Coleção pessoal de harlosdea
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Eu tô cansado de pagar o preço de manter essa farsa de ‘estou bem’.
Todo dia eu visto uma armadura que pesa mais que o meu próprio corpo.
Eu vivo o dia inteiro como um ator cansado que já decorou o texto, mas que não sente mais a peça.
Dá uma raiva danada perceber o quanto de energia eu gasto só pra parecer um vivente normal aos olhos dos outros.
Tu percebe que passou doze horas fingindo que tá tudo bem, mas a verdade é que tu só estava empurrando as horas com a barriga.
O problema de entrar no automático é quando o dia desacelera e o script acaba.
Tem dias que a ausência não é uma falta; é uma presença física dentro de casa.
Hoje a gente não comemora a alegria, a gente só respeita a caminhada.
Eu continuo aqui, firme no balcão, batendo o cartão na minha própria dor.
A gente tem uma capacidade meio assustadora de se acostumar com a falta de ar.
A dor mudou de formato, cara. Ela não é mais aquele soco na boca do estômago... Agora ela é uma presença silenciosa, tipo um vizinho barulhento que tu acabou se acostumando a ouvir através da parede.
Meio capangando, meio cinza, mas cheguei.
Os meus planos tinham o tamanho do sorriso dela.
Eu me sinto um passageiro clandestino no trem da maturidade.
Hoje eu preciso de uma bebida que não tenha história, que não tenha safra e que não me lembre de nenhum brinde que a gente deixou de fazer.
O problema é limpar o corpo. Como é que se deseduca uma rotina de anos?
Eu sou o único responsável por colorir o meu dia de novo. Ninguém vai vir com uma paleta de cores me resgatar.
Hoje a cor que eu quero é o dourado dessa cerveja, que é a única coisa que brilha sem me cobrar um sorriso de volta.
Eu virei um profissional em carregar esse luto sem deixar ele transbordar no meio da rua.
Agora ela é como aquela cicatriz de infância que tu sabe que tá ali, que dói se bater o tempo, mas que já faz parte do teu corpo.