As Seis Paradas e o Mistério das... Peregrino Nino Carneiro

As Seis Paradas e o Mistério das Mochilas
Era 12 de junho de 2023. Exatamente às quatro horas e cinquenta minutos da madrugada, o motorista Peregrino abriu o aplicativo de transportes. Ainda era noite, e a cidade começava lentamente a despertar. Quase no mesmo instante, recebeu uma chamada curiosa: a corrida informava vários pontos de parada e, para completar, o valor era bastante convidativo. O Peregrino pensou consigo mesmo: “Hoje é Dia dos Namorados. Quem sabe não vai ser uma ótima corrida!” Sem imaginar o que aquela viagem lhe reservaria, dirigiu-se ao primeiro endereço indicado pelo aplicativo.
O ponto inicial ficava atrás de um condomínio residencial no bairro do Embaré. Ao chegar, um senhor, aparentando estar na casa dos quarenta anos, muito bem-vestido e extremamente educado, saiu de um dos imóveis e entrou no carro. Depois de cumprimentar o motorista, explicou: “Senhor, nós temos seis paradas, sendo a última, esta de onde estamos iniciando a corrida.” O Peregrino respondeu tranquilamente: “O senhor é quem manda. Vou fazer o máximo possível para que o senhor goste do meu serviço.” Tudo parecia normal, embora aquela quantidade de paradas, logo de madrugada, já tivesse despertado sua curiosidade.
Na primeira parada, o passageiro pediu: “Por favor, abra o porta-malas do carro. Um rapaz que está me esperando vai colocar uma mochila.” O Peregrino abriu o porta-malas e, poucos instantes depois, um rapaz apareceu, colocou uma mochila no veículo e foi embora. Na segunda parada, exatamente a mesma cena se repetiu. Foi então que o Peregrino começou a desconfiar de que havia algo estranho naquela corrida. “O que será que está acontecendo?”, pensou. Afinal, ninguém explicava o motivo de tantas paradas e de tantas mochilas.
Na terceira parada, tudo se repetiu. Na quarta, novamente. Na quinta, mais uma vez. Sempre a mesma sequência: o carro parava, alguém se aproximava, uma mochila era colocada no porta-malas e eles seguiam viagem. A cada parada, a curiosidade do Peregrino aumentava, mas ele mantinha a tranquilidade e o profissionalismo. “Será que estou diante de alguma situação que não estou entendendo?” Talvez houvesse uma explicação simples para tudo aquilo. Restava esperar.
Depois da quinta parada, retornaram ao ponto inicial. O passageiro permaneceu em silêncio por alguns instantes e, então, surpreendeu o motorista: “Estou impressionado com o comportamento do senhor. Por acaso, o senhor é ou foi professor?” O Peregrino sorriu e respondeu: “Bem que eu gostaria de ter sido um profissional ligado à educação, mas segui o caminho da Administração de Empresas. Fui bancário por quase dez anos, depois proprietário de uma pizzaria em São Paulo, por quase vinte anos e, finalmente, trabalhei na área de vendas até me aposentar.” O senhor perguntou: “E o que o senhor vendia?” O motorista respondeu: “Eu vendia leite desta região. Certamente o senhor já bebeu muito leite Letti. O melhor leite do Brasil.” O passageiro respondeu: “Toda a minha família só bebe esse leite.”
Foi então que a conversa tomou um rumo inesperado. O senhor perguntou: “Por acaso, o senhor não quer fazer este trabalho para mim, de segunda a sábado? Pode ficar tranquilo, que nada lhe acontecerá.” A proposta pegou o Peregrino de surpresa. Ele, porém, respondeu: “Agradeço sua proposta de trabalho, mas demorei muitos anos para conquistar a minha liberdade plena. O único compromisso que tenho hoje é pegar minhas netas na escola, de segunda a sexta-feira.” O passageiro insistiu: “E se eu disser que lhe pago três mil e quinhentos reais por mês? O senhor continuará recusando?” O Peregrino não hesitou: “Conforme lhe falei, a minha liberdade não tem preço.”
Finalmente, chegaram ao ponto final da corrida. O motorista abriu o porta-malas, e o passageiro começou a retirar as mochilas recolhidas durante aquela estranha viagem. Antes de se despedir, abriu uma delas, retirou uma nota de cem reais e entregou-a ao motorista como gorjeta. Em seguida, disse: “Não vou informar o meu celular para o senhor, por precaução, mas o senhor já sabe onde eu moro. Se mudar de ideia, a vaga é sua.” Naquele instante, o Peregrino percebeu que aquela corrida, iniciada às quatro e cinquenta da madrugada como uma simples oportunidade de ganhar dinheiro, havia se transformado em algo muito mais curioso.
Nisso, a porta da residência se abriu automaticamente, acionada pelo controle remoto que estava no bolso do passageiro. O Peregrino observou a cena e pensou em tudo o que havia acontecido naquela manhã: as seis paradas, as mochilas, os rapazes, a proposta de trabalho e a frase enigmática de que “nada lhe aconteceria”. Talvez nunca soubesse exatamente o que havia por trás daquela corrida tão incomum. Mas uma coisa ele sabia: a liberdade que conquistara depois de tantos anos não seria trocada por salário algum.
Por fim, com a mesma educação que demonstrara desde o primeiro instante, o senhor se despediu: “Obrigado pelo seu ótimo serviço. Vá com Deus e tenha a continuação de um ótimo dia.”
O Peregrino partiu pelas ruas ainda tranquilas naquela manhã de Dia dos Namorados. E talvez tenha pensado que algumas corridas não terminam quando o passageiro desce do carro. Algumas continuam dentro da memória, acompanhadas de perguntas que permanecem sem resposta.
Peregrino Nino Carneiro