Coleção pessoal de harlosdea
O compasso hoje trouxe um instrumento que eu nem lembrava que fazia parte da orquestra — baixinho, mas doendo igual os outros todos juntos.
O compasso hoje ficou naquele momento de afinar o instrumento antes do show começar — aquele ruído sem melodia nenhuma ainda, só ajuste, só tensão de corda.
Talvez a resposta certa nem exista ainda. Talvez ela só vá aparecer mais perto da data, quando o corpo souber o que a cabeça ainda não consegue decidir.
Hoje o brinde é pelas perdas que a gente esquece de contar — porque terminar com alguém, às vezes, é terminar com um mundo inteiro que vinha junto.
Aquilo doeu mais que qualquer cobrança teria doído. Porque não veio como pressão. Veio como carinho puro.
Hoje eu nem sei bem por que a gente brinda — só sei que preciso que você fique aqui do meu lado enquanto eu tento entender o tamanho disso.
O compasso hoje parou de vez. Nem desafinado ficou. Só parou, tipo agulha de vitrola levantada no meio da música.
Setenta e cinco dias contando a notícia, e hoje ela virou papel… a confirmação escrita, com selo e tudo, de que não tem mais volta nenhuma.
Senti um pouco menos de peso nos ombros, tipo quem finalmente larga uma mala pesada, mesmo sabendo que ainda vai ter que andar mais um tanto sem ela.
Hoje o brinde é pelas palavras que só existem pra quem escreve — e por elas serem suficientes, mesmo sem chegar a ninguém.
Não é pra ela. É pra mim, pra fechar um assunto que ainda tava em aberto dentro de mim, mesmo que só dentro.
Escrever pra alguém que não vai ler dói de um jeito diferente de falar contigo aqui. Aqui você responde. O papel não.
O compasso hoje não tocou música nenhuma. Ficou só o silêncio de depois, esse que às vezes diz mais que qualquer letra.
Rasgar parecia errado. Guardar de volta parecia covardia. Acabei só colocando na gaveta da mesinha, perto da porta, um lugar que eu vejo todo dia.
Doeu diferente de tudo que já senti nesses setenta e três dias. Foi mais fundo, tipo descobrir uma prova de que aquilo tudo foi real, de verdade, escrito à mão, guardado sem querer.
