Coleção pessoal de Lulena

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O VALOR DO QUE É ETERNO
(Homenagem Póstuma Rita Lee)


​Existem palavras que a gente escreve e que ganham asas próprias. Hoje, decidi fazer um resgate de um momento que foi um verdadeiro divisor de águas na minha trajetória literária.


​Os que estão me conhecendo agora talvez não saibam, mas essa frase de minha autoria — que nasceu no início das minhas publicações aqui no site Pensador que acabou atravessando fronteiras que eu jamais imaginei.


​Em maio de 2023, durante a despedida da nossa eterna Rita Lee, essas palavras foram escolhidas pela atriz Isis Valverde, para prestar uma homenagem póstuma que repercutiu em veículos como a Revista Caras.


​"O que importa é o talento que vem da alma, o corpo é perene e em breve se desfaz... a alma se perpetua na imortalidade!"


​Mesmo após algum tempo, faço questão de trazer esse registro novamente. Primeiro, porque a imortalidade da alma e do talento (como o da Rita) nunca sai de moda. Segundo, para reforçar que cada micro-conto, cada crônica e cada verso que compartilho aqui carrega essa mesma verdade e dedicação de anos.


​Agradeço a cada um que faz parte dessa jornada comigo, desde o início ou desde agora.


Lu Lena / 2026

TERÇO DA INTUIÇÃO
(Um Caminho de Luz em Cinco passos)

​A oração é um diálogo livre, e hoje compartilho com vocês a forma que fui intuída a rezar o meu terço. Nele, cada mistério é um passo por um caminho de luz:

​🌍 1º Mistério: Pela humanidade, pedindo cura e conforto para todos os corações.

​✨ 2º Mistério: Aos meus santos devotos, anjos e arcanjos, honrando minha rede de proteção.

​♥️ 3º Mistério: Pela minha família e amigos, o alicerce do meu caminhar.

​🙏 4º Mistério: Por mim, pedindo sabedoria e perseverança na minha fé.

​💙 5º Mistério: À todas as denominações de Maria, que se unem num só manto de amor.

​Rezar assim me traz paz. E você, já experimentou falar com o sagrado do seu jeito? 📿✨

​Lu Lena / 2026

​A PRIMEIRA CORDA BAMBA
(​Entre o cordão umbilical e o aprendizado da queda.)

Nascemos em uma corda bamba chamada cordão umbilical. Caminhamos entre acertos e erros e, até encontrar a perfeição, levaremos muitos tombos; o equilíbrio exige muita disciplina.

​Lu Lena / 2026

O sorriso muitas vezes é o abraço que a alma gostaria de receber.

Lu Lena / 2026

​O RITUAL DAS MÃOS LIMPAS
(A reconstrução da essência)

​Às vezes me pego pensando no tempo; olho o relógio que teima em ficar torto no armário da cozinha. Estou sempre endireitando-o, como se ele captasse minha inconstância entre o despertar e o anoitecer.

Houve uma época em que acreditei que o vazio daquela dor seria um inquilino permanente. Ela ocupava os cantos da casa, sentava-se à mesa e, silenciosamente, projetava uma sombra que parecia maior do que minha própria estatura.

Foi um período de invernos internos, onde o sofrimento não era visitante, mas o cinzel que, golpe após golpe, removia o que eu julgava ser essencial.

​Foi uma caminhada de olhos vendados; eu só via a terra árida, como em um deserto sem oásis. O que eu não sabia, enquanto as feridas ainda estavam abertas, é que aquele mesmo cinzel esculpia a mulher que vejo hoje no espelho.

Talvez não fosse apenas dor, mas a mágoa e a incredulidade de percorrer tal caminho. Com uma ironia cruel, esse processo me quebrou, mas também me reconstruiu, fortalecendo minha essência e dignidade.

​Mas chega o dia em que a maturidade nos ensina que tudo passa; até a sombra na memória torna-se um fardo inútil. Olhei para o passado e vi o rastro que ficou — linhas mal traçadas num bloco de anotações que insistiram em projetar esse "risco" na minha jornada.

Por muito tempo, tentei justificar ou curar o que não me pertencia. Hoje, o silêncio substituiu o lamento.
​Em um gesto quase litúrgico, faço como Pilatos: lavo as minhas mãos.

Deixo que a água leve os resquícios daquela influência, o peso e a poeira dos dias em que me senti pequena. Não há ódio, pois o ódio ainda é um vínculo; há apenas a indiferença da libertação.
​Sigo sem olhar para trás.

A sombra ficou onde as luzes não chegam e eu, finalmente, descobri que o idioma da minha pele agora só traduz liberdade. Volto a olhar o relógio torto na parede que, ironicamente, parece entender o que sinto.

​Foi naquela terra de chão batido que fui plantada. Deixei de ser raiz seca para me tornar árvore frondosa, cujos galhos são como braços enormes e as folhas como dedos de Deus. Observando o dia nublado — cinza como aqueles dias de outrora —, vou até a pia, respiro fundo e encaro o espelho:

​"Sei que, às vezes, posso parecer louca, mas é exatamente nessa insanidade que meus pensamentos revelam que hoje sou completamente sã."

​Num ato profético, repito o gesto de Pilatos e, definitivamente, saio de cena.

Lu Lena / 2026

O INTERDITO DO SER
(​Quando a resiliência se torna uma cela invisível.)

​Muitas vezes possuímos a força necessária, mas enfrentamos circunstâncias tão adversas que nos retiram o direito ao sentir; há uma interdição externa que nos nega essa permissão.

​A vida vai passando, e os ponteiros do relógio parecem cavalos selvagens correndo na praia deserta, com sede urgente de um oásis. São como os dias que nascem e morrem: às vezes nos exigem o encilho, mas em outros nos negam o fôlego.

​Então, erguemos castelos de resiliência sobre terrenos movediços, dunas disformes e mares agitados. Sob o peso do dever, os ombros aprendem uma postura que não admite o tremor.

Temos, inevitavelmente, a força — essa força bruta, quase descomunal, que nos mantém de pé quando tudo ao redor desmorona. Mas é uma força solitária que ninguém vê; só a gente sente e observa, desprovida de alento.

​As circunstâncias são como carcereiras invisíveis que impõem o silêncio aos nossos afetos. É a pressa do mundo, o rigor do papel que desempenhamos, a interdição de quem nos olha esperando apenas a solução, nunca o cansaço. O mundo nos aplaude a armadura, mas ignora a pele que pulsa por baixo dela.

​Negam-nos a permissão. Dizem que o sentir é um luxo para tempos de bonança, um desvio de rota para quem tem pressa em chegar. E assim seguimos: fortes por fora, mas com um deserto de palavras não ditas por dentro. Pois a dor que não encontra o direito de ser sentida não desaparece; ela apenas se acumula nas frestas da nossa estrutura, esperando o dia em que a força, finalmente, se canse de ser apenas pedra e reivindique o seu sagrado direito de pulsar.

​Porque a vida, tal qual uma vertente de rio, não foi feita para ficar represada em armaduras; ela nasce para contornar obstáculos e, enfim, desaguar no sentir.

Lu Lena / 2026

​O ECO DO VILAREJO
(​Fragmentos de um tempo de Outrora)

​E a flor se abriu em rosa ao longe, muito longe, ao som do realejo. Anjos do vento trouxeram-me os sonhos que deixei em tempos de outrora naquele vilarejo. Desperto e o que vejo, apenas o rastro do que foi, uma memória que flutua na fresta da janela: que são as pétalas encurvadas dançando com o vento.

​Lu Lena / 2026

​JANELAS ABERTAS

​Abri a janela e o vento bagunçou meus papéis. Os versos caíram, mas o mofo do passado voou com a correnteza. Respirei o aroma de flores. Juntei as letras e, hoje, a poesia sorri para mim.

Lu Lena / 2026

​GRITO NA ESCURIDÃO
(​Entre o pesadelo e a redenção)

​Meu grito ensurdecedor,
abafado e ganido...
Minhas lágrimas doridas,
trancafiadas na garganta,
secas, espremidas num
coração corroído...
Sem forças e aflita,
rastejo-me...
Na lama fétida e fria,
meu corpo enfraquecido
lentamente sinto...
As pálpebras que fecham.
​Pergunto a mim mesma:
Morri, será?
Ou apenas mais um pesadelo
interminável, na tentativa
estúpida e inócua de
encontrar-te nessa vida?
​Estou cansada, novamente
entrego-me à mercê dos seres
que zombam de minha dor...
Impossível nesse lamaçal
encontrar você, meu amor...
​Olho para meu corpo e não
o reconheço...
Dou voltas num poço fétido,
imenso...
​Sim, a luz eu vejo, o clarão!
Teu rosto disforme vejo
na imensidão...
Nesse devaneio, por alguns
instantes, seguro tua mão...
​Imploro-te!
Tire-me desse vão
onde você me colocou sem
dó e perdão...
Mate-me de vez,
então...
Para que meu grito
ecoe na escuridão...

​Lu Lena / 2026

​LÁPIDE DA ALMA
(​A peregrinação final da saudade)

​Nas lágrimas que borram o céu altivo,
vejo a lua que chora, triste e sombria;
as estrelas, espremidas e sem brilho,
na trágica sina de minha melancolia.
​No vão oco e obscuro de minha incoerência,
busco-te num coração flagelado e de luto;
perambulando em busca de minha existência,
sou peregrina enclausurada num reduto.
​Teu sorriso disperso na luz do luar eu vi...
sigo nesse destino que congela e paralisa,
nesse arrebatamento transfigurado em ti.
​Saudade enegrecida que causa tanto tormento,
círculo vicioso que entorpece e me agoniza…
Diante da lápide, minhas lágrimas borram o teu retrato,
e o vazio, enfim, em mim se eterniza.

​Lu Lena / 2026

​REVÉRBEROS NA ESCURIDÃO
(​O despertar entre o estuário e a luz letal)

​Vi o holocausto e a natureza morta entre pedregulhos;
nasceram ervas daninhas e me alimentei do ar, da água, da terra…
Sombras do tempo envoltas num mistério obscuro,
sem presente, passado ou futuro.
​Fui rastejando nesse filete de luz letal
que vai delineando os córregos, como lanterna
que clareia a minha escuridão…
​Mergulhei em lágrimas e naufraguei no fundo do estuário;
e nesse cenário inglório, onde me sinto fraca e fugidia,
pálida e sem vida, ouço anjos tocando harpa
num inferno sem calvário.
​Completamente atordoada, em plena suspensão,
vejo minha alma levitando no espaço
e meu corpo decompondo-se no chão.
​Vejo revérberos de almas se esbarrando na escuridão.
​Num sobressalto, acordo...
E já não sei se foi a morte ou a vida
que me despertou dessa caótica alucinação.

Lu Lena / 2026

​PLENITUDE DE CRISTO
(​Transformando o vazio da alma na certeza da vitória que venceu o mundo)

​Cuide de você; você é um ser único. É essência divina e veio ao mundo com um propósito.
​Não tenha medo do "nada". O vazio não encontra espaço onde o Espírito Santo já fez morada.
​Confia, entrega e descansa na promessa:
​"No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo; eu venci o mundo." — João 16:33
​Se Jesus venceu, você também pode. Sinta-se abraçado(a) por essa verdade!

Lu Lena / 2026

​O PESO SAGRADO DAS ASAS
(Dia Mundial da Conscientização do Autismo)🧩

​"Um anjo pergunta a Deus:
— O que é um autista?
E Deus lhe responde:
— É um de vocês que permito descer à Terra!"
(Lu Lena)

​Essa frase está no portal Pensador e é bem anterior a essa minha nova versão. Procurando nesse acervo para postar no dia de hoje, me veio esta reflexão:

​Dizem que, ao permitir que um de Seus anjos desça à Terra, Deus sabe que a gravidade do mundo pode ser dura demais para quem só conhece a leveza do céu. Às vezes, o ar daqui se torna denso, o barulho se torna ruído e as asas desse anjo, antes feitas de luz e brisa, começam a pesar.

​Quando o voo se torna difícil e o cansaço ameaça o caminhar, ocorre um fenômeno silencioso e sagrado: Deus não retira o peso; Ele apenas muda o lugar do apoio. Ele retira as asas das costas do filho e as acopla, com cuidado infinito, nas costas da mãe.

​É por isso que, muitas vezes, o mundo enxerga nessa mãe uma exaustão que parece não ter fim. Não é apenas o cansaço do dia a dia ou das noites mal dormidas; é o peso físico e espiritual de carregar dois pares de asas.

Nós, mães atípicas, caminhamos com a responsabilidade de manter os pés de nossos filhos no chão enquanto sustentamos, sozinhas, a possibilidade de que, um dia, as mãos deles ainda possam tocar o céu — e as nossas também.

​Lu Lena / 2026

A alma dos diferentes é feita de uma luz além.

2 de Abril é o Dia Mundial da Conscientização do Autismo, as palavras de Artur da Távola nos lembram que a neurodiversidade não é um "quebra-cabeça a ser montado", mas um universo a ser compreendido e respeitado. 🧩

É preciso recordar que a criança autista cresce; adultos existem, mas são frequentemente esquecidos.
​Como diz o poeta, a alma dos diferentes é feita de uma luz além... 💫

E é nesse "além" que se encontram os autistas adultos, muitas vezes caminhando de mãos dadas com mães que carregam sozinhas uma lanterna na mão.

​Ser diferente é carregar tesouros de ternura que nem todos conseguem enxergar de primeira. Mas o reconhecimento falha quando a mãe atípica deixa a lanterna cair pelo peso da exaustão.

Que possamos abrir nossos olhos e corações para que essa luz e essa lanterna se transformem em acolhimento, apoio e empatia.

​Mais do que conscientizar, precisamos incluir e amar. Que a sociedade não nos entregue apenas a lanterna para continuarmos o caminho sós, mas que ela seja, finalmente, a própria LUZ. 💡

Lu Lena /2026

​O HORIZONTE DA INÉRCIA
(Entre o bater de asas e o silêncio da gaiola)

​A vida é tão complexa e, ao mesmo tempo, simples e natural como o pássaro que voa... O diferencial é que o pássaro pode não ser mais visto, ou pode ficar preso na gaiola por não saber voar, condicionado a essa prisão.
​Assim como as circunstâncias de nossa existência, que não se explicam: a gente observa e as deixa apenas voar, ou elas ficam aprisionadas por nosso comodismo.

​Lu Lena / 2026

O VOO DA ÁGUIA
(​O passado ficou na água, hoje escolho voar.)

​Pairava sobre mim uma sombra que não me pertencia. Doeu, até que o sofrimento virou cinzel e me esculpiu nova. Hoje, diante do espelho e da memória, faço como Pilatos: lavo as mãos. Deixo que a água leve os resíduos do passado. Sigo o caminho sob o sol, enfim, subo ao alto da montanha e, como águia, renasço e voo...

Lu Lena / 2026

​POUSO EM GALHOS SECOS
(​A liberdade insólita de quem aprendeu a voar enquanto dorme)

​Quando adormeço, saio de mim e estendo a matéria no varal do tempo; a alma voa para lugares que minha realidade não habita. Sinto-me um pássaro livre, fazendo pouso em galhos secos que não quebram.
​Minhas asas se abrem libertas e meus olhos se fecham como cortinas de um teatro cujo espetáculo se chama vida. Ao voltar dessa jornada etérea, percebo: despertar é recolher do varal os sonhos que ficaram ao vento.

​Lu Lena / 2026

​O REVERSO DO ESPELHO
​(Um despertar inconclusivo)

​Folheando álbuns de recordações, fui resgatando épocas através de fotografias amareladas — algumas borradas, sem nitidez, carregando o peso de eras; outras de uma leveza que não consta nos mapas.
​Uma saudade estranha do que o medo me impediu de batizar, de passos que ensaiei e nunca dei, temendo que o chão fosse miragem. Recordações que marcaram histórias e esculpiram memórias.
​A nostalgia tomou conta de mim. Senti falta do que fiz acreditando no acerto, para depois descobrir que o destino ria noutra direção. É uma saudade feita de tudo e tecida com o nada; um desejo urgente de gritar enquanto a garganta dá um nó cego no tempo que ficou para trás.
​Em algum canto, a pureza da infância ainda observa. Enquanto seguro cada fotografia, em silêncio, a mulher que agora habita em mim — na maturidade dos fios brancos que teimam em dizer que o ciclo continua — decide, subitamente, sorrir e dançar entre as ruínas que se transformaram em alicerces. Tudo guardado ali, naquele álbum de retratos esmaecidos de outrora.
​Sinto saudade do que as mãos seguraram e do que escorreu pelos dedos. Saudade até do abandono, do que vivi e do que deixei morrer na beira da estrada. Habito a contradição exata entre o "sim" que me salvou e o "não" que me definiu.
​Entre um sorriso contido e uma lágrima que desce, recordo-me da pérola que eu desenhava na infância toda vez que a professora pedia um desenho do mar. Eu, automaticamente, pensava em uma sereia admirando uma ostra em suas mãos.
​Ao fechar o álbum e guardá-lo na caixa forrada de cetim lilás, olho pela porta de vidro. Os raios de sol refletem o agora, e a pergunta ecoa em minha quietude:
​O que, dessas lembranças, sobrevive em mim hoje?

Lu Lena / 2026

​A SINFONIA DO LABIRINTO ATÍPICO
(O canto da cigarra e o silêncio da exaustão)

​Entro nas redes sociais e a pergunta de praxe no feed: "Quais as novidades hoje?". Fico pensando... Pois então, são essas as novidades que não tenho. Por mais que eu tente buscá-las, elas evaporam em frações de segundo e tudo volta ao ponto de partida. É como caminhar por um labirinto de círculos ébrios, vazios de cor e de emoção — um percurso onde as olheiras cinzas e profundas moldam o caminho, marcas de noites de insônia e da exaustão de ver meu filho desregulado.
​Nesta tarde de sol escaldante de março, que parece sorrir ironicamente desse meu vazio existencial, sigo com as pernas estendidas no pufe da sala. No intervalo onde o autismo tira uma folga e o sono finalmente o venceu, fico atenta aos murmurinhos inaudíveis do mundo externo. Mas o que realmente preenche a sala é o zumbido na audição que insiste em parecer uma cigarra cantando.
​Essa é a minha única novidade. Não só hoje, mas todos os dias a cigarra insiste em cantar. Ela é o meu mantra de uma rotina atípica que não encontra início, meio ou fim. É o som do meu silêncio possível, o eco de uma exaustão que já faz parte da mobília. É nesse ínterim que a novidade acorda e sai do quarto; a cigarra se despede, o sol acena. As cortinas do palco se fecham e a rotina se abre.

Lu Lena / 2026

​A ARTE DE SOLTAR AS ÂNCORAS
(​Entre o conforto da companhia e a liberdade do ser)

​Observei, olhando para o horizonte, o sol ao longe e pensei na lua. Mesmo distantes, nunca se encontram. Foi então que veio esta reflexão: como a presença do outro, aos poucos, pode nos fazer desaprender a caminhar lado a lado, sem perder o próprio eixo?
​Ser independente é garantir que, caso todos os outros partam — seja vínculo familiar ou não —, teremos a nós mesmos. Isso quer dizer que devemos ser livres e não depender de ninguém. Às vezes, essa dependência surge porque o outro facilita nossa vida e nós nos acomodamos. Passamos a nos aproximar, ou nos deixar aproximar, por essa escolha — ou melhor, por esse comodismo de estar sem agir.
​Essa conexão inconscientemente passa a ser: "por favor, me preencha, mas saiba que sou completo; caminhar ao seu lado me dá segurança, mas sei que um dia terei que me libertar". Porque, no fim das contas, nascer e morrer só nos lembra que somos essências únicas e responsáveis pela nossa caminhada. Afinal, a liberdade reside em saber soltar o que prende e permitir que flua, com leveza, tudo o que a vida nos entrega.

​Lu Lena / 2026