Coleção pessoal de JoniBaltar
Combustão Poética
A tua presença
desperta em mim
uma combustão poética
que se entranha na carne,
nos ossos,
como uma vibração ardente
que percorre o meu corpo:
queima, ilumina
e reclama tudo o que sou.
Pai
Pai, hoje a noite parece ter o teu profundo olhar. Sento-me aqui, no mesmo silêncio onde te procuro,
e a estrela que leva o teu rosto acende-me o peito.
Há dias em que a tua ausência pesa,
mas é nessa saudade que te sinto mais perto, como se a luz lá em cima fosse a tua mão a pousar devagar sobre a minha.
Falo contigo assim,
sentado, quieto
porque a saudade
que tenho de ti
não é dor,
é caminho.
E enquanto essa estrela brilhar,
sei que não estou sozinho.
Pai, fica comigo nesta noite.
Eu continuo aqui,
a falar contigo,
como quem acende
uma fogueira dentro da alma.
Há mundos inteiros
dentro de um instante;
não é o instante,
mas o universo
que nele se abriu
dentro de nós.
P(R)O(B)(L)EMA
Este poema encosta‑se
a ti devagar,
como quem sabe
a melodia
da tua respiração.
Fica ali, no espaço pequeno
entre o teu peito e o silêncio,
onde guardas o que não dizes.
E quando o lês,
ele abre uma porta
dentro de ti:
toca-te sem tocar,
acende-te sem lume,
e fica a respirar
no lugar onde
a tua alma o guardou.
Setembro-me
Setembro‑me
dentro do teu peito,
e o ar muda de temperatura
como se reconhecesse a tua sede.
Há um lume que se ergue devagar,na pele eno espaço entre nós, onde cada gesto teu
se torna uma força que me puxa
sem nunca me tocar.
Aproximo‑me desse centro quente,
dessa sombra que respira,
e sinto o teu silêncio a abrir‑se
como uma porta que só cede
quando alguém a deseja com verdade.
E é aí, nesse quase‑instante,
que tudo se intensifica:
a luz fica mais densa,
o ar mais vivo,
o mundo mais pequeno.
Fico suspenso no teu peito
não como quem entra,
mas como quem
se dissolve na luz que te percorre
e aprende a respirar
dentro da tua boca.
O beijo inteiro é: as palavras molhadas que decidiram ser pele. É o instante que decide se o mundo interno continua igual ou começa de novo.
O eclipse é o instante em que o universo fecha os olhos
para que nós possamos abrir os nossos. Depois do eclipse, a luz regressa sempre diferente, e nós também.
