A Vida Não Termina em Nós Hoje pela... Peregrino Nino Carneiro
A Vida Não Termina em Nós
Hoje pela manhã, um motorista de aplicativo recebeu mais um chamado. Enquanto se dirigia ao local, recebeu uma mensagem da passageira: “Moço, estou levando minha cachorrinha para a creche. Posso levá-la dentro da casinha dela, no seu carro?”. Ele respondeu que sim. Ao chegar, encontrou a senhora com a cachorrinha dentro da casinha e uma pequena bolsa com biscoitos e brinquedos. Tudo parecia ser apenas mais uma corrida, até que, na porta da creche, algo chamou sua atenção.
A passageira desceu, entregou a cachorrinha, a casinha e a bolsa a uma funcionária e, inesperadamente, começou a chorar. Depois de alguns minutos, entrou novamente no carro ainda emocionada. O motorista perguntou se havia acontecido alguma coisa. Ela respondeu: “Hoje é o primeiro dia em que minha filhinha vai para a creche. Estou com o coração na mão”. Surpreso, ele perguntou: “A filhinha é a cachorrinha?”. Ela respondeu: “Sim. Ela é minha filha do coração”.
Durante o restante do percurso, o motorista permaneceu em silêncio. Não julgava o amor daquela mulher pelo animal; afinal, o afeto era verdadeiro. Mas uma pergunta ficou em sua cabeça: **o que será dessa mulher quando chegar à minha idade, perto dos setenta anos? Quem estará ao seu lado quando precisar de companhia, cuidado e proteção?** E a pergunta, que inicialmente parecia pertencer apenas àquela passageira, acabou levando-o a pensar em algo muito maior: **o que acontecerá com uma sociedade que, por escolha, medo, dificuldades ou comodidade, tiver cada vez menos filhos? Quem dará continuidade às famílias, às profissões, às instituições e à própria sociedade?**
Criar um filho nunca foi fácil. Meus bisavós enfrentaram dificuldades. Meus avós também. Meus pais tiveram as suas, e eu também tive as minhas. Criar uma criança exige renúncia, paciência, responsabilidade e, muitas vezes, sacrifícios que ninguém vê. Mas existe algo que atravessa todas essas dificuldades: a compreensão de que a vida não termina em nós. Antes de nós, outras pessoas caminharam, trabalharam, construíram e deixaram o mundo para que pudéssemos chegar até aqui. Depois de nós, outras pessoas precisarão encontrar esse mesmo caminho.
Sou defensor dos animais e acredito que eles merecem amor, respeito e proteção. Um animal pode ocupar um lugar especial na vida de uma pessoa e proporcionar uma companhia verdadeira. Mas amar um animal e gerar e educar uma criança são responsabilidades diferentes, que não precisam competir. A questão que me inquieta é outra: **será que estamos ficando tão preocupados em preservar nossa liberdade e nosso conforto que estamos esquecendo que a vida também exige compromisso com aqueles que virão depois de nós?**
Foi caminhando que aprendi que ninguém percorre uma longa estrada completamente sozinho. Em algum momento, precisamos de alguém que nos ofereça água, uma palavra de incentivo ou simplesmente um pouco de companhia. A vida também é assim. Recebemos muito daqueles que vieram antes de nós e, em algum momento, precisamos deixar alguma coisa para aqueles que ainda virão. **A vida é uma caminhada entre gerações: recebemos o caminho pronto, percorremos uma parte dele e temos a responsabilidade de não entregá-lo pior para quem vier depois.**
Talvez ter um filho seja uma das formas mais profundas de dizer à vida: **“Eu acredito no amanhã.”** Não significa apenas colocar uma criança no mundo, mas aceitar a responsabilidade de educá-la, prepará-la e ajudá-la a se tornar alguém capaz de continuar a caminhada. É compreender que não estaremos aqui para sempre, mas que aquilo que ensinamos, construímos e deixamos poderá continuar depois de nossa partida.
Naquela manhã, uma simples corrida de aplicativo terminou, mas uma pergunta permaneceu dentro daquele motorista. E talvez ela devesse permanecer dentro de todos nós: **quando chegar a nossa vez de deixar a estrada, teremos apenas vivido para nós mesmos ou teremos ajudado a preparar o caminho para quem ainda precisa caminhar?**
Porque caminhar não é apenas chegar ao destino. **É reconhecer que alguém virá depois de nós e fazer a nossa parte para que essa pessoa encontre um caminho possível de seguir.**
Peregrino Nino Carneiro
