Coleção pessoal de JoniBaltar
Amores que se Tornam Copa
Enquanto a floresta respira, o mundo estreita‑se: fico só eu, só tu, árvore dentro de árvore. Esta força que cresce entre nós como seiva a subir no tronco quando a noite decide ser fogo.
E há ainda os galhos que não se veem:
crescem para dentro,
procuram o coração,
tentam compreender o que significa amar sem pedir nada em troca.
No fim, percebo que esta árvore não é minha. É nossa. Cresce no espaço entre duas respirações,
entre duas palavras que ainda não dissemos,
entre dois silêncios que se reconhecem porque há amores que se tornam copa.
Quando és torrencial, não te entregues a quem só sabe ser chuvisco: a tua alma não foi feita para quem teme afogar‑se em ti.
Às vezes, na ausência de mim, descubro que
o mundo continua… e eu fico suspenso entre
metades de mim.
— Queres lunar comigo?
A lua nunca é pouca para quem a sente.
— Sim! Lunar é deixar que a noite nos traduza.
— E se nos perdermos?
— A lua sabe o caminho de volta.
Poentes que Regressam
O verão já acabou;
porém, o mar insiste em escrever‑nos, como se na pele ainda ondulassem ondas que não pertencem só ao mar, mas o que fomos aos poentes.
Poentiderme
As nossas pernas entrelaçadas,
essa fusão lenta,tépida,
como fim de tarde
que não tem
pressa de escurecer.
Outonarmo-nos
Tu e eu outonarmo‑nos:
desfolha lenta,
vento a passar entre o que fomos, silêncio a pousar no que fica.
E no fundo dos nossos olhos, um verão que insiste,
mesmo depois de cair.
Há um calor que se move devagar, tão leve
que parece horizonte.
E quando nos deixamos cair, o corpo torna‑se terra lisa: sente o que passa,
guarda o que fica.
E tu sentes o meu Alentejo no teu corpo como quem encosta o poente à pele.
Jorge Palma, um poeta de piano cheio.
Palma pertence aos segundos. Quando se sentava ao piano, não procurava notas: procurava o sentido da vida. Cada tecla era uma porta entreaberta, cada acorde uma memória que regressava com o peso exacto do que foi vivido.
Nas mãos dele, o piano ficava cheio de mundo. Estações de metro dedilhadas, ruas gastas, noites que ainda sabem o nome de quem as atravessou. Há uma verdade mística no modo como ele canta: não é para impressionar, é para confessar. E nessa confissão cabe quem o escuta, como se cada canção fosse um lugar onde finalmente se pode pousar.
Palma foi isso: um compositor que não escreve música, escreve chão. Um músico que quando tocava piano, tocava caminhos. Um poeta que, mesmo quando adormecia, deixava a luz da cidade acesa e o cigarro a arder no cinzeiro, lento e translúcido, como um pequeno ritual que continuava a respirar por ele.
A poesia são palavras sem saída: as que, encurraladas pela alma, descobrem que só sobrevivem se arderem no magma interior de alguém.
O humano só se completa quando aceita ser raiz, porque é na profundidade que a alma deixa de ser alma e passa a ser essência.
Combustão Poética
A tua presença
desperta em mim
uma combustão poética
que se entranha na carne,
nos ossos,
como uma vibração ardente
que percorre o meu corpo:
queima, ilumina
e reclama tudo o que sou.
Pai
Pai, hoje a noite parece ter o teu profundo olhar. Sento-me aqui, no mesmo silêncio onde te procuro,
e a estrela que leva o teu rosto acende-me o peito.
Há dias em que a tua ausência pesa,
mas é nessa saudade que te sinto mais perto, como se a luz lá em cima fosse a tua mão a pousar devagar sobre a minha.
Falo contigo assim,
sentado, quieto
porque a saudade
que tenho de ti
não é dor,
é caminho.
E enquanto essa estrela brilhar,
sei que não estou sozinho.
Pai, fica comigo nesta noite.
Eu continuo aqui,
a falar contigo,
como quem acende
uma fogueira dentro da alma.
