Coleção pessoal de LEandRO_ALissON
O talento mais notável da mídia nacional ou internacional é a sua destreza em fazer-se passar, ante as massas, como um arremedo persuasivo da autoridade intelectual e até científica.
As acções dos homens são demasiado fortes. Mostrem-me um homem que não tenha sido vítima das suas próprias acções.
Não siga por onde o caminho pode levá-lo; em vez disso, siga por onde não há caminho e deixe uma trilha.
Um homem lusófono seriamente culto domina a sua língua cada vez melhor quanto mais leia livros em línguas estrangeiras.
A palavra 'cultura', hoje, no Brasil, tem só o sentido antropológico de documento social, não o sentido pedagógico de melhoramento humano.
O casamento descansa sobre o fato de que não é possível, ao mesmo tempo, guardar a torta e comê-la. Não se pode dar o coração e ficar com ele.
"Quando algo tem um alto preço moral, apenas pessoas comprometidas irão buscá-lo. Descobri, portanto, nos seminários clandestinos, um corpo estudantil único – pessoas dedicadas ao conhecimento, como entendi, e conscientes da facilidade e do perigo de substituir o conhecimento por mera opinião. Além disso, eles estavam procurando por conhecimentos no lugar onde é mais necessário e também mais difícil de encontrar – em filosofia, história, arte e literatura, nos lugares onde a compreensão crítica, e não o método científico, é nosso único guia. E o que foi mais interessante para mim foi o desejo urgente de todos os meus novos alunos de herdar o que lhes foi transmitido. Eles foram criados em um mundo onde todas as formas de pertencimento, além da submissão ao Partido governante, foram marginalizadas ou denunciadas como crimes. Eles entenderam instintivamente que uma herança cultural é preciosa, precisamente porque oferece um rito de passagem para o que você realmente é, e a comunidade do sentimento que lhe pertence."
"Obviamente, as circunstâncias dos seminários clandestinos eram incomuns e ninguém gostaria de reproduzi-las. No entanto, durante os dez anos que trabalhei com outros para transformar esses grupos de leitura privados em uma universidade (embora clandestina) estruturada, aprendi duas verdades muito importantes. A primeira, é que uma herança cultural é realmente um corpo de conhecimento e não uma coleção de opiniões – conhecimento do coração humano e da visão de longo prazo de uma comunidade humana. A segunda, é que esse conhecimento pode ser ensinado e que não exige um vasto investimento de dinheiro para fazê-lo, certamente não os $50.000 (dólares) por aluno por ano exigidos por uma universidade da Ivy League. Requer um punhado de livros que passaram pelo teste do tempo e são apreciados por todos os que realmente os estudam. Isso requer professores com conhecimentos e estudantes ansiosos para adquiri-lo. E requer a tentativa contínua de expressar o que já foi aprendido, seja em dissertações ou em encontros face a face com um crítico. Todo o resto – administração, tecnologia da informação, salas de aula, bibliotecas, recursos extracurriculares – é, em comparação, um luxo insignificante."
A vida não ensina muito bem sobre os caminhos a seguir, mas dá fartas lições sobre os caminhos a evitar.
Ou seja, posso não ter certeza sobre o que é bom, mas não me faltam evidências sobre o que é ruim.
"Existem algumas coisas caras demais para serem ditas, coisas valiosas demais para serem usadas em sarcasmos, coisas devastadoras ao extremo para serem utilizadas na tentativa de obter o melhor de alguém. Ganhar uma discussão mediante o recurso a esse tipo de expediente equivale à derrota total. Que coisa rara e maravilhosa eu perco a fim de obter uma pequena vitória?”
(Da obra "O que é uma família?")
Aqueles que conseguirem ler a Bíblia do começo ao fim descobrirão pelo menos que ela tem um começo e um fim - e resquícios de uma estrutura completa. Ela começa com o começo do tempo, na criação do mundo; e termina com o término do tempo, no Apocalipse. No meio do caminho ela resenha a história humana, ou o aspecto da história que lhe interessa, sob os nomes simbólicos de Adão e Israel. Há também um corpo de imagens concretas: cidade, montanha, rio, jardim, árvore, óleo, fonte,pão, vinho, noiva, carneiro e muitas outras. Elas são tão recorrentes que indicam claramente a existência de um princípio unificador. Para um crítico este princípio deve ser mais de forma do que de significado. Dizendo-se de modo mais preciso, nenhum livro pode ter um significado coerente se não possuir alguma coerência em sua forma. Assim o curso tornou-se uma apresentação de uma estrutura unificada das imagens e da narrativa na Bíblia, e é isto que forma o cerne deste livro.
(Trecho da Introdução a "O Código dos Códigos")
Desde o Meno, de Platão, é possível estabelecer que o professor não é, em primeiro lugar, alguém que sabe instruindo quem não sabe. Ao invés disso, ele é alguém que tenta recriar o assunto na mente do estudante. Sua estratégia é a de antes de mais nada fazer o estudante reconhecer o que potencialmente já sabe, e isso inclui a quebra dos poderes de repressão interna que o impedem de distinguir o que sabe. Eis aí a razão de ser o professor, e não o estudante, quem faz a maior parte das perguntas. Esse traço de ensino em meus livros provocou algum ressentimento entre meus leitores, ressentimento que se deve muitas vezes à lealdade para com outros professores. Esse ressentimento vem junto com a percepção de uma certa esquiva deliberada de minha parte, trazida à baila sobretudo porque não dispenso a ironia, coisa essencial, para todo o professor desde Sócrates. Nem toda a esquiva, entretanto, é apenas uma esquiva. Até mesmo as parábolas de Jesus eram ainoi, ou seja, fábulas com uma característica de enigma. Em outras áreas, como no zen-budismo, o professor no mais das vezes é alguém que mostra sua capacidade por se recusar a responder às perguntas ou que as varre com algum paradoxo. Responder a uma pergunta (ponto a que voltaremos no curso deste livro) é consolidar o nível mental em que foi formulada. A menos que se deixe algo de reserva, sugerindo a possibilidade de uma pergunta melhor e mais completa, o avanço mental do estudante se detém.
"Confesso que às vezes tenho vontade de gritar: não quero me tornar um líder da nação, quero fazer apenas o que tenho a fazer como escritor - dizer a verdade. Ou então: não busquem a esperança naqueles por assim dizer profissionais da esperança, tratem de buscar em vocês mesmos. Ou então: tratem de correr algum risco, não sou o seu redentor.
Mas, no último momento, eu me calo, não grito nada. Repito o que me dizia Jean Patocka: a verdadeira prova de um homem não consiste na maneira em que realiza o que decidiu, mas na maneira em que desempenha o papel que o destino lhe reservou".
Ironicamente, talvez a maior conquista intelectual do partido Comunista tenha sido convencer as pessoas de que a distinção de Platão entre conhecimento e opinião é válida e que a opinião ideológica não é meramente distinta do conhecimento, mas o inimigo do conhecimento, a doença implantada no cérebro humano e que torna impossível distinguir ideias verdadeiras das falsas. Essa foi a doença espalhada pelo Partido. E também foi difundida por Foucault. Pois foi Foucault quem ensinou aos meus colegas a avaliar cada ideia, cada argumento, cada instituição, convenção ou tradição em termos de 'dominação' que ele mascara. A verdade e a falsidade não tinham significado real no mundo de Foucault; tudo o que importava era o poder.
Qualquer relação matemática é ela própria apreendida numa intelecção imediata, quer dizer, por intuição, caso contrário precisaria se outra relação e de outra e assim por diante.
A matemática e a própria lógica dependem inteiramente da intuição. Não são modos de conhecimento diferentes da intuição. São a própria intuição. O que elas fazem não é 'corrigir a intuição', mas substituir os objetos da intuição natural por outros mais simples e nítidos.
"Toda a grande rede das relações humanas nasce e regenera-se continuamente a partir da relação na qual um homem e uma mulher se reconhecem feitos uma para o outro e decidem unir as suas vidas num único projeto de vida."
Trocar um sistema de livre mercado pelo socialismo é trocar uma opressão imaginária, subjetiva, por uma opressão real, objetiva.
A possibilidade da existência de algo como a 'ciência' repousa numa variedade de pressupostos que nem podem ser eles próprios submetidos a teste 'científico', nem muito menos fornecem qualquer base racional para dar à dita 'ciência' a autoridade da última palavra não só nas questões gerais da existência humana, mas até no próprio domínio especializado de cada área científica em particular.
Em suma, o conhecimento científico – e mais ainda aquilo que hoje se entende popularmente como tal – é uma subdivisão especializada da capacidade racional geral e tem nela o seu fundamento, não podendo julgá-la por seus próprios critérios. O que aqui se entende como 'razão' não se resume também às capacidades usuais da linguagem coerente e do cálculo, pois ambas essas capacidades também não passam de especializações de uma capacidade mais básica. [...] É a razão, e não o método científico, que confere sentido ao próprio discurso científico, o qual por sua vez não pode dar conta dela no mais mínimo que seja. A 'ciência' não pode jamais ser a autoridade última em nenhum assunto exceto dentro dos limites que a razão lhe prescreva, limites estes que por sua vez continuam sujeitos à crítica racional a qualquer momento e em qualquer circunstância do processo científico.
A experiência humana tomada como totalidade ilimitada é a mais básica das realidades, ao passo que o objeto de cada ciência é uma construção hipotética erigida dentro de um recorte mais ou menos convencional dessa totalidade. Essa construção nada vale se amputada do fundo desde o qual se constituiu. O apego à autoridade da 'ciência', tal como hoje se vê na maior parte dos debates públicos, não é senão a busca de uma proteção fetichista, socialmente aprovada, contra as responsabilidades do uso da razão.
O culto da 'ciência' começa na ignorância do que seja a razão e culmina no apelo explícito à autoridade do irracional.
(Diário do Comércio, 7 de janeiro de 2009)
Os idiotas vivem me acusando de pretender ter razão em tudo quanto argumento. E eles, por acaso, argumentam em favor do que não acreditam?
