Que Animal Você Está Sendo Hoje? Era... Peregrino Nino Carneiro
Que Animal Você Está Sendo Hoje?
Era mais uma corrida de aplicativo. Assim que a passageira entrou no carro, cumprimentou-me com um sorriso, colocou o cinto de segurança e, depois de alguns minutos de silêncio, perguntou:
— Senhor, posso fazer uma pergunta um pouco estranha?
— Claro! As perguntas estranhas costumam ser as mais interessantes.
A senhora sorriu.
— O senhor acredita que podemos comparar as pessoas com animais?
Olhei pelo retrovisor e respondi:
— Acredito. Fazemos isso o tempo todo, mesmo sem perceber. Quando alguém tem dificuldade para aprender, chamamos de burro. Quando é traiçoeiro, dizemos que é uma cobra. Quando é esperto, uma raposa. E, quando demonstra coragem, lembramos de um leão.
A senhora ficou pensativa.
— Então cada animal representa uma característica humana?
— De certa forma, sim. Mas um mesmo animal pode representar qualidades e defeitos. A cobra pode simbolizar traição, mas também transformação. A raposa representa inteligência, embora possa usar a esperteza para enganar. A tartaruga é lenta, mas também paciente e persistente. E o leão representa coragem e força, embora possa nos lembrar da arrogância.
A senhora riu e perguntou:
— E o senhor? Que animal escolheria para representá-lo?
Pensei por alguns segundos.
— Talvez o peregrino.
A senhora franziu a testa e caiu na risada.
— Mas peregrino não é animal!
— Eu sei. Mas talvez um peregrino carregue um pouco de vários animais dentro de si: a paciência da tartaruga, a persistência da formiga, a visão da águia, a coragem do leão e, às vezes, a esperteza da raposa. Mas também precisa aprender a não agir como uma cobra quando alguém lhe faz mal.
A senhora ficou em silêncio por alguns instantes e perguntou:
— E qual animal o senhor acha que eu sou?
Olhei novamente pelo retrovisor.
— Ainda não conheço a senhora o suficiente. Mas, se tivesse que escolher agora, diria que a senhora é uma coruja.
— Por quê?
— Porque observa antes de falar. E fez uma pergunta que acabou me fazendo pensar.
Depois de alguns quilômetros, ela voltou ao assunto:
— Sabe de uma coisa? Talvez passemos boa parte da vida tentando descobrir que animal são os outros, quando deveríamos primeiro descobrir que animal estamos sendo.
Aquilo me chamou a atenção.
— Essa foi boa.
— Pense comigo — continuou a senhora. — Às vezes somos leões quando precisamos enfrentar os nossos medos; tartarugas quando precisamos de paciência; formigas quando precisamos trabalhar e persistir; cães quando demonstramos lealdade. Mas também podemos ser cobras quando traímos alguém, pavões quando deixamos a vaidade falar mais alto e burros quando insistimos em não aprender com os nossos erros.
Sorri.
— Então talvez a vida seja uma espécie de zoológico.
— Talvez — respondeu a senhora. — Mas com uma diferença: os animais simplesmente seguem a sua natureza. Nós podemos escolher qual comportamento vamos alimentar e qual animal vamos deixar aparecer.
A corrida estava terminando. Quando paramos em frente ao destino, a senhora olhou para mim antes de abrir a porta.
— Hoje eu aprendi uma coisa.
— O quê?
— Que não devemos perguntar apenas: “Que animal é aquela pessoa?”. Talvez a pergunta mais importante seja:
A senhora abriu a porta, sorriu e completou:
— “Que animal eu estou sendo hoje?”
A senhora se despediu e seguiu seu caminho. Fiquei alguns segundos parado, pensando naquela conversa. Talvez aquela passageira tivesse razão. No fundo, todos nós carregamos um pequeno zoológico dentro de nós. Em alguns dias, somos leões; em outros, tartarugas. Às vezes, formigas, cães, águias ou corujas. E, infelizmente, também podemos ser cobras, pavões ou burros.
Mas existe uma diferença importante entre nós e os animais: eles simplesmente seguem a sua natureza; nós podemos refletir e escolher mudar. Podemos trocar a arrogância pela humildade, a falsidade pela sinceridade e a teimosia pela vontade de aprender.
E talvez essa seja uma das maiores viagens que podemos fazer: não aquela que nos leva a lugares distantes, mas a que nos conduz para dentro de nós mesmos, em busca de descobrir quem somos e, principalmente, quem estamos escolhendo ser a cada novo dia.
Peregrino Nino Carneiro
