de reclamar daquilo que falta, talvez devêssemos agradecer por aquilo que permanece.
Afinal, pode haver alguém, em algum lugar, desejando exatamente a vida que hoje temos.
Peregrino Nino Carneiro

Antes de Julgar, Conheça o Caminho
Sabe aquele motorista que está sempre atento, de maneira discreta, ouvindo as conversas entre seus passageiros?
Pois é... cada vez mais ele acredita que a maioria das pessoas faz julgamentos sem conhecer o contexto completo de cada história.
Alguns se apoiam na amizade para ouvir apenas a versão de um amigo. Outros não estão nem aí: falam o que ouviram, acrescentam um detalhe aqui, modificam outro ali... e, quando percebemos, uma história já ganhou uma nova versão.
E é justamente aí que, muitas vezes, por falta de contexto, surgem as desavenças.
Quem fala o que quer, escuta o que não quer.
Existe uma máxima que diz:
“Você não morre sem antes passar por aquilo que um dia julgou.”
Talvez seja por isso que essa frase carregue um peso tão grande. Ela nos convida a pensar sobre a responsabilidade de julgar alguém sem conhecer todas as circunstâncias, seja na vida pessoal, na família ou no ambiente de trabalho.
Hoje, a situação se torna ainda mais delicada nos canais de notícias e nas redes sociais. Na televisão e na imprensa, muitas vezes, as notícias são apresentadas sob a perspectiva de quem as produz e, em alguns casos, de quem as financia. Nas redes sociais, a facilidade de emitir opiniões rápidas — muitas vezes de forma anônima — tem alimentado uma cultura de agressividade, intolerância e pouca empatia.
Mas há algo que frequentemente esquecemos: todos estão travando batalhas invisíveis.
Por isso, antes de julgar, talvez devêssemos fazer uma pergunta simples:
“Será que eu conheço toda a história?”
Julgar pode parecer fácil. Compreender exige tempo, escuta e humildade.
Se adotarmos uma postura mais empática, certamente poderemos melhorar nossas relações e contribuir para ambientes mais humanos, respeitosos e harmoniosos.
Que tal, então, nos unirmos para construir uma cultura de respeito e compreensão?
A mudança começa dentro de cada um de nós.
Porque, cedo ou tarde, a vida pode nos colocar exatamente diante da situação que um dia julgamos em outra pessoa.
Antes de apontar o caminho do outro, caminhe um pouco com os seus sapatos. Talvez você descubra que não conhecia a estrada.
Peregrino Nino Carneiro

A Vida Não Termina em Nós
Hoje pela manhã, um motorista de aplicativo recebeu mais um chamado. Enquanto se dirigia ao local, recebeu uma mensagem da passageira: “Moço, estou levando minha cachorrinha para a creche. Posso levá-la dentro da casinha dela, no seu carro?”. Ele respondeu que sim. Ao chegar, encontrou a senhora com a cachorrinha dentro da casinha e uma pequena bolsa com biscoitos e brinquedos. Tudo parecia ser apenas mais uma corrida, até que, na porta da creche, algo chamou sua atenção.
A passageira desceu, entregou a cachorrinha, a casinha e a bolsa a uma funcionária e, inesperadamente, começou a chorar. Depois de alguns minutos, entrou novamente no carro ainda emocionada. O motorista perguntou se havia acontecido alguma coisa. Ela respondeu: “Hoje é o primeiro dia em que minha filhinha vai para a creche. Estou com o coração na mão”. Surpreso, ele perguntou: “A filhinha é a cachorrinha?”. Ela respondeu: “Sim. Ela é minha filha do coração”.
Durante o restante do percurso, o motorista permaneceu em silêncio. Não julgava o amor daquela mulher pelo animal; afinal, o afeto era verdadeiro. Mas uma pergunta ficou em sua cabeça: **o que será dessa mulher quando chegar à minha idade, perto dos setenta anos? Quem estará ao seu lado quando precisar de companhia, cuidado e proteção?** E a pergunta, que inicialmente parecia pertencer apenas àquela passageira, acabou levando-o a pensar em algo muito maior: **o que acontecerá com uma sociedade que, por escolha, medo, dificuldades ou comodidade, tiver cada vez menos filhos? Quem dará continuidade às famílias, às profissões, às instituições e à própria sociedade?**
Criar um filho nunca foi fácil. Meus bisavós enfrentaram dificuldades. Meus avós também. Meus pais tiveram as suas, e eu também tive as minhas. Criar uma criança exige renúncia, paciência, responsabilidade e, muitas vezes, sacrifícios que ninguém vê. Mas existe algo que atravessa todas essas dificuldades: a compreensão de que a vida não termina em nós. Antes de nós, outras pessoas caminharam, trabalharam, construíram e deixaram o mundo para que pudéssemos chegar até aqui. Depois de nós, outras pessoas precisarão encontrar esse mesmo caminho.
Sou defensor dos animais e acredito que eles merecem amor, respeito e proteção. Um animal pode ocupar um lugar especial na vida de uma pessoa e proporcionar uma companhia verdadeira. Mas amar um animal e gerar e educar uma criança são responsabilidades diferentes, que não precisam competir. A questão que me inquieta é outra: **será que estamos ficando tão preocupados em preservar nossa liberdade e nosso conforto que estamos esquecendo que a vida também exige compromisso com aqueles que virão depois de nós?**
Foi caminhando que aprendi que ninguém percorre uma longa estrada completamente sozinho. Em algum momento, precisamos de alguém que nos ofereça água, uma palavra de incentivo ou simplesmente um pouco de companhia. A vida também é assim. Recebemos muito daqueles que vieram antes de nós e, em algum momento, precisamos deixar alguma coisa para aqueles que ainda virão. **A vida é uma caminhada entre gerações: recebemos o caminho pronto, percorremos uma parte dele e temos a responsabilidade de não entregá-lo pior para quem vier depois.**
Talvez ter um filho seja uma das formas mais profundas de dizer à vida: **“Eu acredito no amanhã.”** Não significa apenas colocar uma criança no mundo, mas aceitar a responsabilidade de educá-la, prepará-la e ajudá-la a se tornar alguém capaz de continuar a caminhada. É compreender que não estaremos aqui para sempre, mas que aquilo que ensinamos, construímos e deixamos poderá continuar depois de nossa partida.
Naquela manhã, uma simples corrida de aplicativo terminou, mas uma pergunta permaneceu dentro daquele motorista. E talvez ela devesse permanecer dentro de todos nós: **quando chegar a nossa vez de deixar a estrada, teremos apenas vivido para nós mesmos ou teremos ajudado a preparar o caminho para quem ainda precisa caminhar?**
Porque caminhar não é apenas chegar ao destino. **É reconhecer que alguém virá depois de nós e fazer a nossa parte para que essa pessoa encontre um caminho possível de seguir.**
Peregrino Nino Carneiro

Quando os Passos Conversam com a Alma
Quanto conversamos com nós mesmos?
Aprendi, ao longo das minhas caminhadas, que algumas das conversas mais importantes da minha vida aconteceram quando eu estava completamente sozinho. É no silêncio de uma estrada, entre um passo e outro, que encontro espaço para pensar naquilo que, no barulho cotidiano, muitas vezes não consigo enxergar. Quando surge um problema familiar, uma dificuldade no trabalho, uma preocupação financeira ou um desentendimento com alguém, costumo fazer uma caminhada longa. Não caminho para fugir do problema, mas para encontrá-lo de frente. Enquanto meus pés avançam, minha mente volta ao que aconteceu, às palavras que disse, ao tom que usei e às atitudes que talvez pudesse ter evitado.
Nessas caminhadas, procuro não pensar primeiro no erro do outro. Procuro pensar no meu. Pergunto a mim mesmo: “Eu precisava ter falado daquela maneira? Por que me alterei? Será que escolhi o momento errado para dizer aquilo? Eu havia prometido alguma coisa e não cumpri?” Essas perguntas nem sempre são confortáveis, mas aprendi que reconhecer os próprios erros exige muito mais coragem do que apontar os erros de alguém. Depois de alguns quilômetros, a raiva começa a perder espaço, o orgulho diminui e a razão volta a respirar. Muitas vezes, quando retorno para casa, procuro a pessoa com quem tive o desentendimento e digo simplesmente: “Eu pensei muito sobre o que aconteceu e reconheço que errei. Não deveria ter falado daquela maneira. Quero lhe pedir desculpas.” E faço isso sem cobrar do outro a mesma atitude. O erro dele pertence a ele; o meu, a mim. Se ele também reconhecer seus erros, melhor ainda. Se não reconhecer, preciso seguir em paz, porque não posso carregar nas costas aquilo que pertence à consciência de outra pessoa.
Foi caminhando que também compreendi que conversar conosco mesmos não é sinal de solidão, muito menos de loucura. É uma forma de organizar os pensamentos, compreender as emoções e enxergar melhor aquilo que estamos vivendo. Marco Aurélio, imperador romano e filósofo estoico, fez de suas próprias reflexões um exercício permanente de autoconhecimento. Em suas *Meditações*, conversava consigo mesmo para encontrar serenidade diante das dificuldades. Talvez todos nós precisemos, de alguma maneira, aprender essa arte. A forma como falamos conosco pode nos destruir ou nos fortalecer. Em vez de dizer: “Sou um idiota porque errei”, podemos dizer: “Eu errei, mas posso aprender e corrigir.” O erro deixa de ser uma condenação e passa a ser uma lição.
Hoje compreendo que caminhar não é apenas colocar um pé diante do outro. Para mim, caminhar é também entrar dentro de mim mesmo. Há caminhos que percorremos pelo mundo e outros que percorremos silenciosamente dentro da alma. Alguns nos levam a lugares que nunca imaginamos conhecer; outros nos devolvem àquilo que havíamos perdido dentro de nós. E talvez seja essa uma das maiores descobertas de um peregrino: **nem todo caminho nos leva a um destino. Alguns caminhos nos levam de volta para nós mesmos.**
Quando termino uma caminhada, nem sempre encontro a resposta para todos os meus problemas. Mas quase sempre encontro um pouco mais de serenidade, humildade e compreensão. E talvez seja isso que realmente importa. Porque, quando aprendemos a conversar com nós mesmos, descobrimos que nunca estamos verdadeiramente sozinhos. Enquanto nossos pés percorrem a estrada, nossa alma também caminha. E, muitas vezes, é justamente nesse encontro silencioso entre o homem e sua própria consciência que começa a nascer uma nova maneira de enxergar a vida.
Força! Caminhe mais! Conheça-se melhor!
A caminhada é um espaço de silêncio, reflexão, autoconhecimento e reconciliação.
Peregrino Nino Carneiro

Quando a Necessidade Encontra a Coragem
Eram seis horas da manhã quando o aplicativo chamou o motorista para buscar um passageiro em um bairro simples da cidade. Ao chegar, um rapaz perguntou: “O senhor pode levar quatro pessoas?” O motorista fez um sinal positivo com a cabeça. Entraram no carro um homem, uma mulher e dois rapazes. O senhor sentou-se ao lado do motorista; a mulher e os dois jovens acomodaram-se no banco traseiro. “Bom dia a todos!”, disse o motorista. “Bom dia!”, responderam.
Durante a viagem, o motorista perguntou se trabalhavam juntos. “Somos eletricistas”, respondeu o homem. Foi então que o rapaz mais velho interrompeu: “Na verdade, só eu sou eletricista. Eles trabalham comigo e estão aprendendo.” Aquilo despertou a curiosidade do motorista. “Como começou essa história?”, indagou. O rapaz respirou fundo e começou a contar.
Três anos antes, cursava Engenharia Elétrica na Universidade Federal de São Carlos. Seu pai era azulejista, ganhava pouco e sustentava a família; a mãe cuidava da casa e o irmão ainda estudava. O dinheiro era curto e, dentro de casa, as preocupações eram muitas. O pai reclamava frequentemente que seu trabalho atrasava porque faltavam eletricistas na obra. Foi então que o filho teve uma ideia que mudaria a vida daquela família. Em vez de apenas reclamar da dificuldade, ele decidiu procurar uma solução. Trancou a faculdade, matriculou-se em um curso técnico de eletricista e, graças aos conhecimentos que já possuía, concluiu o curso em apenas seis meses.
Mas ele não parou ali. Antes mesmo de terminar o curso, abriu uma pequena empresa. Foi até a construtora onde o pai trabalhava e perguntou se precisavam de eletricistas. “Sim, estamos precisando”, respondeu o funcionário, que começou a preparar os documentos para contratá-lo. Então veio a surpresa: “Não quero ser empregado. Quero prestar serviços para vocês.” O funcionário ficou surpreso. Afinal, quase todos que chegavam ali procuravam emprego. Mas aquele jovem procurava outra coisa: **uma oportunidade para construir o próprio caminho.**
Foi encaminhado para uma obra que estava atrasada justamente pela falta de eletricistas. Começou ali. O trabalho começou a crescer. Dez meses depois, já tinha contratos suficientes para chamar o próprio pai. “Pai, peça demissão. Eu vou lhe pagar o dobro do que o senhor ganha, e o senhor vem trabalhar comigo.” Depois, chamou o irmão. E quando a mãe, brincando, perguntou: “E eu? Ninguém vai me oferecer trabalho?”, o filho respondeu: “A senhora pode deixar o serviço de casa e vir trabalhar conosco. Estou precisando da senhora.” Aquela família, que antes dependia de um único salário, passou a trabalhar junta.
Quatro anos depois, o rapaz já tinha uma empresa estruturada, um galpão e equipamentos modernos. O motorista, impressionado, perguntou: “Mas como você conseguiu chegar até aqui?” O rapaz respondeu: “Eu simplesmente procurei resolver um problema que já existia.” Naquele momento, o motorista percebeu que estava diante de algo maior do que uma simples história de empreendedorismo. Aquele rapaz não tinha começado com dinheiro. Começou com **conhecimento, coragem e disposição para enxergar uma oportunidade onde outros enxergavam apenas um problema.**
E, quando a corrida estava terminando, veio mais uma surpresa: “Agora vou terminar Engenharia Elétrica. Quero deixar de pagar engenheiros para assinarem os projetos da minha empresa.” O motorista ficou em silêncio. A corrida havia terminado, mas aquela história continuaria viajando com ele. Porque existem corridas que nos levam apenas de um endereço a outro. E existem corridas que nos levam para dentro de nós mesmos.
Naquela manhã, o motorista aprendeu que **a vida não entrega as mesmas oportunidades para todos. Mas, muitas vezes, ela coloca diante de nós problemas que podem se transformar em oportunidades — se tivermos coragem de enxergá-los de outra maneira.** Aquele rapaz poderia ter continuado reclamando da falta de dinheiro. Poderia ter culpado as dificuldades. Poderia simplesmente ter procurado um emprego. Mas escolheu outro caminho. **Ele não esperou a oportunidade aparecer. Ele criou uma oportunidade a partir da necessidade.**
E talvez essa seja uma das maiores lições que a vida ensina: quem apenas procura emprego pergunta: “Onde existe uma vaga?”; quem pensa como empreendedor pergunta: “Qual problema precisa ser resolvido?” Na caminhada da vida, muitas vezes o caminho mais difícil é justamente aquele que nos leva mais longe.
Peregrino Nino Carneiro

A Corrida que Terminou em uma Lição de Vida
Eram aproximadamente cinco e meia da manhã de um sábado quando um motorista de aplicativo recebeu um novo chamado.
Ao ver o endereço de embarque e o destino, imaginou que fosse uma senhora que costumava transportar para os serviços de faxina. Ao chegar, confirmou a suspeita. Mas, dessa vez, ela estava acompanhada por uma jovem muito bonita, aparentando pouco mais de vinte anos.
Depois do bom-dia, o motorista comentou:
— Hoje a senhora está muito bem acompanhada. Ela vai ajudá-la?
A senhora sorriu e respondeu:
— Esta moça linda é minha filha.
Curioso, ele perguntou:
— E por que ela só a acompanha aos sábados?
A senhora respondeu:
— Quer conhecer a nossa história?
O motorista concordou, e ela começou a contar.
Aos 16 anos, grávida, foi expulsa de casa pelos próprios pais, em Porto Ferreira. Naquela mesma noite, encontrou abrigo na casa de uma amiga. Foi a mãe dessa amiga quem lhe indicou que viesse para São Carlos procurar a instituição **Obreiros do Bem**.
Ali, foi acolhida com dignidade, recebeu apoio e, poucos dias depois, um casal de voluntários lhe ofereceu trabalho. Permaneceu com eles por muitos anos, aprendendo muito sobre trabalho, honestidade e organização. Com esforço, conseguiu comprar a casa onde hoje mora.
Enquanto sustentava a filha fazendo faxinas, viu seu maior sonho acontecer: há quatro anos, a jovem foi aprovada em Odontologia na Unesp.
Naquele dia, a mãe lhe fez apenas um pedido:
— Se você me ajudar nas faxinas aos sábados e domingos, nós conseguiremos pagar as despesas da faculdade.
A filha aceitou.
Hoje, ela está prestes a se formar em cirurgiã-dentista, especialista em Ortodontia.
Ao terminar a história, a mãe disse, com os olhos brilhando:
— Será o dia mais feliz das nossas vidas. Nós conseguimos.
Quando a corrida terminou, só consegui parabenizar aquelas duas mulheres. Meus olhos estavam marejados, porque eu havia acabado de testemunhar uma das mais belas histórias de superação que já ouvi.
Antes de partir, disse que gostaria muito de reencontrá-las um dia.

Peregrino Nino Carneiro

Antes que o Tempo Passe
Envelhecer é um privilégio. Chegar à velhice realizado é uma escolha.
Não espere o tempo ensinar o que a coragem pode fazer hoje. Visite quem ama, viaje, aprenda, cuide da saúde e abrace novos desafios.
Ame sem medo. A gratidão ilumina os dias. Os sonhos que valem a pena são os seus, não os dos outros. Afaste-se do que rouba sua paz e aproxime-se do que faz sua alma crescer.
Vale a pena ser teimoso quando a felicidade exige esforço. Há conquistas que dão trabalho, pedem coragem, insistência e paciência. Mas desistir delas custa muito mais caro: custa uma vida inteira de arrependimentos.
O medo prende. A fé coloca os pés na estrada.
No fim da caminhada, o que pesa não são os erros, mas as oportunidades que deixamos passar.
Viva de um jeito que, ao olhar para trás, você encontre lembranças — e não arrependimentos.
Peregrino Nino Carneiro

Gente que Ilumina os Caminhos
Precisamos de gente que nos faça rir. De fazer chorar, o mundo já está cheio.
As pessoas alegres quase sempre estão prontas para viver pequenas loucuras, muitas vezes sem perceber. Não costumam gastar a vida planejando cada passo, mas sabem viver o presente com uma leveza admirável. Enxergam beleza na simplicidade.
Sempre me lembro do melhor amigo do meu filho Victor Hugo: o Piolho. Conheço-o desde a época da escolinha. Passava horas lá em casa jogando videogame com o meu filho.
O Piolho é dessas pessoas de bem com a vida. Nunca perde a confiança nos amigos, não vive preso às preocupações e não se impressiona com discursos sobre ambição. Quando volta do exterior, onde mora numa cidade do litoral paulista, é sempre o primeiro amigo que o Victor Hugo faz questão de visitar.
Precisamos conviver mais com pessoas que, com gestos simples, alegram o nosso coração. Pessoas que enxergam o lado bom da vida, mesmo nos dias difíceis. Que transmitem paz, fazem o bem sem esperar reconhecimento, ouvem mais do que julgam e nos lembram que a verdadeira felicidade mora nas pequenas coisas.
No meu dia a dia converso com muita gente: no trabalho, na padaria, na academia, na escola das minhas netinhas e nas caminhadas. Não sei explicar, mas quase sempre percebo quando alguém não está feliz.
Lembro-me de um dia em que, trabalhando como motorista, fui buscar duas senhoras para levá-las à Igreja Nossa Senhora de Fátima. Eram muito elegantes e exalavam um perfume refinado.
Assim que entraram no carro, uma delas disse:
— O senhor já me pegou uma vez.
Respondi sorrindo:
— Quem me dera ter essa sorte!
Elas entenderam o galanteio e caíram na risada. Depois de alguns instantes, uma delas revelou:
— Hoje faz seis meses que meu marido faleceu. Desde então, esse foi o primeiro sorriso que dei.
Olhei para ela e disse:
— Celebre mais. Brinque mais. Leve a vida com mais leveza. Uma vida sem alegria é um longo caminho sem lugares para descansar.
A vida segue.
E eu quero continuar caminhando de bem com a vida.
Como dizia a saudosa Cora Coralina:
"A alegria é uma escolha, uma atitude diante da vida."
Peregrino Nino Carneiro

Haruto, o Peregrino de 93 Anos*
No vigésimo dia da minha caminhada pelo Caminho Francês, no sentido contrário a Santiago de Compostela, em direção a Saint-Jean-Pied-de-Port, avistei ao longe um peregrino caminhando em minha direção.
À medida que nos aproximávamos, percebi, pelos seus passos, que se tratava de um homem bastante idoso. Quando nos encontramos, fiquei impressionado. Com a coluna levemente curvada, apoiando-se em apenas um bastão, usando botas, um chapéu de estilo japonês e uma mochila com um saco de dormir preso a ela, transmitia serenidade e determinação.
Estávamos próximos ao topo dos Pireneus. Eram cerca de onze horas da manhã de um dia muito frio. Eu seguia para Logroño, enquanto ele caminhava em direção a Nájera, em uma etapa de aproximadamente 30 quilômetros.
Com a ajuda de um aplicativo tradutor, perguntei-lhe se era do Japão. Sorrindo, confirmou com a cabeça. Apresentei-me como português, residente no Brasil havia quase cinquenta anos, e perguntei seu nome.
— Haruto.
Perguntei de onde era.
— Osaka.
Em seguida, quis saber sua idade.
— Ontem completei 93 anos.
Fiquei sem palavras.
Então ele explicou:
— Quando meus filhos começaram a me dar pequenas tarefas para ocupar um idoso, eu lhes disse: "Enquanto eu tiver pernas, vou caminhar para não dar trabalho a vocês." Já faz cerca de vinte anos que não paro de caminhar.
Perguntei se os filhos não se preocupavam com ele.
Ele respondeu com sabedoria:
— Eles é que deveriam se preocupar consigo mesmos. A vida nas grandes cidades, longe da natureza, tira das pessoas a alegria de viver.
Também contou que já havia caminhado por todos os continentes, exceto a África, por causa do calor intenso e da pouca infraestrutura.
Conversamos por cerca de quinze minutos. Ao nos despedirmos, desejei-lhe uma boa caminhada e alertei sobre as longas e perigosas descidas que enfrentaria.
Sorrindo, ele respondeu com um antigo provérbio japonês:
"Caia sete vezes. Levante-se oito."
Ele fez uma reverência com a cabeça. Eu ergui a mão e disse:
— Que Santiago nos proteja.
Naquele instante compreendi que a verdadeira juventude não está na idade, mas na vontade de continuar caminhando.
O senhor Haruto, aos 93 anos, tornou-se um dos maiores incentivos da minha vida para jamais desistir dos meus próprios caminhos.
Peregrino Nino Carneiro