Coleção pessoal de LEandRO_ALissON

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'Liberdade de expressão' é entre iguais. O que um adulto diz para uma criança TEM de ser limitado, e mais ainda se a criança, na condição de estudante, é obrigada por lei a ouvi-lo. O oposto é o absurdo dos absurdos: o Estado força a criança a ouvir um adulto dizer o que bem deseje. Isso sim é OPRESSÃO, PREPOTÊNCIA, TIRANIA, ESCRAVIDÃO.

O passado não está morto e enterrado. Na verdade, ele nem mesmo é passado.

Antigamente — ainda ontem, quando eu tinha vinte anos —-, exigia-se muito de um escritor. Ele tinha de dominar os recursos da sua arte ao ponto de que toda a história dela, de algum modo, transparecesse no seu estilo. Tinha de possuir uma visão espiritualmente madura do universo e da vida e haver absorvido nela a cultura dos milênios. E essa visão devia estar tão bem integrada na personalidade dele que sua expressão escrita não comportasse o mínimo hiato entre idéia e palavra.

Hoje não é preciso nada disso. Basta uma afetação de sentimentos politicamente corretos na linguagem dos estereótipos mais sufocantes — e pronto: o pimpolho garantiu seu lugar nos suplementos de cultura e nas antologias escolares. Se escreve no estilo padronizado dos manuais de redação, é um primor de nitidez cartesiana. Se embrulha idéias sonsas em jargão lacaniano indigerível, é um assombro de profundidade. Se não articula sujeito e predicado, é um grande comunicador, sensível à linguagem do povo.

Se há um verdadeiro desejo, se o objeto do desejo é verdadeiramente a luz, o desejo de luz produz luz. Há um verdadeiro desejo quando há esforço de atenção. Se todos os outros motivos estão ausentes, o que verdadeiramente se deseja é a luz. Ainda que os esforços de atenção tenham sido aparentemente estéreis durante anos, um dia uma luz exatamente proporcional aos esforços inundará a alma. Cada esforço aumenta um tesouro que nada no mundo pode arrebatar.

Todos os males do Brasil, excetuados os de causas naturais, nascem da ausência, na nossa cultura, de um elemento essencial à vida humana: a busca da verdade. Aí ninguém sabe o que é isso, nem muito menos tenta saber, porque ninguém sente falta daquilo cuja existência ignora.

O método Stanislavski ensina-nos a técnica da identificação psicológica profunda com os vários personagens, de modo que o conflito dramático da peça [teatral] seja interiorizado como conflito psicológico na alma do próprio ator. Uso isso até hoje para entender as idéias mais absurdas e perceber nelas, senão um fundo de razão, ao menos um princípio de verossimilhança. Isso tornou-se para mim tão rotineiro e natural que não me atrevo a contestar uma idéia se antes não a tornei minha ao menos por alguns minutos, de modo que falo sempre com a autoridade segura de quem está discutindo consigo mesmo. [...] Todo mundo tem direito a ter opiniões, mas é melhor tê-las depois de um mergulho aristotélico-stanislavskiano no mar das contradições. Quem quer que tenha amor à verdade anseia por esse mergulho, mesmo quando não tem a certeza de encontrar alguma verdade no fundo. A fuga generalizada ante esse desafio é o traço mais geral e constante dos 'formadores de opinião' no Brasil. Em última análise, esse fenômeno expressa o medo de viver, o desejo de fugir logo para um mundinho imaginário imune a riscos intelectuais.

O mais alto êxtase é a mais completa atenção.

Menosprezar a inteligência é degradar o ser humano por inteiro.

Uma ciência que não nos aproxima de Deus de nada vale.

Quando dois seres que não são amigos estão perto um do outro não há encontro, e quando amigos estão distantes não há separação.

A amizade não se busca, não se sonha, não se deseja. Ela exerce-se. É uma virtude.

Amar um ser é simplesmente reconhecer que ele existe tal como vós.

De entre os seres humanos, apenas conhecemos completamente a existência daqueles a quem amamos.

A forma contemporânea da grandeza verdadeira é baseada em uma civilização estabelecida sobre a espiritualidade do trabalho.

Estar enraizado talvez seja a necessidade mais importante e menos reconhecida da alma humana.

O que é o sucesso?

Rir muito e com frequência; ganhar o respeito de pessoas inteligentes e o afeto das crianças; merecer a consideração de críticos honestos e suportar a traição de falsos amigos; apreciar a beleza, encontrar o melhor nos outros; deixar o mundo um pouco melhor, seja por uma saudável criança, um canteiro de jardim ou uma redimida condição social; saber que ao menos uma vida respirou mais fácil porque você viveu. Isso é ter tido sucesso.

Já expliquei, aparentemente em vão, que a 'liberdade' não é, logicamente, um princípio universal de aplicação óbvia e improblemática como a igualdade perante a lei ou a proibição do falso testemunho, e sim apenas uma conveniência prática que deve ser administrada com prudência, já que, como toda conveniência prática, inclui em si sua própria limitação e, estendida sem critério, se perverte automaticamente numa rede de limitações chamadas ironicamente de 'liberdade'. Essa advertência torna-se ainda mais importante no caso da 'liberdade religiosa' -- uma bolha de sabão verbal que estoura no ar à primeira tentativa de levá-la à prática. Estudei Hegel o suficiente para entender que ele tem razão ao dizer que todo preceito particular tomado como universal se converte automaticamente no seu oposto tão logo sai do papel para a realidade. Apenas, não vejo como explicar isso a nenhum político, militante ou eleitor apaixonado pelos 'valores ideais' que imagina defender. [...]
O mesmo aplica-se à 'expansão dos direitos democráticos', tão louvada por bocós como Marilena Chauí e até por homens supostamente inteligentes como Norberto Bobbio."

O princípio da interdependência universal só pode ser contestado mediante a exibição de pelo menos um fato ou fenômeno totalmente isolado em si mesmo, independente de tudo o mais. Mas o simples fato de sabermos algo sobre um fenômeno mostra que ele não é isolado.
Por outro lado, a interdependência universal só pode ser conhecida como princípio metafísico geral, nunca como objeto de uma ciência em especial.
Entre esses dois limites move-se todo o conhecimento humano.

"Cada um atribui ao autor que escolhe aquilo que acredita ser sabedoria. E quanto ao que se lhe afigura sê-lo será obviamente determinado pela bitola da sua própria inteligência. Se é um tolo, encontrará e admirará a tolice em todos os seus autores favoritos e, se é medíocre, a banalidade. Mas se ele próprio for um pensador profundo, o que ele saúda e expõe como filosofia do seu autor poderá perfeitamente ser digno de leitura, seja embora na realidade a sua própria filosofia. Podemos compará-lo à longa sucessão de teólogos que, a partir de uma certa deformação dos seus textos, criaram sermões edificantes e eloquentes. O sermão, embora mau como exegese, era frequentemente uma boa homilia por direito próprio".

O grande problema em escolher a verdade é que ela não traz quase nenhuma vantagem imediata; os que a escolhem são chamados de loucos, traidores, intolerantes e outros nomes menos publicáveis. A verdade é dolorosa, implacável e exigente; não ameniza a vida de ninguém; escolhê-la é sofrê-la. O salário da verdade é a solidão. Seu símbolo máximo e universal é Jesus Cristo abandonado por todos e pregado numa cruz.

O caminho da verdade passa pelo sentimento de solidão. Quando você descobre um aspecto da realidade utilizando a sua inteligência e a sua memória, segue-se uma quase insuportável sensação de isolamento. É como se, naquele momento, você fosse uma ilha separada do restante da humanidade. Mas, apesar da angústia de estar só, há no fundo um sentimento libertador: o sentimento de que você parou de mentir para si mesmo. Contemplamos as grandes verdades da vida quando estamos absolutamente sós — tendo apenas Deus por testemunha.

Além da solidão, a verdade tem outra característica importante: ela é antiga. Só pode ser chamada de 'nova' na medida em que surpreende e escandaliza a arrogância dos homens ('Eis que faço novas todas as coisas'). Tudo que é verdadeiro já foi testado ao longo do tempo por inúmeras gerações e sociedades. Alguns dizem que a verdade é conservadora; e estão certos. Deve ser por isso que o mundo insiste tanto em impor as novidades, as opiniões modernas, as revoluções comportamentais, as modas ideológicas e os 'avanços' que, no fundo, são apenas uma forma de destruir aquilo que é mais valioso dentro de nós: o sentido da vida."