Coleção pessoal de harlosdea
Hoje o brinde é diferente: é por quem segura os outros de pé e nunca pede pra ser segurado de volta.
Talvez a gente só se sente do mesmo lado do balcão porque, de um jeito ou de outro, os dois sabemos guardar silêncio quando dói.
Aquele gosto de ‘quase’ entalado, que dói até mais que um ‘não’ de verdade, porque o ‘quase’ fica ali, mofando, esperando uma próxima brecha de fraqueza.
Apaguei letra por letra. Devagar, quase com respeito, tipo quem desliga um som que já não devia ter ligado.
Hoje a gente brinda pelas mensagens que a gente tem a decência de não mandar — porque às vezes o maior gesto de amor que resta é o silêncio que a gente escolhe segurar.”
Talvez uma parte de mim quisesse só sentir o soco de propósito, pra depois poder dizer ‘pronto, já dói, já passou’
Hoje a gente bebe por essas emboscadas que a vida arma sem avisar, e por quem consegue continuar dirigindo mesmo com o farol fechado por dentro.
Veio só aquele aperto seco no peito, tipo quem reconhece uma cicatriz antiga, aquela que já não sangra mas ainda dói quando aperta no lugar certo.
A vida dela tá acontecendo num canal, a minha tá sintonizada em outro, e tentar forçar a barra só faz chiar o som.
O mundo lá fora tá girando no volume máximo. E é engraçado como a gente pode estar no meio de um turbilhão de pessoas e, mesmo assim, se sentir num deserto absoluto.
A liberdade só é bonita quando é uma escolha tua; quando ela é o resultado de um abandono, ela tem muito mais cara de solidão.
Ter o controle total do meu destino perde o sentido quando o destino que eu realmente queria construir foi cancelado sem o meu voto.
Hoje a gente bebe por essa liberdade que eu nunca pedi pra ter, mas que agora sou obrigado a carregar nas costas.
É assustador ver como o mundo digital guarda a nossa felicidade em alta definição, intacta, enquanto na vida real tudo já virou poeira.
Aquele e-mail ainda tá ali, com a mesma formatação, o mesmo remetente, as mesmas palavras apaixonadas. Mas a pessoa que enviou aquilo já não existe mais pra mim.
A gente limpa o histórico, deleta as mensagens do celular, mas esses registros fantasmas sempre acham um jeito de aparecer pra lembrar o vivente do tamanho do naufrágio.
