Coleção pessoal de JoniBaltar
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No Alentejo a planície estende-se e
dissolve-se em silêncio: como um sonho que se recusa a terminar.
Exteriormente somos a interpretação
exigida pelo tempo; internamente somos a experiência íntima do tempo a atravessar-nos.
Sentir a brutal ausência de alguém
ensinou-me que chuva não cai sobre nós: cai através de nós.
Há quem carregue no coração a ternura das flores e isso, por vezes, pode ser maior do que o jardim inteiro.
No poente o céu
sangra cores
que não sabe guardar.
A praia é o lugar onde o coração aceita, por instantes, que não controla nada.
O amor é onde a pele aprende a pensar, um enigma que respira dentro do peito.
É o que nos desfaz para que possamos ver,
e o que nos refaz
quando já não sabemos quem somos.
No fim, o amor é isto:
um silêncio que nos reconhece
antes mesmo de chegarmos.
Um animal lembra-nos que a existência não precisa de explicação, apenas de atenção.
Quando entro no fundo de ti,
o mundo afina
o seu próprio silêncio,
como quem encosta a alma
a um grito no precipício
para ouvir se ainda ecoa.
Há instantes que nos escolhem
antes de sabermos o nome deles
e tu és esse instante:
a forma mais suave
que o destino encontrou
de me tocar.
Há encontros epidérmicos
que não passam,
ficam suspensos,
como lua cheia
a reconhecer o próprio destino
no rosto de alguém.
Amar é reconhecer
que o outro
é um abismo,
e mesmo assim
avançamos.
Certas músicas
são mãos invisíveis
a desfazer nós internos.
Alentejo, somente tu
consegues devolver
a noite ao céu.
A cidade oferece ruas;
nós oferecemos passos
e desse pacto nasce
o poema que o
chão murmura.
A tua ausência é o
único deserto que
não consigo atravessar.
Onde a tua toalha de praia repousa,
é onde o meu verão começa.
O sonho é o laboratório onde o inconsciente consegue testar versões possíveis do destino.
Há epidermes que só
são permitidas tocarem-se
no mundo onírico.
A insónia é o lugar
onde o meu silêncio
continua impreterivelmente
a saber à tua pele.
Habitares em ti
é aceitar que há
quartos escuros que
só tu conheces.
O mar e o céu são dois silêncios diferentes: um que nos chama, outro que nos observa.