Coleção pessoal de Lulena
UM MUNDO INTANGÍVEL
(No tempo que a alma teima em processar)
Meu desejo é o espelho do que aguento ser. A vida não me limita; ela apenas me protege de carregar um mundo que ainda não cabe nas minhas mãos. Às vezes até alcanço, mas ele desliza, em fração de segundos.
Lu Lena / 2026
LONGE DE PERTO
(O paradoxo do voo)
Impressionante como, muitas vezes, voamos tão longe e, absurdamente, não conseguimos pousar em lugares tão perto.
Lu Lena / 2026
PÉROLAS DE LUZ
(Quando o pranto se torna constelação)
Cada lágrima derramada, Deus manda um anjo com um cálice para que nela seja transformada em pérola de luz. Com elas, Ele salpica cada estrela no céu, para que, toda vez que olharmos para cima, elas brilhem e nos digam: Deus cuida de você!
Lu Lena / 2026
VIDAS UNIFICADAS
(Quando a paciência se torna a única luz no escuro de uma crise)
Um estouro. Lâminas de silêncio pelo chão. Suspiro fadigado pelo tempo em mais uma crise de um mundo que quero entrar e desconheço. As lágrimas não caem mais. Secaram e deram um nó no peito. Olhar confuso. Coração disparado. Autismo? Vidas unificadas em cores desbotadas em mais uma fase de vida, que já nem sei se é dia ou se é noite, resiliente em só paciência e amor.
Lu Lena / 2026
O AUTISMO ENTRE "ASPAS"
(O esquecimento do adulto e o silêncio da mãe)
Autistas, ao atingirem a idade adulta, tornam-se esquecidos.
No início, há uma luta desenfreada. Quando ainda são crianças, a gente nutre a doce ilusão de que o autismo poderá ser “revertido”. Mas o tempo passa.
À medida que crescem, vamos ficando calejadas. Calejadas de buscar respaldo do governo, de clínicas assistenciais, de redes de apoio... de bater em portas que insistem em não abrir.
E, então, eles são esquecidos. E nós, as mães, também.
O mundo para. Para o adulto autista e para a mãe, que já não enxerga mais o horizonte. Quando eram crianças, a gente via muito além do arco-íris. Mas, na vida adulta, o arco-íris some.
Nossa porta se fecha. O que nos resta é apenas uma janela aberta.
Uma janela que se escancara para deixar entrar a luz nos raros “momentos de oásis”... ou que se fecha apertado para nos proteger da tempestade das crises.
O autismo não termina na infância, mas o olhar do mundo, infelizmente, parece se fechar ali.
Lu Lena / 2026
LUMINESCÊNCIA DE MÃE
(O despertar de dois mundos após a tempestade.)
Janela para a vida que se abre. A cortina de voal parece acenar; o passarinho no poste de luz canta uma sinfonia. O dia amanhece.
A noite agitada em mente confusa, dispersa num autismo que agora relaxa e adormece, fica para trás. Olho para o sol que sorri e peço, em silêncio: que sua luz traga o meu mundo e o de meu filho para o lado de fora.
Lu Lena / 2026
O TATUAR DA ALMA NO ESCURO
(O medo também pode levar à luz)
O medo é, muitas vezes, apenas o sintoma da nossa própria incompreensão. Ele nasce do vazio do nada, mas basta enfrentar a escuridão de olhos vendados até encontrar o interruptor da luz.
Lu Lena / 2026
O COMPASSO DA EXISTÊNCIA
(Onde a memória fragmentada reencontra o sentido do caminho)
A velhice não carrega mais aquele entusiasmo do início; vive caminhando com a bengala do tempo entre a nostalgia do meio e a expectativa do fim, sinalizando, em sua fragmentada memória, as texturas de sua história.
Lu Lena / 2026
MENINA MULHER
(A força de hoje é o escudo da criança de ontem)
Que minha menina interior não se assuste com a versão mulher — às vezes frágil, mas muitas vezes leoa —, pois o hoje dela é a sua proteção lapidada de ontem.
Lu Lena / 2026
O MAPA DO INVISÍVEL
(Entre o ensaio da voz e a verdade do vácuo)
A fala rascunha a intenção, mas o silêncio entrega o destino.
Lu Lena / 2026
A CHAMA QUE NÃO SE APAGA
Quem trata a esperança como vela morre no escuro; ela tem que ser incêndio para que ninguém ouse chegar perto e tentar apagar.
Lu Lena / 2026
GOTEIRAS DA INFÂNCIA
(No chão que a saudade regou)
Quando criança, eu achava que a chuva era o choro de Deus. Hoje, compreendo que aquela visão pueril não trazia goteiras de melancolia, mas sim o orvalho que preparava o solo fértil; essa lembrança desenhava, o tempo todo, o meu chão para que a vida pudesse, enfim, brotar e florescer. Mesmo que, no decorrer desse caminho, alguma flor murche, ela não morre, pois Deus sempre me estende um regador.
Lu Lena / 2026
TOQUE DE NEBLINA
(Entre o peso das ruínas e o rastro das nuvens)
De cada queda que sofri, ergui uma muralha... Mas os sonhos não alcancei; toco-os levemente com os dedos, mas eles se dissolvem nas nuvens.
Lu Lena / 2026
O ENCAIXE DESCONEXO
(A desconexão de viver em um quebra-cabeça de peças ausentes.)
A minha desconexão da vida é ter um problema sem solução. Como a solução não existe, resta o meu esforço de me encaixar dentro e fora dele, em um mundo literalmente formado por peças que não se ajustam.
Lu Lena / 2026
Viver o luto de entes queridos é como ser uma alma flutuante em um corpo oco
— totalmente sem direção.
Lu Lena / 2026
MANIFESTO DA HIBERNAÇÃO
Do sonho a gente acorda, da realidade às vezes a gente hiberna.
Lu Lena / 2026
GRITO CALADO
(retalhos de recordações)
Lanço voo nos lençóis alvos que
se descortinam no campo estelar;
em meus olhos, pontos cintilantes
que ofuscam o meu olhar…
na obscuridade, a ardência e o
peso das pálpebras que insistem
em ocultar…
na deriva de meus pensamentos,
sensações vibrantes…
no céu…
um pássaro a desenhar
o esboço inglório que resplandece
em "flash", como raios de luz.
Oscilam as recordações que
costurei em retalhos e cerzi
com as marcas e as nuances,
nessa incógnita que adormece
minha sobrevivência em ti;
e na mudez de minha voz,
inerte em estado de dormência,
em transe… na garganta
estão as minhas
lágrimas presas
que ainda insistem
em cair…
magia, divagação...
nesse contentamento,
lá fora vejo o balançar
da árvore que faz
ruído com as folhas
que se dispersam
na brisa do vento…
em meu silêncio
trancado,
teu nome ecoa dentro
de minh’alma
num grito calado…
Lu Lena / 2026
BARCO À DERIVA
(Entre Ondas e Solidão)
Dentro de mim
navegas como um barco
incerto, à deriva...
Ondas gélidas e enfurecidas
que vêm e vão...
Nesta turbulência em que me
fecho em ostra, esboçando
um sorriso esmaecido.
Açoita em minha alma essa
solidão...
Momento insone em que lágrimas
ardem em minhas retinas...
Gotículas que ferem, agulhas
no meu coração...
Num choro compulsivo desta
lembrança de dor que ainda sinto
daquela partida...
Desmoronando em cada arrebentação.
Lu Lena / 2026
