Coleção pessoal de MarcileneDumont
Minha mãe tem cabelo de algodão-doce cansado,
daquele que o tempo foi soprando devagar…
e mesmo assim ainda adoça o dia de quem chega perto.
O rosto dela é estrada de barro batido,
listrado pelas chuvas que já enfrentou…
mas firme, como quem nunca saiu do lugar que ama.
O café dela nunca é só café,
é colher batendo na xícara marcando o tempo…
como relógio simples ensinando a vida a não parar.
Minha mãe mexe o açúcar devagar,
como quem tenta adoçar o mundo…
sem fazer barulho pra não assustar a dor.
Ela é dessas que conversa com planta,
e jura que o sabiá responde…
porque quem tem fé entende até o silêncio cantar.
Minha mãe é livro que não pode empoeirar,
porque cada página esquecida…
é um pedaço da gente que deixa de existir.
Saudade dela não é ausência,
é presença que não cabe no abraço…
e por isso transborda pelos olhos.
Tem dia que ela é rede na varanda,
balançando entre o cansaço e a fé…
sem nunca deixar ninguém cair.
Se um dia ela for embora,
vai ficar espalhada nas pequenas coisas…
no barulho da colher, no canto do sabiá, no balanço de uma rede.
Tem dias que a alma vira rede na varanda:
balança entre o cansaço e a esperança…
até o descanso encontrar a gente.
A vida não vem com manual,
vem igual bordado de joaninha…
um pontinho de cada vez até formar sentido.
A lágrima é chuva particular:
quando cai, ninguém vê o céu nublado…
mas por dentro já trovejou faz tempo.
A lua não brilha, ela devolve…
feito espelho educado da noite,
ensinando que até refletir já é luz.
Tem coração que é igual casa de vó:
porta aberta, cheiro de afeto…
e sempre cabe mais um mesmo apertado.
tempo escorre igual café passado na hora:
quente, forte e impossível de segurar…
quem não prova, perde o gosto da vida.
Meu pensamento às vezes é pipa sem dono,
sobe alto, dança no invisível…
mas sempre tem Deus com uma linha me puxando pra fé.
Tem dia que o céu parece lençol estendido,
e Deus sacode as nuvens devagarinho…
só pra gente lembrar que ainda existe vento.
O maracujá por fora é calmaria enrugada,
mas por dentro guarda tempestade doce…
igual gente que aprendeu a sorrir depois das trovoadas.
Deus às vezes fala baixo,
igual brisa mexendo folha…
porque quem tem fé aprende a ouvir sem barulho.
A joaninha anda vestida de festa
com seus botõezinhos pretos costurados à mão…
lembrando que até o pequeno nasce pronto pra encantar.
O sol hoje caiu no chão
feito moeda escapando do bolso de Deus…
e a água ficou rica de luz por um instante.
