Coleção pessoal de fernanda_santoro

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Há que se pensar na literatura como um agente cultural da sociedade.


Os livros revelam os nossos modos de viver, valores, crenças e costumes.


A escrita é, portanto, uma parte substantiva da sociedade.

As ações humanas orbitam em volta da comunicação.


Pelas palavras, nos fazemos representar, tanto individual como coletivamente.


É o manifesto do sentir.


É ferramenta para produzir e transferir conhecimento.


É veículo de informação e meio de expressão.


É arte em si mesma.


Assim, as palavras são o que fazem a comunicação transcender.

A escrita emoldura nossos pensamentos.


A palavra é o desenho da nossa voz em forma universal, feita para ser compartilhada e compreendida.


É algo que sai de dentro para fora. Sai de mim para você.


É entrega e troca. Doação e permuta.


Um e dois, dois e um.

Somos humanos porque existe linguagem.


Ela não nos pertence: nós é que nos encontramos sob seu solo.


A linguagem é quem fala; nós apenas co-respondemos ao seu apelo.

A escrita é lugar de coragem e de liberdade.


É exposição, mas também partilha.


O escritor, ao expor sua linguagem, a liberta e a ilumina.


Sob a luz, ela pode finalmente ser lida.

O leitor não deseja reter o texto, apenas mantê-lo em sua vista, sob seu olhar cuidadoso e vigilante, preservando sua essência.


Logo, o oposto de guardar algo é aprisioná-lo, pois isso desnatura sua essência.


A palavra sempre deve ser livre.

Reconhecer o alfabeto não é o mesmo que ler literatura.


A grandeza da literatura é apenas vista por aqueles que conseguem ver além dos signos alfabéticos.


É quando o leitor sente e compreende o ritmo, as alusões, a originalidade verbal, o apelo universal, a verossimilhança e a concepção criativo.

Para tomar a palavra e ser ouvido, é preciso demonstrar alguma qualidade.


Todos os autores de comunicação precisam, antes de tudo, capturar o interesse da sua audiência.


Conquistada a atenção, o orador deve então seguir para a argumentação.


A argumentação pressupõe a existência de um contato intelectual entre as partes


Quando esse “encontro” acontece, forma-se a chamada comunidade de espíritos.


Assim, orador e ouvinte têm apreço pelo consentimento e pela participação mental do outro.

Ninguém fala para as paredes.


Todo objeto de eloquência aspira a atenção dos ouvintes.


O discurso é, portanto, ajustado a partir do auditório.

A melancolia dispõe de mecanismos únicos que nos permitem uma compreensão maior de quem somos e do que sentimos.


E, por menos vibrante que esse humor pareça, ele entrega uma quota valiosa de contribuição na sociedade.


Basta pensar o que seria da Grécia sem Homero, da Inglaterra sem Shakespeare ou do Brasil sem Guimarães Rosa?


Por isso, há que se valorizar os autores que, corajosamente, se dedicaram a explorar mais a fundo o fator humano.


Essas narrações são pedaços genéticos da constituição da sociedade ao longo do trânsito humano.


Assim, é admirável ver o poder da ficção que se origina do nosso impulso cognitivo.

O estado melancólico nos transporta para um lugar diferente:


É um lugar que é mais propenso às meditações íntimas.


Durante a experiência melancólica, realizamos um mergulho mais profundo.


Nele, somos capazes de acessar substratos que somente se encontram nessas regiões.


Os resíduos que são encontrados neste estado são as pulsões mais significativas que temos em nosso interior.

Na travessia dos humores, a representante da bile negra, a melancolia, é forte canalizadora de inspiração literária ao longo da história.


Padecimento após uma perda. Nostalgia dilacerante. Lamento sobre uma má sorte. Desencanto persistente.


São muitas manifestações possíveis...

A literatura é um acontecimento artístico vivo, vívido, pulsante e possante.

Glassy peartree
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One shall not refuse the heat of the sun
Neither the sweet-seasoned showers
They pray for a lovely and temperate day
Where a choir of loud birds may sing
What the blessed spring must then bring






(Fernanda Santoro)

AMOR EM VELUDO


O convite à paixão é obra têxtil
Da natureza, extrai seus dotes
Na beleza, converte corações
Como mãos de sacerdotes


O talhe exibe uma feição amorosa
Com abertura nas espinhas dorsais
Em capricho se regeneram os tecidos
Ao se entrelaçar nas fibras naturais


De tudo que se tece e se adorna
Fio a fio, enfeita a alma com forma e cor
Um afago que pousa no corpo como veste:
A eterna procura nas malhas do amor
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Da coletânea “Poemas de Amor para Curar o Mundo”, da Lura Editora


(Fernanda Santoro)

Haicais para Brasília




Neste horizonte,
há curvas do arquiteto:
planalto em versos


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Concreto e verde,
tesourinhas que dão nó,
céu e cobogó


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Planos em recorte:
seu lindo abrir de asas
em sul ou norte






(Fernanda Santoro)

Haicai dos Medicados




geração do X:
zolpidem e rivotril
o divã vazio




(Fernanda Santoro)

Brincante


Fez-se luz onde era sombra
Fez-se festa onde era tédio
Foi um lapso de esperança
Que brotou em meio à seca
Feito riso de criança




(Fernanda Santoro)

Enfado


Há dias que nos sentimos
Tão sem graça e sem talento
Que nada nos contenta
O dia avança tão mais lento
Como tranças no fio do tempo




(Fernanda Santoro)

Poente


As últimas horas de sol
São – deveras – as mais bonitas
É Deus brincando de aquarela
Nas telas da nossa vida




(Fernanda Santoro)