Coleção pessoal de harlosdea
Hoje o brinde é cru: por essa raiva chegando atrasada, mas chegando — porque talvez seja o primeiro passo pra eu parar de só sentir saudade e começar, enfim, a sentir tudo o resto também.
Não é uma sensação boa, mas confesso que também não é totalmente ruim. Depois de tanto tempo só sentindo falta, dói de um jeito diferente sentir raiva. Quase parece um sinal de vida.
O compasso hoje quase acertou o tom sozinho. Por uns minutos, ele nem lembrou que tava tocando uma música triste.
Hoje o brinde é esquisito, eu sei, mas é sincero: por esses minutos roubados de alívio, mesmo que a gente ainda não saiba se merece ficar bem.
Fiquei com vergonha de ter ficado bem por um tempo. Como se esquecer, nem que por meia hora, fosse uma espécie de traição — traição à dor, que já virou quase uma companhia velha.
Talvez seja assim mesmo que a coisa funciona. Não é uma porta que fecha de um dia pro outro, é mais um instante aqui, um minuto ali, se somando devagar, sem pedir licença…
O compasso hoje desafinou de um jeito mais quieto, tipo quem finalmente entende que o relógio de verdade não é o meu.
Aquele silêncio esquisito, tipo quando param de tocar uma música no meio e o ouvido continua esperando a nota que não vem.
Duas contagens regressivas correndo ao mesmo tempo, uma tentando cicatrizar, outra tentando comemorar, e as duas com o mesmo nome dela no meio.
Hoje o brinde é diferente: é por quem segura os outros de pé e nunca pede pra ser segurado de volta.
Talvez a gente só se sente do mesmo lado do balcão porque, de um jeito ou de outro, os dois sabemos guardar silêncio quando dói.
Aquele gosto de ‘quase’ entalado, que dói até mais que um ‘não’ de verdade, porque o ‘quase’ fica ali, mofando, esperando uma próxima brecha de fraqueza.
Apaguei letra por letra. Devagar, quase com respeito, tipo quem desliga um som que já não devia ter ligado.
Hoje a gente brinda pelas mensagens que a gente tem a decência de não mandar — porque às vezes o maior gesto de amor que resta é o silêncio que a gente escolhe segurar.”
Talvez uma parte de mim quisesse só sentir o soco de propósito, pra depois poder dizer ‘pronto, já dói, já passou’
Hoje a gente bebe por essas emboscadas que a vida arma sem avisar, e por quem consegue continuar dirigindo mesmo com o farol fechado por dentro.
Veio só aquele aperto seco no peito, tipo quem reconhece uma cicatriz antiga, aquela que já não sangra mas ainda dói quando aperta no lugar certo.
