Coleção pessoal de Lulena

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​REVÉRBEROS NA ESCURIDÃO
(​O despertar entre o estuário e a luz letal)

​Vi o holocausto e a natureza morta entre pedregulhos;
nasceram ervas daninhas e me alimentei do ar, da água, da terra…
Sombras do tempo envoltas num mistério obscuro,
sem presente, passado ou futuro.
​Fui rastejando nesse filete de luz letal
que vai delineando os córregos, como lanterna
que clareia a minha escuridão…
​Mergulhei em lágrimas e naufraguei no fundo do estuário;
e nesse cenário inglório, onde me sinto fraca e fugidia,
pálida e sem vida, ouço anjos tocando harpa
num inferno sem calvário.
​Completamente atordoada, em plena suspensão,
vejo minha alma levitando no espaço
e meu corpo decompondo-se no chão.
​Vejo revérberos de almas se esbarrando na escuridão.
​Num sobressalto, acordo...
E já não sei se foi a morte ou a vida
que me despertou dessa caótica alucinação.

Lu Lena / 2026

​PLENITUDE DE CRISTO
(​Transformando o vazio da alma na certeza da vitória que venceu o mundo)

​Cuide de você; você é um ser único. É essência divina e veio ao mundo com um propósito.
​Não tenha medo do "nada". O vazio não encontra espaço onde o Espírito Santo já fez morada.
​Confia, entrega e descansa na promessa:
​"No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo; eu venci o mundo." — João 16:33
​Se Jesus venceu, você também pode. Sinta-se abraçado(a) por essa verdade!

Lu Lena / 2026

​O PESO SAGRADO DAS ASAS
(Dia Mundial da Conscientização do Autismo)🧩

​"Um anjo pergunta a Deus:
— O que é um autista?
E Deus lhe responde:
— É um de vocês que permito descer à Terra!"
(Lu Lena)

​Essa frase está no portal Pensador e é bem anterior a essa minha nova versão. Procurando nesse acervo para postar no dia de hoje, me veio esta reflexão:

​Dizem que, ao permitir que um de Seus anjos desça à Terra, Deus sabe que a gravidade do mundo pode ser dura demais para quem só conhece a leveza do céu. Às vezes, o ar daqui se torna denso, o barulho se torna ruído e as asas desse anjo, antes feitas de luz e brisa, começam a pesar.

​Quando o voo se torna difícil e o cansaço ameaça o caminhar, ocorre um fenômeno silencioso e sagrado: Deus não retira o peso; Ele apenas muda o lugar do apoio. Ele retira as asas das costas do filho e as acopla, com cuidado infinito, nas costas da mãe.

​É por isso que, muitas vezes, o mundo enxerga nessa mãe uma exaustão que parece não ter fim. Não é apenas o cansaço do dia a dia ou das noites mal dormidas; é o peso físico e espiritual de carregar dois pares de asas.

Nós, mães atípicas, caminhamos com a responsabilidade de manter os pés de nossos filhos no chão enquanto sustentamos, sozinhas, a possibilidade de que, um dia, as mãos deles ainda possam tocar o céu — e as nossas também.

​Lu Lena / 2026

A alma dos diferentes é feita de uma luz além.

2 de Abril é o Dia Mundial da Conscientização do Autismo, as palavras de Artur da Távola nos lembram que a neurodiversidade não é um "quebra-cabeça a ser montado", mas um universo a ser compreendido e respeitado. 🧩

É preciso recordar que a criança autista cresce; adultos existem, mas são frequentemente esquecidos.
​Como diz o poeta, a alma dos diferentes é feita de uma luz além... 💫

E é nesse "além" que se encontram os autistas adultos, muitas vezes caminhando de mãos dadas com mães que carregam sozinhas uma lanterna na mão.

​Ser diferente é carregar tesouros de ternura que nem todos conseguem enxergar de primeira. Mas o reconhecimento falha quando a mãe atípica deixa a lanterna cair pelo peso da exaustão.

Que possamos abrir nossos olhos e corações para que essa luz e essa lanterna se transformem em acolhimento, apoio e empatia.

​Mais do que conscientizar, precisamos incluir e amar. Que a sociedade não nos entregue apenas a lanterna para continuarmos o caminho sós, mas que ela seja, finalmente, a própria LUZ. 💡

Lu Lena /2026

​O HORIZONTE DA INÉRCIA
(Entre o bater de asas e o silêncio da gaiola)

​A vida é tão complexa e, ao mesmo tempo, simples e natural como o pássaro que voa... O diferencial é que o pássaro pode não ser mais visto, ou pode ficar preso na gaiola por não saber voar, condicionado a essa prisão.
​Assim como as circunstâncias de nossa existência, que não se explicam: a gente observa e as deixa apenas voar, ou elas ficam aprisionadas por nosso comodismo.

​Lu Lena / 2026
​

O VOO DA ÁGUIA
(​O passado ficou na água, hoje escolho voar.)

​Pairava sobre mim uma sombra que não me pertencia. Doeu, até que o sofrimento virou cinzel e me esculpiu nova. Hoje, diante do espelho e da memória, faço como Pilatos: lavo as mãos. Deixo que a água leve os resíduos do passado. Sigo o caminho sob o sol, enfim, subo ao alto da montanha e, como águia, renasço e voo...

Lu Lena / 2026

​POUSO EM GALHOS SECOS
(​A liberdade insólita de quem aprendeu a voar enquanto dorme)

​Quando adormeço, saio de mim e estendo a matéria no varal do tempo; a alma voa para lugares que minha realidade não habita. Sinto-me um pássaro livre, fazendo pouso em galhos secos que não quebram.
​Minhas asas se abrem libertas e meus olhos se fecham como cortinas de um teatro cujo espetáculo se chama vida. Ao voltar dessa jornada etérea, percebo: despertar é recolher do varal os sonhos que ficaram ao vento.

​Lu Lena / 2026

​O REVERSO DO ESPELHO
​(Um despertar inconclusivo)

​Folheando álbuns de recordações, fui resgatando épocas através de fotografias amareladas — algumas borradas, sem nitidez, carregando o peso de eras; outras de uma leveza que não consta nos mapas.
​Uma saudade estranha do que o medo me impediu de batizar, de passos que ensaiei e nunca dei, temendo que o chão fosse miragem. Recordações que marcaram histórias e esculpiram memórias.
​A nostalgia tomou conta de mim. Senti falta do que fiz acreditando no acerto, para depois descobrir que o destino ria noutra direção. É uma saudade feita de tudo e tecida com o nada; um desejo urgente de gritar enquanto a garganta dá um nó cego no tempo que ficou para trás.
​Em algum canto, a pureza da infância ainda observa. Enquanto seguro cada fotografia, em silêncio, a mulher que agora habita em mim — na maturidade dos fios brancos que teimam em dizer que o ciclo continua — decide, subitamente, sorrir e dançar entre as ruínas que se transformaram em alicerces. Tudo guardado ali, naquele álbum de retratos esmaecidos de outrora.
​Sinto saudade do que as mãos seguraram e do que escorreu pelos dedos. Saudade até do abandono, do que vivi e do que deixei morrer na beira da estrada. Habito a contradição exata entre o "sim" que me salvou e o "não" que me definiu.
​Entre um sorriso contido e uma lágrima que desce, recordo-me da pérola que eu desenhava na infância toda vez que a professora pedia um desenho do mar. Eu, automaticamente, pensava em uma sereia admirando uma ostra em suas mãos.
​Ao fechar o álbum e guardá-lo na caixa forrada de cetim lilás, olho pela porta de vidro. Os raios de sol refletem o agora, e a pergunta ecoa em minha quietude:
​O que, dessas lembranças, sobrevive em mim hoje?

Lu Lena / 2026
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​A SINFONIA DO LABIRINTO ATÍPICO
(O canto da cigarra e o silêncio da exaustão)

​Entro nas redes sociais e a pergunta de praxe no feed: "Quais as novidades hoje?". Fico pensando... Pois então, são essas as novidades que não tenho. Por mais que eu tente buscá-las, elas evaporam em frações de segundo e tudo volta ao ponto de partida. É como caminhar por um labirinto de círculos ébrios, vazios de cor e de emoção — um percurso onde as olheiras cinzas e profundas moldam o caminho, marcas de noites de insônia e da exaustão de ver meu filho desregulado.
​Nesta tarde de sol escaldante de março, que parece sorrir ironicamente desse meu vazio existencial, sigo com as pernas estendidas no pufe da sala. No intervalo onde o autismo tira uma folga e o sono finalmente o venceu, fico atenta aos murmurinhos inaudíveis do mundo externo. Mas o que realmente preenche a sala é o zumbido na audição que insiste em parecer uma cigarra cantando.
​Essa é a minha única novidade. Não só hoje, mas todos os dias a cigarra insiste em cantar. Ela é o meu mantra de uma rotina atípica que não encontra início, meio ou fim. É o som do meu silêncio possível, o eco de uma exaustão que já faz parte da mobília. É nesse ínterim que a novidade acorda e sai do quarto; a cigarra se despede, o sol acena. As cortinas do palco se fecham e a rotina se abre.

Lu Lena / 2026

​A ARTE DE SOLTAR AS ÂNCORAS
(​Entre o conforto da companhia e a liberdade do ser)

​Observei, olhando para o horizonte, o sol ao longe e pensei na lua. Mesmo distantes, nunca se encontram. Foi então que veio esta reflexão: como a presença do outro, aos poucos, pode nos fazer desaprender a caminhar lado a lado, sem perder o próprio eixo?
​Ser independente é garantir que, caso todos os outros partam — seja vínculo familiar ou não —, teremos a nós mesmos. Isso quer dizer que devemos ser livres e não depender de ninguém. Às vezes, essa dependência surge porque o outro facilita nossa vida e nós nos acomodamos. Passamos a nos aproximar, ou nos deixar aproximar, por essa escolha — ou melhor, por esse comodismo de estar sem agir.
​Essa conexão inconscientemente passa a ser: "por favor, me preencha, mas saiba que sou completo; caminhar ao seu lado me dá segurança, mas sei que um dia terei que me libertar". Porque, no fim das contas, nascer e morrer só nos lembra que somos essências únicas e responsáveis pela nossa caminhada. Afinal, a liberdade reside em saber soltar o que prende e permitir que flua, com leveza, tudo o que a vida nos entrega.

​Lu Lena / 2026

​ONDE O SOCORRO SE ENCONTRA
(Um pedido de cura para o mundo e um convite para olhar para o alto.)

Que Deus cure todas as doenças e direcione a humanidade de volta ao caminho da luz. Nos perdemos de tal forma que nos esbarramos, mas não nos encontramos mais...
​Mas que, no silêncio de uma oração ou na delicadeza de um gesto, possamos aprender a enxergar o outro novamente. Que o amor seja a ponte que nos resgate desse desencontro, nos lembrando que nunca estamos sozinhos enquanto houver fé no coração.

Lu Lena / 2026

​O MALABARISMO
(​A arte de não soltar o céu)

​Com uma mão eu toco o céu e a outra eu toco o chão,
e assim vou seguindo fazendo esse malabarismo chamado vida.
​Suspensa pelo fio da esperança
e ancorada pela corda da realidade.

​Lu Lena / 2026

​MILAGRE EM CADA SUSPIRO
(A santidade da existência humana frente à impermanência)

​E, do sopro divino, uma vida é canonizada num corpo ignoto, que morre e renasce a cada suspiro nesse mundo imprescritível.

​Lu Lena / 2026

​Nunca dependa de ninguém. Lembre-se sempre: você nasceu sozinho e morrerá só. Portanto, a única pessoa que precisa de você é você mesmo — e Deus.
​Respire fundo, olhe para o céu e diga:
— Mostre-me o caminho, Pai!


​Lu Lena / 2026

A ENGRENAGEM DO CAOS
(Onde a matéria se corrompe e o espírito silencia.)

​O homem destrói a matéria,
adultera a própria essência.
E a humanidade mergulha
nessa turbulência caótica.
​Surge, então, a pergunta:
— Pai, por que me abandonaste?
​Agimos como seres irracionais.
Desprovidos de fé,
fizemos do mundo uma paisagem morta.

​Lu Lena / 2026
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AROMAS DE MIM
(O despertar dos resíduos adormecidos)


Magnetizada pelo aroma das flores,
Sobrevoo os mais silenciosos recantos.
O meu pensamento vem delineando
E penetra no ar o meu encantamento.
Mais uma vez, deixo-me embalar,
Nesse sonho que mexe com o que sou.
Ele penetra fundo na minha alma,
Em busca de resíduos adormecidos.
Buscam também partículas indecisas,
Que, repentinamente, dentro de mim,
Se despertam em um novo pulsar.
São essências que ganham vida,
Misturas de um tempo guardado,
Em confusos aromas que surgem,
E que somente eu sinto.


Lu Lena / 2026

JANELA DO TEMPO
(A brevidade dos ciclos)

Olho para trás e tenho certeza de que tudo passa; nada é para sempre. O dia pode ter sol, chuva ou ser nublado; são apenas dias que nascem e morrem, em constante metamorfose — ora casulos, ora borboletas. Simplesmente observo, calada, na janela do tempo.

Lu Lena / 2026

​PROJEÇÕES
(A percepção por trás da mente)

​Acredito naquilo que vejo...
mas, às vezes, não quero acreditar.
Percebo quão fugaz é crer em meus pensamentos,
ao notar que são apenas criações daquilo que penso.

​Lu Lena / 2026

​CAVALOS SELVAGENS
(​Quando o relógio corre mais rápido que a coragem)

​O problema é que sempre esperamos que o outro dê o primeiro passo para que possamos dar o nosso; assim, vamos tropeçando em nossas próprias pernas enquanto o relógio voa, com seus ponteiros derradeiros num galopar de cavalos selvagens e misteriosamente imponentes, aguardando o apito para a corrida do nosso tempo.

​ Lu Lena / 2026

O RASCUNHO DEFINITIVO
(A ilusão de que podemos passar a vida a limpo)

Quando nascemos, trazemos conosco um bloquinho de notas, um lápis e uma borracha.
Ao longo dos dias, vamos anotando nossa história. Algumas vezes corrigimos o que foi feito; outras, apagamos. Muitas vezes, arrancamos uma folhinha inteira para refazer o caminho, e assim o bloquinho vai diminuindo.
Chega um momento em que decidimos comprar um caderno bonito, bem encadernado e com muitas folhas, com a intenção de passar tudo a limpo. É aí que nos damos conta: o lápis já está gasto e sem ponta de tanto usar, e a borracha já nem existe mais...
Por quê?
Porque tudo já estava escrito!

Lu Lena / 2026