Coleção pessoal de JoniBaltar
Eclipse
Estas palavras não são um poema
são pele sem nome
um sopro lento
entre a boca
e o silêncio.
Não dizem.
Tocam.
E ficam
como luz morna
sobre a curva da noite
como um segredo
que a pele guarda
de olhos fechados.
Talvez os poemas sejam assim: palavras que juram não o ser até que alguém lhes empreste o coração.
Idioma da Pele
Aproximo-me.
Não de ti.
Do abismo que existe entre a tua pele e a minha.
E caio.
A tua pele não me chama.
Arrasta-me.
Como a noite arrasta o último clarão do dia.
Há um fogo
entre a carne e a alma.
Nenhuma sabe onde termina.
A minha pele.
A tua sede.
Entre ambas,
o mistério.
O resto
é silêncio.
O teu corpo.
O meu.
Dois limites.
O desejo:
a tentativa impossível
de os afastar.
Regresso da Alma
Olho-te.
E tudo o que estudei sobre a existência desfaz-se.
Ficas apenas tu.
O teu olhar.
A tua presença.
O silêncio entre dois corações.
E nesse silêncio descubro que o amor não é um encontro,
mas um reconhecimento.
Como se a minha alma, cansada de atravessar o mundo, finalmente tivesse encontrado o caminho de casa.
Então percebo:
há mistérios que não foram feitos para serem compreendidos.
Foram feitos para serem sentidos.
Por isso permaneço aqui, entre a ternura e o espanto,
a contemplar-te,
como quem contempla o infinito e, pela primeira vez,
não deseja resposta alguma.
Porque há instantes em que a eternidade deixa de ser uma ideia
e se torna presença.
Instantes em que tudo o que procurávamos fora de nós
surge, serenamente, no olhar de alguém.
E nesse instante, sem perguntas nem certezas,
apenas sei que cheguei.
Ao caminho.
À paz.
A casa.
I want to fall into your skin,
the way autumn falls from the trees: without haste, without warning, without return.
Amores que se Tornam Copa
Enquanto a floresta respira, o mundo estreita‑se: fico só eu, só tu, árvore dentro de árvore. Esta força que cresce entre nós como seiva a subir no tronco quando a noite decide ser fogo.
E há ainda os galhos que não se veem:
crescem para dentro,
procuram o coração,
tentam compreender o que significa amar sem pedir nada em troca.
No fim, percebo que esta árvore não é minha. É nossa. Cresce no espaço entre duas respirações,
entre duas palavras que ainda não dissemos,
entre dois silêncios que se reconhecem porque há amores que se tornam copa.
