Coleção pessoal de JoniBaltar

1 - 20 do total de 2258 pensamentos na coleção de JoniBaltar

O amor é um mar que
não precisa de horizonte
para ser infinito.

Há mundos inteiros
dentro de um instante;
não é o instante,
mas o universo
que nele se abriu
dentro de nós.

Há primaveras que
abrem portas para jardins
que só existiam em nós.

P(R)O(B)(L)EMA


Este poema encosta‑se
a ti devagar,
como quem sabe
a melodia
da tua respiração.


Fica ali, no espaço pequeno
entre o teu peito e o silêncio,
onde guardas o que não dizes.


E quando o lês,
ele abre uma porta
dentro de ti:
toca-te sem tocar,
acende-te sem lume,
e fica a respirar
no lugar onde
a tua alma o guardou.

Nos tempos de hoje,
é mais doloroso ter um telemóvel partido que um coração partido.

Nowadays, having a broken phone is more painful than having a broken heart.

Todos nós
somos feitos
de meteorologia
emocional.

Setembro-me


Setembro‑me
dentro do teu peito,
e o ar muda de temperatura
como se reconhecesse a tua sede.


Há um lume que se ergue devagar,na pele eno espaço entre nós, onde cada gesto teu
se torna uma força que me puxa
sem nunca me tocar.


Aproximo‑me desse centro quente,
dessa sombra que respira,
e sinto o teu silêncio a abrir‑se
como uma porta que só cede
quando alguém a deseja com verdade.


E é aí, nesse quase‑instante,
que tudo se intensifica:
a luz fica mais densa,
o ar mais vivo,
o mundo mais pequeno.


Fico suspenso no teu peito
não como quem entra,
mas como quem
se dissolve na luz que te percorre
e aprende a respirar
dentro da tua boca.

Há dias em que o
Agosto da vida só
se revela quando
a chuva decide cair.

VENDO


as estrelas cadentes deslizarem
descubro que algumas
não caem: escolhem pousar
no meu peito.

O beijo inteiro é: as palavras molhadas que decidiram ser pele. É o instante que decide se o mundo interno continua igual ou começa de novo.

O eclipse é o instante em que o universo fecha os olhos
para que nós possamos abrir os nossos. Depois do eclipse, a luz regressa sempre diferente, e nós também.

O Estado Poesia




Os nossos corpos, em estado sólido,
começam a derreter quando as epidermes se tocam.
Passamos a líquido,
escorrendo um para o outro,
misturando temperaturas,
onde o toque é luz,
o calor é linguagem,
e o que somos se escreve no ar
como se a pele tivesse aprendido a respirar dentro da pele.


E quando evaporamos,
quando a anatomia
se desfaz em vibração
e ficamos só alma com alma,
passamos para o estado mais raro:
o estado poesia.


Onde já não somos corpo,
nem gesto,
nem pele — somos aquilo que o mundo lê
quando o silêncio grita.

Há caminhos que só florescem porque, algures no tempo, alguém os atravessou carregando pedras que nunca foram suas.

Carrego-te como quem leva pedras e flores no mesmo fôlego.


No peso que me curva, há um rumor teu, uma memória que se acende entre as rochas, como se cada grão de pólen soubesse o teu aroma.


As flores presas à minha mochila interna respiram contigo, frágeis e obstinadas, lembrando que até o que pesa pode ser ternura.


Caminho, e o vento toca o que não ouso dizer, esse quase‑toque que vive entre o ombro e o mundo.


E no silêncio da marcha, o desejo é só isto:a beleza que insiste, mesmo quando dói, e o caminho que se torna pele quando penso em ti.

Homenagem ao vocalista dos TROVANTE




Fizeste parte, musical e emocional, da minha inesquecível memória geracional dos anos 80. Só quem viveu os 80's por dentro entende o que aqui escrevo. Assisti a vários concertos dos Trovante, e cada um deixou em mim uma marca que nunca se apagou.


Admirei‑te como músico, pela forma como transformavas o palco em alma; e admirei‑te como ser humano, pela serenidade, pela verdade e pela presença que oferecias a quem te escutava. Eras — és — daqueles artistas que não passam: ficam, sedimentam, acompanham.


Hoje, ao escrever‑te, percebo que a tua música não foi apenas banda sonora da minha geração, foi também uma agulha magnética silenciosa, daquelas que continuam a apontar para dentro, mesmo quando o mundo lá fora muda.


Desencarnaste deste mundo, é verdade, mas a verdade maior é que nunca deixaste realmente de estar. Há artistas que partem e há artistas que ficam, tu ficaste no lugar onde a música se transforma em memória viva, naquele território íntimo onde o tempo não apaga: apenas depura.
Até trovantemente sempre, Luís Represas.

Estar na presença de pessoas verdadeiramente boas altera o peso da vida. A energia que emanam não muda apenas o ar: transforma também a relação entre nós e aquilo a que chamamos vida.

Mar
horizonte reduzido
à pergunta que não se diz


entre ambos,
o suspiro.
O mar não fala:
escreve-me por dentro.

Mar de Amar




Mar em mim.
Mar comigo.
Mar sempre.
Mar que chama.
Mar que rasga.
Mar que sobe pela pele.
Mar de amar.
E eu, na estrutura do instante,
aprendo a ser horizonte.

No silêncio entre dois corpos nasce um campo magnético,
onde cada gesto é promessa
e cada respiração é caminho.


A pele torna‑se horizonte,
o olhar, uma mão invisível,
e o tempo verga‑se como tecido húmido à espera de ser moldado.


Há um tremor que não é físico,
uma vertigem que não é carnal,
mas que acende o coração
como se fosse chama a acender
as constelações da alma.


E quando o silêncio desaparece,
os gemidos tornam-se linguagem.
E o ar entre nós torna‑se incenso,
lento, quente, vivo.


Uma língua feita de luz,
que só dois sabem ler.
Uma liturgia de sombra e claridade,
onde duas almas se reconhecem.