Coleção pessoal de MariaAlmeida
Não é aconselhável brincar-se com o acaso.
O destino somos nós que o fazemos, o acaso faz-nos a nós.
Sentada frente à televisão, com um gelado na mão, fechei os olhos para fugir às imagens que não absorvia.
Da primeira vez chorei. As lágrimas, uma a uma, haviam fendido a minha visão, avolumando-se no reduzido espaço das minhas pupilas, fazendo-me encolher e engolir em seco. Chorei, sim. Mas não sei se por ela, se por mim, ou se por ambas. O meu pasmo fora de tal forma doloroso que o mundo me parecera estranho. A voz que me passava as palavras mortíferas deixou, a partir de certo momento, de soar perto, para se distanciar numa amplidão longínqua que batia na minha alma e a fazia gritar silenciosamente, como se os portões do mundo se tivessem fechado na minha cara. Um ingénuo espanto de um sentimento enraizado e perdido e nunca iniciado. Ele havia partido. Não de mim, mas para bem mais longe de mim.
Agora, de olhos fechados, com as palavras novamente a ressoarem dentro da minha cabeça, repetidas e sublinhadas outra vez pela mesma voz, permaneço quieta e numa paz inexplicável, esquecida da minha dor e recusando-me a acreditar que ele a havia deixado para trás. De alguma maneira, como num milagre, sinto-o perto dela, confortando-a e apoiando-a, ele, um menino feito homem que necessita tanto de amor como ela. E esta é a verdade que guardo no meu pequeno coração, aquela que li no dele quando a minha alma invadiu a sua e em Deus a reconheceu. Esta é a minha verdade. E nada a pode tornar uma mentira.
Fazer tudo na hora, sem pensar, sem programar, mas simplesmente fazer, é sempre um amanhecer durante o qual a missão é somente viver.
Mesmo livre, prefiro correr riscos como se não houvesse amanhã. Amar, rir e viver. Valorizar cada segundo que possuo, cada momento que acontece e cada ternura que a mim permito e que o mundo me dá.
Aos poucos e poucos deixo de me atravessar por dentro, aprendo a soltar o sofrimento e início a minha própria travessia. Nenhum sentimento. Nenhum pensamento. A realidade é esta. Mesmo que se torne insuportável o afastamento de quem se esqueceu de nós, ainda que o coração guarde, a ânsia pela paz plena é o novo caminho que para mim construo. Afasto-me das portas encerradas que já não levam a lugar algum e reforço a janela da vida - a da minha vida. Os limites normais das pessoas normais não são do meu mundo. Eu conheço-me. E sei que sou capaz. Assim seja.
Se os seus problemas são realmente difíceis e espera benevolência de quem sempre coloca os próprios problemas acima de tudo e de todos, repense, silencie e afaste-se.
Não posso perder o futuro, por isso deixo o passado e basta-me o que tenho dentro para viver o presente.
Agradeço a Deus todo o amor que existe na minha vida.
Agradeço à vida poder compartilhá-lo com os outros.
O frio surpreendeu-a ao sair do carro.
A claridade não chegou propriamente a verificar-se e a neve desembaraçava-se para além da invernal primavera.
Levantou a gola do casaco e puxou-a, tentando não sentir a temperatura que caía a pique.
Um homem olhou-a e fixou-a com as pupilas penetrantemente recortadas. Evitou o olhar ostensivo e apressou o passo com uma facilidade impressionante.
Sorriu à sua própria sombra.
Fizera bem em ir.
O canto dos anjos invadia e adensava o seu pensamento.
