Coleção pessoal de harlosdea
Fiquei incomodado por perceber o tanto que ainda tenho pra desapegar antes de conseguir olhar pra alguém sem fazer conta de comparação.
Hoje o brinde é pela tentativa — porque tentar já é alguma coisa, mesmo quando o resultado é só a certeza de que ainda não é hora.
Minha cabeça, sem pedir permissão, comparou. Comparou o jeito de rir, o jeito de segurar o copo, o jeito de puxar assunto… medindo todo mundo pela régua de uma pessoa que nem tava na mesa.
Por um segundo, só um segundo besta, eu senti uma pontada de esperança. Uma esperança idiota, sem pé nem cabeça, do tipo que eu já devia ter aprendido a não alimentar.
O compasso hoje bateu descompassado de um jeito novo — não de tristeza, nem de raiva. De esperança sem fundamento nenhum, que talvez seja o tipo mais perigoso de todos.
Hoje o brinde é por reconhecer a armadilha antes de cair nela — mesmo sentindo, por um instantinho besta, vontade de cair mesmo assim.
Fiquei parado no ponto de ônibus feito idiota, olhando pro celular, tentando decifrar aquele coraçãozinho como se fosse um enigma.
Uma curtida não desmancha convite de casamento nenhum. Mas o peito não entende essas contas direito, ele só sente o que sente, na hora que sente.
O compasso hoje não desafinou nem uma vez. Ele só ficou mais lento, tipo música de final de um show longo, quando a plateia já sabe que a noite tá quase acabando, mas ainda quer mais uma música antes de ir embora.
Cada dia um tijolo, meu, empilhado sem muita lógica, mas de algum jeito formando uma parede que já não desaba tão fácil quanto desabava lá no início.
Setenta dias é tempo suficiente pra aprender um idioma novo, pra treinar um corpo diferente, pra plantar uma horta e já colher alguma coisa. E eu, nesse mesmo tempo, aprendi só a beber devagar e a não mandar mensagem.
Hoje a gente brinda pelas lembranças que aparecem sem avisar — e por aprender, aos poucos, a olhar pra elas sem se afogar de novo.
O compasso hoje não desafinou por causa dela. Desafinou por causa do tempo mesmo — esse troço abusado que insiste em provar que oito anos não somem só porque a gente resolveu seguir em frente.
Uma vida inteira cabendo numa telinha de cinco polegadas, aparecendo do nada, sem hora marcada, sem pedir licença.
O celular não sabe que dói. Ele só sabe contar os anos e mostrar de volta, feliz da vida, achando que tá me fazendo um favor.
Raiva de ter escolhido o outro. Raiva de continuar linda, continuar tocando a vida pra frente, como se oito anos da gente coubessem numa gaveta fechada.
O compasso hoje não desafinou. Ele mudou de ritmo. Ficou mais seco, mais duro, tipo bateria sem melodia por cima ainda.
